06/05/2012 – 10:05
Diante da tenebrosa perspectiva do quadro político pintado no post anterior, e, como no próximo, de novo, vem chumbo grosso (o que é que eu posso fazer?) contra a turma dos retornos, aproveito a manhã ensolarada deste domingão de outono para me deleitar com uma literatura mais leve, porém não menos contundente, como sempre, com uma colherzinha de chá aos que pretendem se aventurar na próxima corrida sucessória municipal e, de quebra, fornecendo alguns subsídios ao principal protagonista dessa peleja – sua excelência, o eleitor. Isto, em que pese a jura do prefeito Murilo Zauith em texto de Cícero Faria no Correio do Estado de hoje, de que o legado de sua administração será a moralidade, num pressuposto de alguém, enfim, há de escapar das garras do promotor Luiz Gustavo Camacho Terçariol, muito a fim de, agora sim, colocar um ponto final na farra com o dinheiro público.
Embora tenhamos, aqui mesmo, na terra de seu Marcelino, alguns bons exemplos de administradores sérios, como o médico Nelson de Araújo, que pagava as contas da prefeitura com dinheiro do próprio bolso ou João Totó Câmara, citado no Blog várias vezes pela relutância em voltar ao cargo pela terceira vez porque desconfiava das más intenções de alguns companheiros, foi na revista de história da Biblioteca Nacional que encontrei um exemplo de prefeito ideal para a Dourados pós-uragânica. Um cabra macho, cuja missão, mais ou menos parecida com a de Zauith, só foi aceita porque a cidade estava numa urucubaca, pelo assassinato do antecessor, e assim mesmo depois de muita relutância, açoitado pela maledicência de que tinha medo de fracassar:
- “Apareça o filho-da-puta que disse que eu não sabia montar em burro bravo”. O filho-da-puta não apareceu e, assim, numa eleição, segundo suas próprias palavras, “naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando”, em plena República Velha, o dito cujo virou prefeito e fez história. Segundo a revista, seus relatos em forma de prestação de contas ao governo do Estado se transformaram em pérolas de estilo, ironia e sagacidade, um verdadeiro manual de decência na administração pública, tanto pelo que fez e como se comportou, quanto pelo que deixou de fazer e criticou – todos os vícios do modus operandi tradicional de nossa política.
O relato do ilustre prefeito de Palmeira dos Índios, nas Alagoas dos anos 1930, segundo a revista História, pelo “frescor de uma fotografia digital” oitenta anos depois ainda serve de manual com muito o quê ensinar a candidatos e eleitores. Além do prejuízo como empresário, com sua loja de tecidos Sincera quase indo à bancarrota, ao eleger-se prefeito Graciliano Ramos (foto) ainda perdeu tempo como escritor, já que sua consagração viria com Vidas Secas, São Bernardo e Memórias do Cárceres, estas, não por ter se locupletado no – ou com o – poder, mas por seu suposto envolvimento com a intentona comunista e pelas denúncias do próprio sistema prisional, com seus antológicos bilhetinhos, que ganharam mais vida ainda na magistral interpretação de Carlos Vereza no cinema.
Quando Graciliano ensina como impor autoridade, na lição número 1, numa Palmeiras dos Índios com inúmeros prefeitos, como os cobradores de impostos, o comandante do destacamento e até os soldados; com cada pedaço do município tendo sua administração particular, com prefeitos coronéis e prefeitos inspetores de quarteirões, não há como não lembrar a administração das várias correntes petistas que colocou Dourados no olho do furacão.
A lição número 2 ensina que o nepotismo é palavra a ser riscada do caderninho. Em tempos de tantos retornos não chega a ser o nosso mal maior, mas a lição número 3, a que trata da necessidade do conhecimento das leis com que se trabalha talvez servindo de exemplo para a nossa Câmara suplente, pela gastança desnecessária com advogados de fora de seu quadro para se convencer do elementar direito, por ela negado, do sagrado pirapirê para a farmacinha dos aposentados.
Quando ensina como gerenciar bem os recursos, na lição número 4, Graciliano, já naquela época, critica a “praga do marketing” das realizações públicas, primeiro crime de Murilo Zauith como prefeito, conforme canetada do promotor Terçariol. “Só porque um deputado esticou a canela precisa passar telegrama?”, questiona Graciliano.
Como esta publicação da Biblioteca Nacional é de 2008, bem possível que tenha chegado ao Valdecir, pelo menos, e ao que tudo indica de forma distorcida, uma parte da lição número 5, que manda priorizar os desvalidos, mas sem prejuízo do aumento de salário dos professores e da construção de escolas, já que Graciliano entendia que as crianças precisavam aprender a ler para tirar o título de eleitor e decorar sonetos. É que na era Valdecir, nessa de priorizar os desvalidos que se “internavam” em cadeiras de fios nos corredores do Hospital Evangélico acabou sobrando dinheiro até para o mensalinho dos vereadores.
A lição número 6 é um mimo e interessaria pelo menos a um dos eventuais candidatos nesta próxima eleição, a depender, evidentemente, do entendimento do Judiciário. “Apaixonar-se!”. Isto mesmo. Viúvo, aos 35 anos, entre a eleição e os preparativos para a posse, seu Graciliano enamorou-se da bela Heloísa. E a impressão a ela transmitida, numa das muitas missivas, da pedreira que tinham pela frente, e que serve de reflexão para nossos candidatos, por tudo que Dourados ainda vem passando: “Para os cargos e administração municipal escolhem de preferência os imbecis e os gatunos. Eu, que não sou gatuno, que tenho na cabeça um parafuso de menos, mas não sou imbecil, não dou para o ofício e a qualquer dia renuncio”. Bem diferente do expoente da Uragano, o Valdecir, obrigado a renunciar para sair da cadeia.
