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quinta-feira, julho 2, 2026

Detalhes tão pequenos de um povo civilizado

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02/08/2011 – 05:08

 

Reservatório de toquinhos de madeira, combustível imprescindível do inverno europeu, ao lado do florido “hotel” para vacas e cavalos.

Tivesse eu paciência de esperar Murilo Zauith concluir seu mandato, que fosse em janeiro de 2013! ou o jornalista Nicanor Coelho emplacar seu Midiaflex e, juntos, organizassemos um desses pacotes turísticos para visitar a Áustria, certamente que me divertiria muito com Coelho “tirando umas” de Zauith por aqui. Por sua condição de neo-esquerdista, dificilmente o prefeito se daria bem num país que, embora atualmente dirigido por um socialista, insiste em andar pela direita, seja nas escadas de metrô, nos labirintos dos castelos, dos spas ou das suntuosas casas de espetáculos; nas calçadas ou nos parques, onde as bikes, como as de Coelho, têm sempre preferência.

Não tenho a pretensão de repetir o antológico médico douradense Joaquim Lourenço Filho, que transformou as crônicas de seu giro ao mundo em livro; apenas, como brasileiro preguiçoso assumido, destacar alguns pequenos detalhes que mostram como se constrói uma civilização. Adiantando-me, já, aos inúmeros questionamentos que terei de responder em meu retorno (olha ele aí!) cito três situações: a do choque inicial de costumes, como, por exemplo, ter de tirar o calçado para adentrar as casas; o deslumbramento e a emoção pelo contato com as origens culturais (como assistir a orquestra de Mozart executando um Danúbio Azul, de Strauss, numa das três mais importantes salas de concertos do mundo ou tomar um chá no Schönbrum, o palácio onde nasceu nossa imperatriz, dona Leopoldina) e, parar para reflexão, uma hesitante mas necessária incursão ao interior do pátio, alojamentos, ao crematório, câmaras de gás, mesas de dissecação, com relação de nomes, fotos e tudo mais lembrando as centenas e centenas de vítimas do maior genocídio da história – o holocausto – num campo de concentração.

As dificuldades de Murilo Zauith começariam nas calçadas da praça em frente ao prédio do Parlamento austríaco, exatamente onde Nicanor Coelho partiria para o seu deleite. O prefeito teria que – convicções socialistas à parte -, cuidadosamente, andar pela direita, dando lugar para que ciclistas como Nicanor trafeguem, preferencialmente, pela esquerda. E não sai da frente pra ver o que acontece. Detalhe: aqui editor do Midiaflex não precisaria dispor dos minguados lucros de seus trabalhos literários para comprar uma bike nova a cada cem mil pedaladas. Elas estão disponíveis, “de grátis”, em qualquer praça, bastando para isso uma moedinha “retornável” ao final do uso no cadeado que as prendem aos “bicicletários”.

Enquanto o mesmo Murilo Zauith deve estar fazendo das tripas coração para tentar igualar seu grande feito educacional da iniciativa privada à combalida rede municipal de ensino, por aqui o governo paga – em cash – a quem quiser estudar. Minha filha, por exemplo, ganha muito mais só para ter aulas de alemão do que um DGA intermediário na prefeitura de Dourados. Aliás, escola, na Áustria, é obrigatório até para cachorros, que têm lugar nos passeios turísticos, hotéis e até à mesa, com seus donos. E ai daquele que fizer um pipi na roda de uma dessas “banheiras” – os carros preferidos dos europeus.

Os celeiros de fartura? Lembrei-me da frase de abertura do hino do Mato Grosso do Sul, que ouvi desde criança, numa referência principalmente à Grande Dourados, durante o percurso entre Munique, na região da Baviera (Alemanha), e a divisa entre a Áustria e a Suíça, onde está o castelo “Cisne de Pedra” o mais bonito, mais famoso e mais visitado do mundo, tanto que serviu de inspiração ao Castelo da Bela Adormecida, um dos símbolos de Walt Disney. Fartura de tudo, numa região de muita agricultura e até um pouco de pecuária; de energia, inclusive a eólica com seus imponentes aerogeradores (pás gigantes, lembrando as dos moinhos de ventos que alucinaram Dom Quixote), onde se sobressai, evidentemente, a indústria do turismo.

Tirante o sufoco que foi estar no topo dos Alpes, com meu genro me submetendo a um baita teste cardíaco ao cortar montanhas num ritmo tão frenético quanto ao de Roberto Carlos pelas curvas da estrada de Santos, em terra firme, mais dois detalhes tão pequenos uma grande civilização: por conta de uma leitura equivocada do GPS, estacionamos num estábulo, como se tivéssemos chegado ao nosso hotel, tão chique é o local destinado à proteção dos animais durante o rigoroso inverno. Da janela, aí, sim, do hotel, no segundo piso, a contemplação do que parecia um belo jardim, mas, na verdade, pudemos constatar com o pôr do sol, um pequeno cemitério com seus túmulos todos iluminados à luz de velas. Fiquei sabendo depois que aqui é assim, que os cemitérios se espalham por toda a parte, sendo que um deles, próximo a Viena, é anexo a um restaurante, com o freguês podendo comer enquanto contempla as sepulturas.

Incompatível com toda essa beleza paradisíaca, que sugere paz e tranquilidade, só mesmo o mau humor dos europeus e a intolerância, ainda, com alguns estrangeiros, principalmente de países árabes, mais especificamente os turcos. Não fossem de tão boa qualidade, exceto os vagões caindo aos pedaços do metrô mais antigo da Europa (em Budapeste) diria que o tempo de espera nestas estações pudesse gerar tanto estresse, mas não. Os estressados estão por toda parte, ainda mais quando se deparam com brasileiros folgados ou bisbilhoteiros, como um blogueiro (do Jaguapiru) de férias. 

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