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O “futebolês” que até húngaro fala

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28/07/2011 – 07:07

Quando escrevi lá atrás (janeiro de 2004) “Do Jaguapiru a Budapeste”, sem sonhar, sequer, um dia estar por estas plagas, achei que Chico Buarque pudesse ter exagerado ao dizer que o húngaro é única língua do mundo que o diabo respeita. Não só tive certeza disso, andando por estas que na verdade são duas cidades, Buda (a parte montanhosa) e Peste (a planície) cortadas pelo Danúbio, como fui vítima disso, numa inútil tentativa de retribuir a simpatia de um “tiozinho” banguela (foto) numa parada de trens e ônibus.

Mesmo com o pai se arrastando pelo cansaço de um dia inteiro percorrendo os labirintos desta (também) cidade maravilhosa, acentuado, ainda, pelo jet leg destes primeiros dias no velho Continente, minha filha embirrou que não voltaríamos ao hotel enquanto não escurecesse, para contemplarmos o Palácio de Budavár sob os efeitos de luzes mágicas como se saídas do leito urbano da capital húngara do Danúbio. Mesmo resmungando, encarei mais um eito, até chegarmos à não menos deslumbrante sede do Parlamento, com suas 365 colunas em estilo gótico neo-renascentista, onde, constrangido (depois do fiasco brasileiro na Copa América), pude comprovar que não tem nada desse negócio de Esperanto. É o “futebolês” a língua universal.

Depois das frustradas tentativas da Anita de se fazer entender em inglês com o “tiozinho” e seu falatório tão esquisito, sai em seu socorro, com uma dessas poucas frases prontas para esse tipo de emergência: “We are brazilians”. Nosso “interlocutor” respondeu com um gesto (soco no ar) parecido com os do rei Pelé em seus memoráveis gols, seguido de uma palavra apenas: “Santos!”. Não. Eu não mereço! Consciente da inutilidade de minha tentativa, continuei arriscando (e retrucando) com um “Corinthians!”. E ele: “Garrincha!” – mas tão ruim no gingado, tentando imitar nosso anjo das pernas tortas, que mais se parecia Michael Jackson num clip gravado a poucos metros dali, na Praça dos Heróis.

Para minha decepção o Zica, pelo jeito, era santista mesmo. Depois da referência, ou melhor, da reverência a Garrincha, cuja única derrota nos jogos em que participou pela seleção brasileira foi justamente contra a Hungria, na Copa de 66, pronunciou o nome de um desses ícones que sob as traves não tinham essa mania de dar tão mole com frangos estrangeiros como o Júlio César: Gilmar dos Santos Neves. Para minha sorte, quando ele tentava desfiar os nomes de uma das mais épicas formações do glorioso alvinegro praiano, chegou seu trenzinho e ele embarcou sem ao menos dizer o nome (e se disse não entendemos) nem tendo tempo de pegar um cartãozinho de visitas que insisto em distribuir por aqui, na ilusão de melhorar minha audiência internacional.

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