30/05/2012 – 20:05
Foto: TV Grandourados
Benê Cantelli, engajando a empresária Cleuza Zornita em sua cruzada por ferrovia e aerovia
De tanto ouvir histórias de saci-pererê crescei cultivando imagens deste serelepe negrinho saracoteando ali pelas bandas do Jaguapiru, numa dessas situações, depois de uma daquelas ventanias em cujo redemoinho gostava de aparecer, raptando para abandonar longo em seguida, sentada num banquinho às margens do Laranja Doce, uma tia que derriçava o cafezal de meu avô Aparício Machado onde hoje passa a parte da Perimetral Norte que vem da região do Castelo para ligar a BR-163 à agora estadual 463. Por essas e por outras alucinações, estado de espírito certamente agravado depois dos solavancos da Uragano, vira e mexe o já costumeiro estardalhaço da saracura me desperta para estranhos barulhos no que restou da mata ciliar do mesmo Laranja Doce, onde termina meu quintal, tanto que ultimamente, dada a insistência de algumas visitas indesejáveis e ameaçadoras, tratei de reforçar a segurança, até então a cargo apenas do Otto Skorzeny – um pit bull deixado de herança por minha filha quando se mandou para os States e de lá para a Europa. A neura é tão grande que semana passada quase tenho uma sapituca ao perceber, beiradeando meu muro, um grupo armado de facões e machetes, só me acalmando depois de informado tratar-se de familiares em busca de um desaparecido (que não era Quilombola!) da Picadinha.
Este remelexo todo é a propósito da insistência de Benê Cantelli em seu programa “Dourados em Revista”, no canal 9 da Via Cabo, cobrando um ramal ferroviário e linhas com voos regulares (e preços condizentes com a realidade) daqui para os grandes centros, fazendo-me cruzar duas histórias interessantes, mas ao mesmo tempo, levando-me a concordar com alguns internautas quanto a alguma alteração de meu estado de espírito. É que na ânsia e na torcida de que por conta das cobranças de Benê prevaleça o velho dito de que água mole em pedra dura tanto bate até que fura passei a interromper frequentemente meus escritos a todo ronco esquisito, correndo para entortar o pescoço na esperança de ver o tal avião da Azul cruzando os céus douradenses. Nesta linha neurastênica, começo até confundir o barulho de um “liquidificador de baiano” da construção ao lado aqui da batcaverna com o apito da Maria Fumaça enfileirada de vagões atulhados de soja embarcada na estação Tenente Pestana, em Itahum, por aqui passando rumo ao portos de exportação.
O problema é que a lucidez reavivada pelo exercício do jornalismo opinativo nestes tempos uragânicos e de transbordamento das comportas das cachoeiras da corrupção brasileira funciona como um balde de água fria, para as pretensões não só de Benê Cantelli, como de todos que sonham viajar mais confortavelmente de asa dura ou tendo seus produtos exportados com mais economia e segurança pelos trilhos de uma ferrovia que insiste em não sair do papel. E, assim, como as alucinações que me remetem ao danado saci-pererê, os números das demandas – tanto da economia regional como do fluxo diário de passageiros que utilizam o cada vez mais perigoso transporte rodoviário – fazem lembrar o famoso lobby dos balseiros sobre a classe política que num passado não tão remoto impedia a construção de pontes como a que liga o Mato Grosso do Sul a Guaíra, no Paraná, entre outras. Moral da história: o isolamento aéreo e ferroviário da terra de seu Marcelino Pires pode ser mais uma praga por conta da maldição dos retornos. Ou, pela falta deles, como contrapartida das companhias aéreas e ferroviárias.
