09/02/2012 – 09:02
De um cidadão que chega à presidência da República sem nunca ter passado pelo teste das urnas, como João Baptista de Oliveira Figueiredo (em foto antológica) pode até se justificar um deslize como o de preferir o cheiro de cavalo ao cheiro do povo. De uma jornalista como Eliane Cantanhêde, até se perdoa a infelicidade da frase, por ela atribuída a um tucano, segundo a qual o PSDB é um partido de massa, mas de massa cheirosa. Nem o general Figueiredo precisou de votos para chegar aonde chegou, muito menos Cantanhede para as espinafradas diárias na classe política em sua coluna escrita de Brasília para a Folha de S. Paulo. Mas um político, na situação em que está o deputado Geraldo Resende e às vésperas do pleito em que pretende concorrer à prefeitura, melhor seria não arriscar nesta dubiedade que é o tal cheiro do povo. A menos que Resende, que escreveu ontem eu seu twitter que toda essa encrenca é uma trama dos poderosos para impedir que alguém com cheiro de povo dispute a prefeitura, depois de todos esses anos de exercício da medicina e da boa vida de parlamentar, esbaldando-se mundo afora na primeira classe de jatos superconfortáveis, tenha mantido os hábitos de higiene de quando era jornaleiro ou picolezeiro nas ensolaradas e poeirentas (muito mais naquela época) ruas de Dourados.
Aliás, não é fácil lidar com cheiros, nesta mistura de candidatos com o povão. Alguns por demagogia, outros por problemas de saúde, de higiene ou só pra contrariar Figueiredo ou Cantanhêde costumam abusar do cê-cê, como se o povo, em geral, fosse realmente avesso a um bom banho ou gostasse desse tipo de cheiro.
Em minhas marquetagens políticas encarei algumas situações pra lá de constrangedoras. Já imaginou você chegar no camarada para lembrar que além de um bom desodorante é preciso caprichar mais nas esfregadas no sovaco debaixo do chuveiro? Não é tarefa fácil. Numa dessas situações deleguei a difícil tarefa a uma assessora mais chegada do dito cujo. Noutra, quando estava ensaiando a abordagem, pela dificuldade que imaginava ter pela frente, chutei o balde, ficando a dúvida se a aca do candidato teve alguma influencia na estrondosa vitória que se vislumbrava.
O dicionário Aurélio define cheiro como a impressão produzida no olfato pelas partículas odoríficas – “cheiro agradável, perfume, aroma, odor, fragrância, olor”, mas, também, como “mau cheiro, fedor, fetidez”, daí o risco de alguém sair por aí alardeando que tem, que gosta ou não do cheiro do povo, até pelo preconceito estabelecido a partir da frase de um presidente da República.
Ainda nesta seara política a palavra pode ser usada para definir a atuação daqueles que, principalmente nesses últimos tempos, se destacam por ter faro para alguma coisa ou quando há indício, vestígio ou rastro, por exemplo, de maracutaia.
E, no que seria uma heresia de Mestre Aurélio, mas que acaba também se encaixando na condição de alguns políticos, o cheiro de santidade, para o dicionarista, cheiro que, segundo a tradição religiosa popular, exalam os cadáveres dos santos, por extensão, o estado de graça permanente de uma pessoa, o qual faz presumir sua admissão no rol dos santos. Que sejam todos santos, de verdade! Até porque, o cheiro de corrupção já está embrulhando o estômago de todo mundo.
