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Atraído pelo canto da sereia, Alan Guedes lembra Luiz Antônio

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06/03/2021 – 13h00

Com os que não trabalhei, tive contato muito próximo, como amigo ou como profissional de imprensa ou da publicidade. De Totó Câmara (meu grande amigo e conselheiro, meu padrinho de casamento, de quem fui assessor de imprensa na segunda administração) – o último prefeito nascido em Dourados ainda nos tempos do velho Mato Grosso – a Alan Guedes, o primeiro depois da criação do Mato Grosso do Sul, todos foram por mim duramente criticados. Sim, Alan Guedes, coitado, nem bem chegou e já levou umas bordoadas, por conta dos equívocos iniciais que podem, inclusive, custar o seu mandato. A propósito, num lide jornalístico desse tipo de assunto, não poderia faltar o maior fenômeno eleitoral entre eles – Ari Valdecir Artuzi – o único a ter o mandato cassado. “Talkei”, Alan Guedes?

João Totó Câmara – Prefeito por dois mandatos, no intervalo eleito deputado federal, suas muito bem avaliadas administrações fizeram dele a grande liderança regional do final dos anos 1970. Populista, acordava cedo e dormia tarde, para, além de visitar obras na periferia, percorrer “as linhas e os travessões”, como gostava de se referir à zona rural do município, onde estava o grosso de seu eleitorado. Maquiavelicamente, não se esforçou para eleger seus sucessores. Suas vítimas, Theotônio Alves de Almeida, que perdeu a eleição para Jorge Antônio Salomão, e Lauro Machado de Souza, que perdeu para José Elias Moreira.

José Elias Moreira – O prefeito que modernizou e revolucionou a administração pública, com a implantação de obras de infraestrutura que proporcionaram as condições para Dourados ser a grande cidade que é hoje. Um exemplo: o projeto CURA (Comunidade Urbana de Recuperação Acelerada), cuja base foi o projeto de urbanização de Jaime Lerner, um dos mais renomados arquitetos do mundo. Montou um secretariado com técnicos vindo de fora, o que rendeu críticas de aliados políticos e da imprensa, mas depois todos tiveram que dar mão à palmatória. A coisa deu tão certo que saiu da prefeitura para disputar o governo do Estado, depois se elegendo deputado federal, história já contada em prosa verso aqui neste blog. Perdeu a eleição para o governo do estado, mas elegeu seu sucessor, o professor Luiz Antônio Álvares.

Luiz Antônio Álvares Gonçalves – Professor, delegado regional de ensino e chefe de gabinete do padrinho político Zé Elias. Seria um pecado dizer que ficou deslumbrado por, em sua estreia como político, derrotar o grande líder Totó Câmara, o carismático Braz Melo (apoiado pelo todo-poderoso governador Pedro Pedrossian e, principalmente, pelo politiqueiro programa “panelão” de Maria Aparecida Pedrossian); os vereadores Sultan Rasslan e Atílio Torraca, o promotor Luiz Nathanael Machado Baldijão; o ruralista Cicero Irajá Kurtz e até o popularíssimo radialista Isaac de Barros. Seu erro, gostar demais da cadeira de prefeito. Fazia questão de rascunhar até a posição da janelinha dos banheiros de uma escola, para mostrar a seu secretário de obras Valdemir Vasconcellos como ele queria. Reunia o secretariado diariamente. Como assessor de imprensa, eu era o último a despachar com ele, às vezes saindo da prefeitura altas horas da madrugada. Claro que herdou uma dívida à época considerada impagável, mesmo assim fez uma administração bastante consistente.

Braz Melo – Ah… o Genelhu! Jogou fora, por puro personalismo (não vou ser chato a ponto de repetir essa história), a chance de transformar em realidade o grande sonho dos douradenses de ter um governador do estado. Isto, já na primeira administração. Contentou-se com a condição de Dourados, de eterna coadjuvante, como vice-governador de Wilson Martins, daí voltando para a prefeitura. O prefeito dos “Céus” (escolas de ensino integrado), do asfalto das linhas de ônibus e, claro, do monumento ao Colono (a mão do Braz) que perpetuou sua passagem pela prefeitura.

