28/01/2013 – 10h14
Integrando uma delegação do Programa Economia Solidária (uma das boas iniciativas da administração do prefeito Cecílio Tetila deixadas de lado por seus sucessores), minha Anita Tetslaff retornou da mesma Santa Maria da tragédia de ontem embasbacada, não apenas pelas belezas naturais da morraria do entorno da terra de Noemi Ferrigolo, mas, principalmente, pela educação dos santa-marienses no trânsito. Como integrante de um ingênuo grupo de funcionários de carreira que ainda arrisca conceber ideias para que as ditas agências de publicidade engordem suas carteiras de comissões junto aos veículos de comunicação, ela até pensou em sugerir alguma solução para o sempre caótico trânsito douradense, empolgada no que viu por lá, com base em coisas simples, práticas e objetivas, como o “pisou na faixa, pise no freio”, no que foi por mim desaconselhada, não só para não ser acusada de plágio, mas pelo risco da desconsideração dos arredios ao investimento em ideias, os caras-de-pau adeptos do “eu já havia pensado nisso”.
No ócio deste final de ano, até rabisquei um roteirinho para dar de presente à agência oficial de propaganda prefeitura, mas, temendo o mesmo tipo de carão, decidi continuar incógnito em minha insignificância. Talvez seja o caso de fazer uma obra de caridade, e, neste caso, sugerindo alguma a coisa à TV Morena, para preencher os buracos sem propaganda de sua grade da programação – aqueles institucionais com cara de calhau que tanto amarguravam meu amigo Fábio Zahran, por ser o tipo da propaganda sem retorno para os cofres da emissora.
Nem precisa ser um gênio da área de criação para imaginar, por exemplo, uma situação de costura no trânsito, por um desses sempre apressados e amalucados motoqueiros, numa sequência de imagens com a rotina de ambulâncias do Samu e dos carros dos Bombeiros com suas assustadoras sirenes, um corpo estendido no chão, como os dos tantos jovens de ontem em Santa Maria, capacete ao lado, moto destroçada, com a fusão de imagens para outra costura – num centro cirúrgico, de uma perna ou de uma cabeça de uma das muitas vítimas do trânsito. Para os mais lerdos, quem sabe até fechando com uma frase do tipo: “pior é quando nem dá tempo de costurar”, fechando o vídeo com uma daquelas imagens que ninguém gosta de ver, mas que infelizmente são as mais eficazes para sensibilizar a todos, como as de Santa Maria que correm o mundo desde ontem.
Com seu povo e seus motoristas dando um belo exemplo de educação no trânsito, Santa Maria, numa terrível ironia, promove, no atacado, uma sessão pública de desencarne, precisando enfileirar caminhões frigoríficos para conservar os corpos de seus jovens até a identificação e posterior sepultamento. Enquanto isso, além da irresponsabilidade, mas também pela dificuldade de se distinguir as preferenciais entre suas amplas avenidas, Dourados vai contabilizando, no varejo, suas mortes de trânsito, ficando o alerta para que esta estatística não seja engrossada pelo descuido ou pela ignorância dos fogueteiros que também por aqui costumam promover grandes eventos com jovens universitários. E que a cada retorno das ambulâncias do Samu ou dos Bombeiros não tenhamos que levar as mãos à cabeça para exclamar, depois de ontem com muito mais ênfase ainda, Santa Maria!
←TEXTO ANTERIOR ouPÁGINA INICIAL→

