05/06/2011 – 09:06
Ivo Cersósimo, na Tribuna da Câmara Federal, num tempo em que não se falava de retorno.
Tivesse o Mato Grosso do Sul grandes tribunos no Congresso Nacional, desses que pela eloquência e força do convencimento marcassem presença na Câmara e no Senado, finalmente poderíamos estar livres de alguns contratempos, como o da permanente confusão com sua própria identidade. Esta a síntese raciocínio do promotor de justiça aposentado Antonio Carlos Siufi Hindo em brilhante artigo neste fim de semana no “Jornal de Notícias”, de Ponta Porã. Acabei de ler o texto e bateu um saudade danada, correndo para meus arquivos em busca da foto que ilustra este texto em homenagem ao maior de nossos tribunos – Ivo Anunciato Cersósimo. Tem razão o Dr. Hindo, pois se o Mato Grosso do Sul tivesse ainda para representá-lo – na tribuna do Congresso e não nas portas dos Ministérios por onde jorram as verbas para os famigerados retornos – oradores do porte de Ivo Cersósimo, Antonio Carlos de Oliveira, Ramez Tebet, Mendes Canale, Walter Pereira ou os irmãos Wilson e Plínio Barbosa Martins não se trocariam mais as bolas do MS com as do MT e todo mundo saberia onde está localizado o verdadeiro Estado do Pantanal.
Pegando carona no mote da reencarnação do post anterior, Ivo Cersósimo, ao contrário de Lula, foi o maior exemplo de desencarnado no efetivo exercício da política, pois que já chegou “morto” a Dourados, nem por isso deixando de construir uma das mais brilhantes páginas da história da terra de seu Marcelino, elegendo-se deputado estadual pelos dois Mato Grossos e, ao lado de José Elias Moreira, representante de Dourados na Assembleia Nacional Constituinte.
Nascido em Pompéia, no interior de São Paulo, antes de se transferir para Dourados Ivo Cersósimo andou aprontando pelo interior do Paraná, de onde, para poder sair, precisou de um atestado de óbito. Tinha, como escreveu Siufi Hindo no jornal de meu amigo João Natalício, “a arte mágica de falar, surpreendendo e encantando a todos pela eloquência da oratória, pela vibração de seus propósitos, pelo poder forte de convencimento”, e “quando isso efetivamente ocorre”, continua Hindo, “a identificação física do parlamentar com a unidade federativa que representa cresce na mesma velocidade e força”. Não por coincidência essa polêmica toda em torno do nome do Mato Grosso do Sul se acentuou nos últimos anos, depois da passagem de Cersósimo e seus grandes parceiros de microfone pelas tribunas do Congresso Nacional .
A trajetória de Ivo Cersósimo pode até ter sido marcada pela controvérsia, a começar pela “morte” no Paraná, mas nada que pudesse manchar sua biografia como homem público. Discípulo de Filinto Muller no antigo PSD, em Dourados era aliado de Totó Câmara, nem por isso hesitou em abrir uma dissidência quando se viu preterido na disputa pela prefeitura, em 1976, o que favoreceu a eleição de José Elias Moreira contra Lauro Machado de Souza.
Das muitas histórias que deram origem ao seu vasto anedotário político a melhor delas é uma sempre lembrada pelo prefeito Murilo Zauith, cuja vinda para Dourados se deu em função da visão empreendedora de Ivo, como um dos fundadores da Socigran, atual Unigran. Abordado por um desafeto na “Pedra”, tradicional ponto de encontro dos douradenses, depois de ouvir um monte de impropérios, diante da aglomeração comum nessas situações e, pelo jeito, sem argumentos para contra-atacar, quando todos esperavam para se deleitar com seu impressionante poder de argumentação eis que o ás da oratória prefere ser lacônico: “e aí, o que foi que ele disse?”, deixando não só o desafeto como os curiosos pra lá de desapontados.
Com Ivo Cersósimo no Congresso o Mato Grosso do Sul certamente já teria reafirmado sua identidade, já que era um parlamentar na acepção da palavra. Daqueles que não pensam só naquilo, ou seja, nos retornos.
