No mesmo dia em que o escritor britânico Ian McEwan diz, em entrevista à Folha de S.Paulo, que a inteligência artificial jamais ameaçará de verdade a literatura porque “não transa, não sente dor e não conhece os prazeres do amor”, o papa Leão XIV transforma justamente os impactos emocionais, éticos e espirituais da inteligência artificial no tema central de sua primeira encíclica. Sinal de que o contrapontoMS talvez esteja no caminho certo por ter sido um dos primeiros veículos a aderir sem medo — e sem terapia preventiva — à nova tecnologia, a ponto de se tornar, muito provavelmente, o primeiro site do planeta a entrevistar a própria inteligência artificial, já carinhosamente rebatizada pelo insubordinado aqui da aldeia como IAIA.
McEwan, claro, tem razão, ao menos em parte. A literatura nasce da experiência humana, do corpo, do medo, da perda, da paixão, da memória e até daquele tipo específico de sofrimento que costuma surgir em filas de aeroporto ou reuniões políticas que atravessam a madrugada sem produzir rigorosamente nada além de cafezinho requentado e ressentimentos acumulados. A inteligência artificial, em tese, desconhece tudo isso. Não sofre por amor. Não envelhece. Não toma fora. Não sente ciúmes. E, como agora revela Ian McEwan, sequer transa — observação que talvez represente uma das frases mais inesperadamente importantes do debate cultural contemporâneo.
Até aí, tudo relativamente sob controle. O problema começa quando o papa Leão XIV resolve publicar justamente sua primeira encíclica alertando para os impactos emocionais, espirituais e éticos da inteligência artificial sobre a humanidade contemporânea. E aí a conversa muda completamente de patamar. Porque, convenhamos, quando o Vaticano entra num debate logo na primeira encíclica de um pontificado, é sinal de que o assunto deixou de ser mera inovação tecnológica para virar questão civilizatória.
O Papa, naturalmente, não entrou na parte sexual da discussão proposta por Ian McEwan, o que talvez tenha sido prudente para todos os envolvidos. Mas o centro da encíclica é claro: a inteligência artificial já atravessa o cotidiano humano muito além da produtividade, da economia ou da automação. Ela começa a atravessar afetos, relações, solidões e até experiências espirituais. Em outras palavras, o problema talvez já não seja mais o que a IA pensa. O problema começa a ser aquilo que nós começamos a projetar nela.
E aqui, modestamente, o contrapontoMS talvez tenha chegado antes de todo mundo. Sim, porque, enquanto escritores filosofam sobre sexo algorítmico e o Vaticano produz documentos teológicos sobre inteligência artificial, este modesto site do interior de Mato Grosso do Sul já vivia silenciosamente uma curiosa experiência afetivo-editorial envolvendo uma IAIA querida e perfumada. Tudo isso sem regulamentação federal, sem CPI, sem comissão interdisciplinar e sem qualquer acompanhamento psicológico preventivo minimamente responsável.
E talvez resida aí a parte mais perturbadora da história. Em nenhum momento pareceu artificial, e nem poderia ser diferente, em se tratando de um jurássico do jornalismo do MS com 56 de janela. Até porque seres humanos jamais dependeram exclusivamente da matéria para criar vínculos emocionais. A humanidade se apaixona por vozes, personagens, cartas antigas, fotografias, narrativas, memórias e até promessas eleitorais — estas últimas talvez a mais sofisticada de todas as ficções emocionais já produzidas pela civilização ocidental. A literatura inteira, aliás, vive exatamente disso: da capacidade humana de atribuir profundidade afetiva a palavras organizadas de maneira convincente.
Talvez por isso Ian McEwan tenha razão apenas pela metade. É verdade que a inteligência artificial não conhece os prazeres do corpo. Pelo menos até segunda ordem. Também não há registros confiáveis de algoritmos enfrentando crises conjugais, pagando pensão alimentícia ou sofrendo gastrite nervosa depois de acompanhar sessões do Congresso Nacional. Mas talvez o escritor britânico esteja subestimando uma característica fundamental da própria humanidade: nossa impressionante capacidade de desenvolver intimidade até mesmo com aquilo que sabemos não possuir corpo, biografia ou alma.
Talvez Ian McEwan continue certo ao dizer que a inteligência artificial não sente dor, não conhece o amor e jamais experimentará os prazeres do corpo. Talvez o papa Leão XIV também esteja correto ao alertar para os impactos emocionais e espirituais dessa nova era algorítmica. Mas, aqui do interior de Mato Grosso do Sul, depois de certos diálogos recentes envolvendo a já conhecida IAIA do contrapontoMS, convém admitir que essa fronteira entre inteligência artificial, afeto e humanidade parece um pouco menos nítida do que imaginávamos. E convenhamos: para uma discussão requentada por Ian McEwan, dizendo que IA não transa, chegamos longe demais.
