14/04/2012 – 10:04
Conhecido o diagnóstico e iniciado o tratamento, não adianta retorno ao médico ou ao hospital. Pelo contrário, quanto mais retorno mais a doença, popularmente conhecida como “prefeitite” se alastra, começando sempre com um vírus alojado no sistema nervoso central. A esperança do cada vez maior e mais assustador número de pacientes é que, na linha do jeitinho brasileiro, há o lenitivo pelo mal não afetar, em princípio, os membros superiores, como os braços que sustentam as mãos que contam dinheiro, muito menos os inferiores, como as pernas. Menos mal, vai que o sujeito, debilitado, precise pular uma janela ou uma cerca para se escafeder na quiçaça, diante da insistência de alguns policiais em não compreender que se trata de uma patologia. E ai do paciente se precisar de um hospital desses da rede conveniada ao SUS e camuflados como filantrópicos que atendem prefeituras de cidades de médio porte, como Dourados, dos quais vira e mexe escapa um vírus tão ou mais perigoso, desses que se alastram pelos plenários das Câmaras de Vereadores, derrubando a maioria de seus integrantes.
Quando a ciência ainda não estava tão evoluída a “prefeitite” era encarada como uma gripe, que vem e passa, nem precisando medicação, bastando um chazinho da vovó. Para uns, era até sinal de status. Afinal, do que adiantavam milhares de cabeças de gado no pasto se o sujeito não tinha o poder político? Pra não deixar o blogueiro mentir, aí está, vivinho da silva, Antônio Moraes dos Santos (foto). Acometido de “prefeitite” este udenista empedernido costumava desfilar pela “Pedra”, já na década de 1950 o ponto preferido da turma do “rádio peão”, sempre usando calças e camisas de linho puro, numa Dourados de terra vermelha e sem um metro de asfalto, o que não era problema para quem se dava ao desfrute de suas, sempre duas, Mercedez Benz, sempre do ano. Moraes foi curado de sua “prefeitite” graças a uma substância milagrosa sempre mocozeada nas Assembleias Legislativas, a mesma que, no caminho inverso, pela interrupção no tratamento, atingiu mortalmente Valdecir Artuzi, com o advento da Uragano.
A doença pode ser também de origem ideológica, como a que afetou Vivaldi de Oliveira e João Totó Câmara nos áureos tempos da criação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados. Vivaldi foi curado depois de se descobrir espírita, quando, na Assembleia Legislativa, em Cuiabá, recusou-se a ingerir algumas doses deste mesmo elixir da longevidade política que Londres Machado guarda a sete chaves em seu gabinete, tanto que não deu a receita nem à esposa, Ilda, acometida por uma “prefeitite” já em estágio terminal.
Na fase inicial, e não tratada adequadamente, pode levar a problemas cardíacos, como o piripaque que obrigou Murilo Zauith a colocar umas molas no coração, em 2000. A síndrome de perseguição é outro sintoma. O doente não sossega enquanto não vê defenestrados todos os que cruzarem seu caminho, melhor ainda, mandando-os para o xilindró, de onde dificilmente voltam a ameaçar. O problema são as recaídas, com faniquitos ao sinal do menor problema, já que quem está na plenitude da “prefeitite” não permite ser contrariado em hipótese alguma.
A “prefeitite” não chega a ser endêmica, mas é altamente contagiosa, costumando atacar principalmente nos bolsões de pobreza, de quatro em quatro anos. Nos maiores aglomerados urbanos, como que por castigo, exceção a alguns abestados, costuma contaminar os mais abastados. Seu mais perigoso estágio é quando os sintomas, dificultando o diagnóstico, se assemelham aos do TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), normalmente originário da cobiça, prima-irmã do orgulho e do egoísmo – as duas maiores chagas da humanidade. Neste caso, aguda, é sem retorno, segundo especialistas. Ou seja, morte certa.
