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quarta-feira, julho 1, 2026

O retorno da civilização

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13/01/2012 – 09:01

Foto: Anita Tetslaff

Na civilização de Porto Alegre, capital dos sebos, a gente compra livro assim, na rua.

Na primeira metade da década de 1940, ante a ameaça de perpetuação do império da Companhia Mate Laranjeira no já aí fragilizado e corrupto Estado (dos coronéis) de Mato Grosso, um baixinho bombachudo, chegado num bom charuto e macho uma barbaridade criou o Território Federal de Ponta Porã, conseguindo assim implantar a Colônia Agrícola Federal de Dourados, como parte de sua estratégica marcha rumo ao até então inóspito oeste brasileiro. Seu nome, Getúlio Dorneles Vargas, nascido em São Borja, Rio Grande do Sul. Trinta e sete anos depois, incomodado com as dimensões continentais deste mesmo Mato Grosso, ainda capengando, um “alemão” com cara de bravo resolveu dividi-lo, dentro, ainda, da mesma estratégia de aceleramento do desenvolvimento do centro-oeste. Seu nome, Ernesto Geisel, nascido em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul. Implantado o Mato Grosso do Sul, diante da falta de civilização da classe política do Estado que nasceu para ser modelo o general Geisel tira do bolso da gandola o nome do primeiro governador: Harry Amorim Costa. Nascido onde o buenacho bigodudo e competente engenheiro que havia dado cabo à erosão que ameaçava engolir Glória de Dourados? Em Cruz Alta, no mesmo Rio Grande do Sul. Antes disso, no alvorecer do século XX, na mesma Cruz Alta, meu bisavô, José Luiz da Silva, punha a renque de filhos numa carreta e partia rumo ao desconhecido, chegando alguns meses depois à fronteira com o Paraguai, daí para, assim como tantos outros gaúchos visionários de seu tempo, instalar-se no Guassu, onde nasceria minha mãe, numa fazenda mais tarde propriedade do hoje prefeito Murilo Zauith.

Agora, em dezembro, um dia antes de começar a fazer o caminho inverso, combino com o ex-vereador douradense Juarez Fiel Alves (gaúcho de Palmeiras das Missões, residindo há anos em Cuiabá e por aqui passando a caminho dos pampas) “descer” meio emparelhados. Ao chegar para o pernoite em Frederico Westphalen, informo-lhe via torpedo que “até aqui o Laquicho vai bem”, ao que ele, naquela animação que lhe é peculiar, responde estar “adentrando ao Rio Grande amado”. Lembro-me de meu avô, o velho Gelista, que assim gostava de se referir ao torrão natal. Gaúchos ou deles descendentes são sempre assim. Além de extremamente visionários, de bem com a vida e, que torça o nariz quem quiser, civilizados, sim senhores! E os que por lá ficaram, ainda movidos pelo sentimento farroupilha, como tive oportunidade de comprovar neste meu retorno a Porto Alegre, se lixando para o resto do Brasil.

Como nada neste mundo é perfeito, alguém há de lembrar que nesta história de ida e vinda (ou retorno, claro) da civilização esqueci o Valdecir. Claro que não, até porque nunca antes em minhas andanças cruzei por tanta placa de retorno como na rodovia Leonel Brizola, nas imediações de Soledade, por coincidência, um dos melhores acessos a São Valentim, a terra do dito cujo. E, cá entre nós, se São Valentim se livra de um Valdecir, que vira mito político em Dourados, quem, de Dourados, pode abrir a boca para falar que o rio-grandense não é um povo civilizado? Isso sem contar outros refugos vindos de contrapeso em meio a tantas levas de gente honesta e trabalhadora que ajudou a construir a história da terra de seu Marcelino.

Com a consciência pesada pelo lapso da curta ausência e diante de apelos para o incontinênti retorno feitos por amigos e leitores como Orlando Pascotto, Luiz Carlos Santos e Roberto Razuk, entre tantos outros, depois de mais de doze horas dirigindo sem parar (e sem rebite!), já ao anoitecer, confundo Ivinhema com Paris por causa de um loteamento novo sem uma casa sequer, à beira da rodovia, mas todo iluminado, à espera de eventuais inquilinos. Um desperdício total, coisa de gente sem noção de civilização! Menos mal que já aqui chegando, também lembrando Paris, mais propriamente a pista do aeroporto Charles de Gaulle, de tão bem sinalizada, com aqueles olhinhos de gato e tudo mais, no melhor trecho asfaltado dos três mil quilômetros percorridos, a rodovia Deodápolis-Indápolis, cortando o mesmo Guassu de velho Urbano, o meu bisavô. Coisas de André Puccinelli, o governador que finalmente está colocando o Estado nos trilhos, também quase um gaúcho, já que, nascido na região da Toscana, na Itália, chegou à civilizada Porto Alegre ainda de cueiros.

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