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quarta-feira, julho 1, 2026

Um palavrão em tempos de mensalão

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31/07/2012 – 11:07

Pode parecer falta de assunto diante do incomodativo silêncio da saracura, sofrendo tanto quanto eu pelo assoreamento do Laranja Doce recentemente agravado com o tombamento dos frondosos cinamomos que ajudavam a prolongar a fresca da varanda onde escrevo estas mal traçadas linhas. Mas, foi só depois da chegada (atrasada, como sempre) da Veja desta semana (com José Dirceu na capa com um biquinho lembrando o botoque do cacique caiapó Raoni, como que a dizer, “não tô nem aí pra essa turma do STF”) que consegui fechar a cruzadinha do difícil Desafio Cobrão 253, pág. 42, onde a resposta para o conceito aplicado ao detentor de qualidades como honradez e honestidade cujo exemplo deve ser seguido é uma palavra que saiu de moda desde que o deputado Roberto Jefferson criou o neologismo mensalão para qualificar o maior escândalo de corrupção da história brasileira. Aí estão os garranchos que não me deixa mentir: reserva moral.

Aproveitando as vantagens do oráculo Google nestas horas de vácuo total de memória, digitei a frase ícones de moralidade e, para minha surpresa, quem é o primeiro da lista? Inacreditável, mas quem quiser pode conferir: Demóstenes Torres. Sim, o cara que acaba de ser defenestrado do Congresso Nacional, segundo ele mesmo, cassado, “por incomodar muita gente” nestes temos de mensalão. Na verdade, minha esperança era encontrar algum mato-grossense do Sul, um Mendes Canale, por exemplo, entre veneráveis contemporâneos da política nacional do quilate de um Theotônio Vilela, o menestrel das Alagoas; Waldir Pires, ex-governador baiano candidato a vice-presidente da República de Doutor Ulysses Guimarães; Leonel Brizola, por que não? e até o franciscano Pedro Simon, uma voz cada vez mais solitária num Congresso de tantos “retorneiros”, mas o mais próximo de nossas fronteiras ainda é da parte de cima do velho Mato Grosso, o combativo promotor que virou senador, Pedro Taques, reforçando a tese do tiro pela culatra que foi a divisão do Estado, já que, pelo jeito, o Brasil ainda não descobriu o Mato Grosso do Sul.

Como mestre Aurélio define oráculo como deus, assim, com ‘d’ minúsculo, o Google talvez peque por entender como perda de tempo escarafunchar a história de corrutelas, pois nomes como Vivaldi de Oliveira e Nelson de Araújo poderiam estar no topo da lista de busca por ícones de moralidade ou por palavras como a que me deu tanto trabalho para matar a charada da cruzadinha ao lado. Vivaldi, maior líder trabalhista da história da terra de seu Marcelino, o prefeito dos pobres e deputado que mesmo arrebentando nas urnas largou tudo ao se descobrir espírita, e Dr. Nelson, o prefeito que pagava as contas da prefeitura com dinheiro do próprio bolso.

Um dos subtítulos da reportagem de capa – preta para realçar a cara de desdém do lugar-tenente de Lula da Silva, com a palavra réu em destaque, num vermelho PT – “God e seus discípulos”, seria um escárnio, não fosse o Brasil um país de tantos todo-poderosos como José Dirceu, o que me tranquiliza pela amnésia em relação a reserva moral. A matéria põe Márcio Thomaz Bastos, literalmente, nas Alturas, apontando o caminho a ser seguido por alguns dos mais renomados profissionais do Direito brasileiro, como Arnaldo Malheiros, Alberto Toron e Antônio Carlos de Almeida Castro. Na defesa, claro, dos réus da roubalheira.

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