21/03/2012 – 09:03
“Se vocês pensam em me eleger prefeito pra roubar podem tirar o cavalinho da chuva”
João Totó Câmara (1929-2012)
Agora o time está completo no Paraíso. Harrison de Figueiredo, o penúltimo a partir, em 2005, sabia que teria de esperar um bom tempo pelo último timoneiro do “grupo dos onze”, pelo medo que ele tinha da morte. Ontem à noite, o último chamado. Leonel Brizola, o idealizador do grupo armado nos moldes de um time de futebol para mudar a história política do Brasil em meados da década de 1960 deve estar por demais inquieto. A gota d’água pode ter sido o mais recente e elucidativo escândalo de corrupção no Brasil, escancarado desde o último domingo pela Rede Globo de Televisão. Ainda mais roubo de dinheiro da saúde, no Estado por ele governado duas vezes. Isso é uma barbaridade! Parece que estou vendo tio Briza dando um ultimado a Figueiredo, seu ponta-de-lança em Mato Grosso do Sul: “Paraguai, chama o Totó, urgentemente, com ele aqui podemos montar uma estratégia para mandar esta cambada de vagabundos para os quintos dos infernos!”.
Vereador, prefeito duas vezes, deputado federal também por dois mandatos, ironicamente presidente estadual da toda poderosa Aliança Renovadora Nacional, a ARENA, que dava sustentação ao regime militar que tanto o perseguiu; secretário estadual de Agricultura, tentou ser senador, mas concorrendo com dois “monstros” da política estadual, Rachid Saldanha Dérzi e Wilson Martins, fazendo sua última investida como candidato a vice-prefeito de Murilo Zauith em 2000, depois de aposentado como Conselheiro do Tribunal de Contas, João Totó Câmara desencarnou ontem à noite, em Campo Grande, aos 83 anos, vítima de um infarto fulminante. No dia da partida, passou a tarde fazendo o mais gostava, proseando com amigos. O último a estar com ele, acho que não por coincidência, foi o xará, como ele gostava de dizer, daquele que comumente é aceito como um dos chefões na hierarquia celestial, o anjo Serafim. Eduardo Serafim era um de seus melhores amigos e conselheiros, tanto que o substituiu na Secretaria de Agricultura.
Sujeito desprovido de vaidades, piadista de mão cheia, Totó Câmara sai da vida para entrar na história como a maior e mais respeitada liderança política da terra de seu Marcelino, também a sua terra. Nos tempos em que foi prefeito, ainda no antigo Mato Grosso, não havia esse negócio de retorno de dinheiro de corrupção. Não seria absurdo, aliás, elucubrar se o infarto que o levou não foi consequência da sensação de impotência diante do descalabro dos valores éticos e morais, já que começou a passar mal no momento em que assistia ao Jornal Nacional, com a reprise recheada de novas denúncias sobre o roubo da saúde que, como todo mundo está cansado de saber, não acontece apenas no Rio de Janeiro, mas alastrando-se pelos confins da Pátria, particularmente (vide a Uragano) em Dourados.
Quando prefeito Totó usava o próprio carro, um fusquinha, não só para inspecionar obras, inclusive na zona rural, que ia até o hoje município de Angélica, como para as reuniões políticas e administrativas em Campo Grande. Não tinha motorista, tanto que um dia acordou no meio de uma lagoa à margem da BR-163 depois de cochilar ao volante. Morava com sua mãe, dona Rosa, numa casa de madeira na rua que leva o nome de seu pai, João Cândido Câmara, o português, de quem herdou o apelido.
Estrategista, ao final de seu primeiro mandato de prefeito, diante da metralhadora giratória de Jorge Antônio Salomão à frente programa “A Bronca”, chamou os mais chegados, passando-lhes a fórmula de calar aquela reencarnação douradense de Carlos Lacerda. “Vamos entregar a prefeitura pra ele”. Diante do assanhamento do radialista para ser prefeito, Totó lançou um companheiro, Theotônio Alves de Almeida, apenas pra cumprir tabela, convicto de que Salomão era só gogó e que voltaria triunfalmente. Dito e feito.
Em sua campanha de retorno à prefeitura, o segundo maior rompante: enfrentou a polícia, quando puxava uma passeata, literalmente de peito aberto, desabotoando a camisa, desafiando a atirararem no deputado federal de Dourados. O primeiro rompante foi durante o primeiro mandato de prefeito, quando, diante da intromissão de Pedro Pedrossian na política local, mandou avisar: “Da barranca do Rio Dourados pra cá mando eu”.
Quando esse negócio de prefeitura começou a virar nicho de mercado Totó Câmara, já a caminho da aposentadoria, foi sondado para voltar a se candidatar a prefeito. Ele impôs uma condição, numa frase que deveria servir de lição, principalmente aos companheiros peemedebistas tão obcecados pelo cargo: “Se vocês pensam em me eleger prefeito pra roubar podem tirar o cavalinho da chuva”.
Enquanto seu corpo se encaminha para a Câmara Municipal, onde o velório deve começar por volta do meio dia, João Totó Câmara, certamente triunfa no Paraíso, onde deve estar sendo recepcionado pelo cunhado, conselheiro e melhor amigo Harrison de Figueiredo, pelo também cunhado Faé Bianchi, por Ediberto Celestino e Lauro Machado, pelos Moacir Marcha Lenta e Barreto de Souza, o Lamparina e por todos os integrantes do grupo onze, entre os quais Walter Baiano e Batista Targino.
