09/02/2012 – 16:02
Dante Filho
Pela primeira vez na história de Mato Grosso do Sul, um governador
enfeixa em suas mãos a política estadual de maneira
hegemônica. Trata-se de fato inédito. Desde a criação do
Estado o quadro político sempre foi polarizado com a disputa
entre duas ou três lideranças, que antagonizavam projetos e
interesses, mobilizando expectativas e processos eleitorais.
Foi assim durante anos entre Wilson Martins e Pedro Pedrossian.
Continuou assim entre Zeca do PT e Puccinelli. Agora,
essa dualidade parece ter chegado ao fim. Haverá outras?
Não se sabe. Atualmente, é preciso reconhecer que não há
nada parecido no cenário. Todos parecem querer ser “amigo”
de todos. Havia até pouco tempo uma tese difundida de que o
caciquismo reinante jamais prescindiria de uma disputa frente
a frente entre estas lideranças. Como se sabe, esta “verdade”
foi derrubada nas últimas eleições quando Zeca e Puccinelli se
defrontaram diretamente. Depois disso, houve uma névoa dissipadora
e, paulatinamente, o espectro político neutralizou-se
com o domínio quase que absolutista do governador.
Está mais do que evidente que Puccinelli neutralizou a oposição.
Ele conta com alta popularidade e faz uma administração
acima da média. A economia do Estado está bem gerida e não há
sinais de desgastes internos. O que o governador pode ter, aqui
e ali, são contrariedades motivadas por ranços pessoais – algo
natural em se tratando de personagem tão afeito a polêmicas.
Mesmo seu difundido autoritarismo mercurial esvaneceu-se à
medida em que passou a controlar a língua nas suas declarações
à imprensa.
Por isso é inimaginável que possa haver qualquer definição
sobre o futuro político do Estado que não tenha hoje sua influência
direta. Esse lócus consensual nunca ocorreu antes porque
nenhum governador de Mato Grosso do Sul conseguiu estabelecer
controle exclusivo sobre a máquina política. Ave, Puccinelli.
Pode-se alegar que como ele não poderá mais concorrer
ao cargo de governador nas próximas eleições é natural que
as correntes políticas contrárias não o vejam como adversário
e, dessa forma, passem a lhe dar tratamento mais amistoso,
prometendo amizade eterna. Falso.
A questão é de outra ordem. Em qualquer cenário político
do Estado não há quem imagine ser possível ter viabilidade
eleitoral na contracorrente dos interesses de Puccinelli. Pegue
o caso do PT: nenhum petista de sã consciência, na próxima ou
em futura eleição, desfraldará verdadeiramente as bandeiras
oposicionistas contra Puccinelli. Ao contrário: a tendência é de
adesão, vide as recentes declarações de Zeca do PT e de outras
lideranças partidárias.
Portanto, aqueles que imaginam que o destino reserva de
maneira irrecorrível o cargo de futuro governador ao senador
Delcídio do Amaral convém colocar as barbichas de molho.
Nada é tão certo assim. Se Delcídio não conseguir “amarrar”
Puccinelli ao seu projeto é provável que morra na praia.
Delcídio deve saber disso melhor que todos. Ele conhece
o governador o suficiente para saber que se ele (Puccinelli)
decidir colocar empenho renhido no apoio a outra candidatura
(Simone Tebet, Waldemir Moka, etc.), não medindo esforços a
la Lula para elegê-la, haverá uma eleição caríssima, polarizada
e muito complicada. O senador só se elege com o governador
ao seu lado. Sem ele, adeus.
É verdade que neste campo não há certezas. Tudo é fluido.
Mas a única coisa certa será o domínio do governador sobre
os movimentos do jogo, no qual tudo convergirá em torno dele,
seus feitos, sua imagem, seu legado.
Apenas uma questão merece ser levantada ao final deste artigo.
Puccinelli está realizando uma administração equivalente à sua
obra política? Parece que sim. Digo parece porque mesmo que o
Governo esteja colocando muita informação à disposição do público
em torno do seu trabalho, tudo se resume a apenas isso: informação.
Na maioria das vezes, ela é fragmentada. Não é possível vislumbrar
planos estratégicos para formar sinapses que estabeleçam
um conceito sólido de políticas públicas que reflitam um momento
histórico. Trata-se de uma falha. Que pode ser irrelevante à medida
que não haja nada melhor para se colocar no lugar.
É jornalista – dantefilho@folha.com.br
