01/09/2011 – 09:09
Anita Tetslaff/arquivo
Valdecir e Geraldo: por um triz o feitiço não virou contra um dos feiticeiros.
Ouvindo assim o que parece ser mais uma de suas estapafúrdias invencionices, a impressão que se tem é de que o Valdecir é mais louco do que sempre se supôs, mas independentemente da emoção pela aproximação do primeiro aniversário de sua prisão ou da inspiração por estar de novo sob o teto da varanda onde ecoa o canto da saracura e onde várias vezes fora aconselhado a se conter, ainda quando candidato a prefeito, as declarações de sábado passado, ao Blog, põem ainda mais lenha na fogueira cujas chamas insistem em arder depois dos ventos soprados pelo furacão de setembro do ano passado. E a grande novidade, já degustando um cafezinho preparado com carinho pela mesma funcionária municipal por ele perseguida como forma de retaliar o marido, blogueiro, que tanto fustigou seu (des)governo: a Uragano atrapalhou seus planos, pois foi dele a ideia de gravar conversas com políticos corruptos, tanto que planejava distribuir cerca de R$ 400 mil a vereadores, durante uma recepção, sob medida, ocasião em que convidaria também a polícia para prendê-los em flagrante.
Num raro momento de lucidez e de humildade o ex-prefeito, como que combinado com outros uraganos arrependidos, tem uma explicação para tantos desatinos: “não vou dizer que sou santo, todo mundo pega (“retorno”) mas não do jeito que falam”, dizendo-se refém da Câmara de Vereadores e dos deputados que carreavam recursos para a cidade. Tanto que, se o deputado federal Marçal Filho, só para não disputar com ele a prefeitura pediu R$ 2 milhões, imagina o que lhe custava a tal governabilidade. Valdecir começa a falar em números, mas evita dar nomes aos bois. Lá pelas tantas, com as saracuras aumentando a algazarra, como se ninguém estivesse ouvindo ele não se aguenta, solta um nome, seguido de um número: “O Dirceu, só o Dirceu pediu isso aqui, oh, para não instalar a CPI contra mim”. E, a exemplo do que fez quando deu a pista dos percentuais de retorno de Geraldo Resende, levantou a mão direita, fazendo um “o” com o polegar e o indicador, dando a entender que a pedida do petista Dirceu Longhi, que acaba de montar um restaurante em ponto nobre da cidade, era de R$ 300 mil.
Quanto ao dinheiro apreendido com ele em sua residência, um ano atrás, Valdecir garante que não era fruto de corrupção e, aí, outra bomba: eram R$ 100 mil repassados por Murilo Zauith, para a campanha de senador e outros R$ 100 mil do prefeito Nelsinho Trad, de Campo Grande, para o mesmo fim. A diferença, segundo ele, teria ficado com seu ex-secretário de governo, Darci Caldo, um dos operadores do esquema.
Valdecir estufa o peito, joga as almofadas do sofá de um lado para o outro e insinua que vai abrir o jogo quanto aos mentores da Uragano. “Eu não sei, mas você sabia do namoro do Murilo com o Galloni?”. De tanto ouvir o governador André Puccinelli falar em namoro com os petistas, lá atrás, e, agora com o PDT de Dagoberto Nogueira, é assim que tenta juntar as pontas da história para denunciar a autoria da operação policial que o levou à derrocada e Zauith a assumir o seu lugar na prefeitura – o fato do delegado federal ter sido durante muito tempo professor na Universidade da qual o prefeito é também o presidente de honra.
Um ano depois, Valdecir ainda fala como prefeito e dá números de sua passagem pela prefeitura, dizendo que se a atual administração conseguir pelo menos iniciar tudo o que ele deixou encaminhado Dourados já estará no lucro. Interrompe a conversa várias vezes para falar pelo celular com ex-assessores, alguns deles ainda com poder de mando na prefeitura, para se certificar do andamento de obras. Não satisfeito, liga também para lideranças comunitárias e, como nos velhos tempos, põe o telefone no viva voz quando o interlocutor reclama do sucessor.
Seu grande lamento é a perda de R$ 84 milhões para a implantação de duas avenidas ligando a região do Shopping e Rodoviária à BR-463, margeando o córrego Paragem, com a readequação do Parque Arnulpho Fioravante e construção de setecentos apartamentos para as famílias removidas daquela área. “Perderam o dinheiro por falta de projeto e ninguém fala nada; era dinheiro, já liberado, do PAC II que consegui com o Vander (Loubet) e o Delcídio (Amaral)”. Lamenta também – e denuncia – a devolução ao proprietário de um área que conseguiu desapropriar às margens da BR-463, para facilitar o acesso a áreas residenciais.
Quando fala de habitação popular o Valdecir fica mais alterado ainda. “Deixei projeto e dinheiro liberado para quase seis mil casas e até agora só conseguiram entregar as casas do Walter Brandão”, diz, numa referência às cerca de quatrocentas casas recentemente entregues na região do Novo Horizonte. “Quero ver se o Murilo vai ter cara para inaugurar o conjunto Dioclécio Artuzi”, diz, lembrando as novecentas casas que, segundo ele, deixou quase prontas no conjunto que leva o nome de seu tio, o vereador cuja morte possibilitou sua ascensão à vida pública. Ele tem na ponta da língua os nomes de todos os conjuntos residenciais que projetou, o número de casas e a fase em que se encontram as obras. Fala também com desenvoltura sobre as obras de pavimentação e recapeamento de seu tempo, comparando o tapa-buracos de Zauith a um prato de arroz socado e o que acontece quando se joga água em cima, denuncia o “sumiço” dos dez milhões que conseguiu com André Puccinelli para o recapeamento das vias centrais, como a Marcelino Pires, Ponta Porã e Monte Alegre e diz que ninguém lhe tira os méritos pela implantação da Perimetral Norte. “Só saiu porque fiquei em cima do governador”, diz, informando que vai espalhar faixas pela cidade quando da inauguração.
Valdecir lembra também que deixou “licitados” R$ 35 milhões para obras de drenagem, que comprou máquinas, caminhões e pás carregadeiras, reafirmando que sua meta era asfaltar, sim, toda a cidade.
“Se eu tasse (sic!!!) lá tava tudo andando, tudo acontecendo, por isso me prenderam e me obrigaram a renunciar”. E repetindo o que já havia antecipado ao blog, perguntando: “Se você estivesse lá no federal (presídio de Segurança Máxima, de Campo Grande) e apontassem uma carabina para sua cabeça, você também não renunciava?”. Com base nisso ele acredita reverter o processo e, pelo menos, conseguir uma boa indenização para não precisar mais sair por aí vendendo queijo caipira. O que ele quer, mesmo, é voltar à política, dizendo que para isso já providenciou um tambor e uma escadinha, para seus comícios, a partir do ano que vem.
