03/08/2012 – 07:08
Reprodução
Flagrante da tentativa de sabotagem do avião de JK, em Dourados, no filme “Bela noite para voar”
“Como esse trem está crescendo!”. A exclamação é do presidente Juscelino Kubitscheck de Oliveira, ao abrir a janela de sua aeronave, já sobrevoando a Colônia Agrícola Nacional de Dourados, implantada pelo antecessor Getúlio Vargas, depois de madrugar em Campinas para um encontro com o excêntrico mato-grossense governador de São Paulo Jânio Quadros. Escala de um voo da antiga (Rio de Janeiro) capital da República para Belo Horizonte, a paisagem douradense inspiraria JK a alterar seu plano de voo para um pouso na futura (Brasília) capital, em obras por ele tocadas em ritmo alucinante, levando de carona o prefeito Antônio Moraes dos Santos. Mal sabia ele dos riscos que corria. É que enquanto recebia autoridades da região no casarão da João Rosa Góes sabotadores da aeronáutica, cumprindo ordens de superiores a serviço dos interesses contrariados dos Estados Unidos pelo rompimento do Brasil com o FMI misturavam água no combustível do avião presidencial.
O frustrado atentado seria apenas a primeira ocasião para Dourados virar manchete internacional. A segunda, já na administração de Vivaldi de Oliveira, foi evitada por obra dos espíritos trabalhadores do bem, que salvaram outro mineiro, desta vez o médium Chico Xavier, cuja aeronave, procedente de Assunção avariada por uma forte tempestade precisou fazer um pouso forçado no mesmo aeroporto.
Como tragédias – apenas e felizmente – anunciadas os dois episódios viraram filmes. No mais recente deles, por absoluta ignorância da produção, a hilária história dos poucos minutos de fraqueza espiritual de Chico Xavier, que dá nome à película, é contada como ocorrida na ponte aérea Rio-São Paulo. Não menos desinformada, “Bela noite para voar”, dirigido por Zelito Viana com roteiro baseado num livro de Pedro Rogério Moreira, mostra o terminal de passageiros de meados da década de 1950, mais moderno que o atual. Interessante, a propósito das tão decantadas reformas para os voos regulares que nunca chegam, é a indignação que isso já causava lá atrás, com o filme enfatizando o murro na mesa de JK passando ordens ao Ministério da Aeronáutica para “implantar imediatamente uma pista mais comprida” em Dourados, depois de ficar sabendo que o campo de aviação de chão batido da Cabeceira Alegre era muito curto para sua “máquina” – um C-47 que a FAB acabara de adquirir para seu deleite pelos ares do Brasil.
Como Dourados parece fadada a notícias e episódios desta natureza, culpa talvez da tal cabeça de burro enterrada ao lado da estátua de Antônio João, o herói da cidade que sequer conheceu, a fama viria mais tarde, quando PC Farias, pivô da queda de Fernando Collor, aproveitou-se, para fugir do Brasil, de outro aeródromo local, coincidentemente o construído pelo petista Teruel. Como o prefeito Ari Valdecir Artuzi foi para a cadeia com toda sua caterva tão logo Lula da Silva decolou com seu Airbus do aeroporto Francisco de Matos, pode ser que a praga se repita, uma vez confirmada a informação de Veja desta semana dando conta da intenção de José Dirceu de sair “de novo” clandestinamente do Brasil ante a iminência de condenação como chefe da quadrilha do mensalão. Como se vê, base – e apoio – petista é o que não falta em Dourados. Ainda mais agora, que todo mundo é companheiro.
