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quarta-feira, maio 27, 2026

O legado de Itamar Franco

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03/07/2011 – 18:07

Arthur Caldas *

 

A primeira morte de um presidente pós-ditadura militar, reacende a verdadeira importância de seu governo e o seu legado enquanto ocupante do cargo mais importante do país. Independente de qualquer divergência política, Itamar Franco entrou para a história do Brasil por ter sido ele o responsável pela consolidação de dois aspectos que pareciam incorrigíveis naquele início dos anos 90: o político e o econômico.

 

Politicamente, o país em 1989 foi às urnas após um governo desastroso de José Sarney (1985-1989), que, para se ter uma ideia, nos deixou com uma inflação de 84% ao mês, com a esperança que um novo momento havia chegado e que era a hora do Brasil diminuir o seus problemas internos e externos. Fernando Collor de Melo ganhou as eleições e menos de dois anos depois as denúncias de corrupção que assolavam o seu governo foram suficientemente fortes para que se decretasse pela primeira vez na história do país um processo de impeachment sobre o maior representante da República. Não tendo outra saída, Collor renuncia e o vice-presidente Itamar assume. Muita tristeza e decepção para milhares de brasileiros que depositaram a sua confiança em um retorno triunfante da democracia.

 

Sabiamente, uma das primeiras ações de um desconhecido Itamar para os brasileiros, mas já um experiente político de Minas Gerais, foi uma reunião convocada por ele na qual estavam presentes todos os presidentes dos partidos políticos do país. Sabia ele que o apoio de uma ampla maioria seria fundamental para a governabilidade naquele momento. Como os representantes dos partidos se recusaram a propor uma nova eleição, acabaram por firmar, mesmo alguns tacitamente com Itamar, um apoio para o restante do mandato presidencial. O mais difícil ele tinha conseguido. E dessa forma o Brasil respirava aliviado por não ver aumentar ainda mais a instabilidade política. E nesse alvoroço político, obedecendo aos ditames constitucionais, ainda foi realizado um plebiscito em 1993 para escolher a forma e o sistema de governo. Resultado: a maioria confirmou o regime republicano e o sistema presidencialista.

 

Na esfera econômica o presidente Itamar Franco foi de ator principal a coadjuvante, graças ao seu ex-ministro da fazenda Fernando Henrique Cardoso, que promoveu-se muito mais do que deveria como a figura mais importante do Plano Real em 1994. Ora, vaidoso como ele é, Fernando Henrique esqueceu-se de que estava ali graças a uma conjuntura política. E o presidente que ali se encontrava era Itamar Franco. Se hoje as novas gerações não sentem na pele, no estômago e nos bolsos o que é uma inflação incontrolável, a semente plantada foi no governo Itamar.

Percebemos que os fatos eram totalmente desfavoráveis para um desfecho pacífico e que resultasse em uma certa estabilidade política e econômica para a nação. Mesmo assim, o Brasil conseguiu superar obstáculos que na visão dos países ditos desenvolvidos, seria mais um exemplo nítido de insucesso de um país latino-americano.

Dificilmente o nome de Itamar será associado a “maracutaias”, desvios de dinheiro público ou qualquer ato de improbidade administrativa. Ele, concordando com o que dizia ou não, tinha atitude. Falava o que pensava. Hoje está cada vez mais raro encontrar um político com essa atitude, em um mundo marcado pelo politicamente correto e baseado em troca de favores.

 

Alguém pode perguntar: mas durante o seu governo não houve erros? Lógico que sim. Mas com certeza, em apenas dois anos os acertos foram fundamentais para um redirecionamento político e econômico do país. Depois do governo Itamar o Brasil respirou aliviado e disse: “Ufa! Essa foi por pouco!”.

 

OBS: Mesmo com a falta que Itamar fará no Congresso Nacional, cabe aqui frisar que não compactuo com a visão da conceituada historiadora Maria Aparecido de Aquino ao dizer que o “Brasil possui uma dívida com o Itamar”. Acredito que a palavra certa não seja “dívida”. Temos que reconhecer que ele foi um político que pautou a sua vida pública em defesa de uma melhoria concreta e não apenas em discursos falaciosos. Afinal de contas, ética, honestidade e a defesa da melhoria de vida dos cidadãos brasileiros não seriam posturas obrigatórias de quem nos representa?

 

OBS2: Quem assumirá o lugar de Itamar Franco no Senado será Zezé Perrella, presidente do Cruzeiro Esporte Clube. É a mudança da “água para o vinho”. Se tiver curiosidade, vá ao Google e digite simplesmente “Zezé Perrella é acusado” ou “Zezé Perrella é investigado”, que você conhecerá um pouco mais sobre o substituto de Itamar Franco.

 

 

 * Advogado e professor

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