Humberto Teixeira – Prefeito no intervalo entre os dois mandatos de Braz Melo. Assim como Alan Guedes, a prefeitura caiu em seu colo, por conta do equívoco político histórico do antecessor. O prefeito dos Canaãs, do teatro municipal e do parque dos Ipês. Cuidou da cidade como se cuidasse do jardim de sua casa. Os floridos canteiros centrais tão bem cuidados do “seu Humberto” deixaram saudade. Bem articulado politicamente (foi deputado estadual antes e depois de ser prefeito), facilitou o retorno de Braz Melo, convencendo Valdenir Machado, o pivô da crise que provocou sua eleição, a sair candidato a vice do sucessor.

Laerte Tetila – O segundo professor, primeiro prefeito a ser reeleito consecutivamente. No auge do petismo-lulista, entregou a prefeitura à companheira, e deu no que deu. Uma centena de processos que estão levando de roldão sua aposentadoria. Coisa de gente deslumbrada com o poder, como os famosos “tomatinhos” – uma frota carros vermelhos com placa de final 13 – ou os conjuntos habitacionais com nomes de estrela, para lembrar o símbolo petista. Mesmo assim sua administração deixou marcas. Só pela UFGD, fruto de uma competente articulação política de seu secretário de governo Wilson Biazotto, já teria valido à pena. Notabilizou-se por sua política social, inclusive, pelo carinho que tinha com a população indígena.

Ari Artuzi – O grande fenômeno eleitoral. De caminhoneiro a vereador, deputado mais votado da história, daí à prefeitura. Como dita a lei da física, caiu tão rápido quanto subiu. E se não cortassem suas asas “fatalmente” teria sido governador do estado. Também não vou ser chato em repetir aqui a história da Owari e da Uragano, de suas prisões e cassações. E, se afirmo no título que Alan Guedes lembra Luiz Antônio, é totalmente o oposto do Valdecir. Não, ainda, pelas razões que levaram o fenomenal prefeito à derrocada. Por enquanto, pela postura. Nunca antes na história um slogan – “me chama que eu vou” – foi tão verifico. Alan Guedes, descontando-se o tamanho do pepino que herdou, é só embromação.

Murilo Zauith – Deputado estadual, federal, o prefeito que, por ser o mais bem-sucedido empresário regional, veio para quebrar paradigmas. Por tudo que presenciei de todos e por ser um dos que mais conheço e com quem mais convivo, o mais cheio de boas intenções com a cidade. Quando o levei para seu primeiro contato político – e tinha que ser com o guru João Leite Schimdt, em Coxim –, falou de sua motivação maior: “fiz minha vida e criei meus filhos trabalhando em Dourados, sou muito grato por isso, agora quero trabalhar por Dourados”. Político visionário, um dos grandes prefeitos, cuja obra só não é melhor reconhecida por seu jeito discreto de ser, avesso à publicidade.

Délia Razuk – Em consideração à velha e boa amizade que tenho com Roberto Razuk, até porque ainda vamos sofrer na carne por algum tempo tanta incompetência, vou me abster de ir além do que já fui ao longo de sua administração, mas dando para resumir numa palavra – um fiasco.

Alan Guedes – Ufa! Nem ele acreditava. Daí a repetir, com raríssimas exceções, Délia Razuk na formação do secretariado, o que deixou a todos sobressaltados. A lembrança com Luiz Antônio, não apenas por ser professor, um azarão na corrida eleitoral, um gentleman no trato pessoal. Mas para por aí. Se Luiz Antônio herdou uma dívida astronômica, pelo menos pegou uma cidade pronta; Alan, uma cidade destroçada, mais se parecendo uma Bagdá no pós-guerra. Os tempos de Luiz Antônio eram outros. Não existia lei de responsabilidade fiscal, nem um MP tão vigilante e atuante como hoje. Estamos em tempos de transparência total, reforçada pela internet, a mesma internet que invade a privacidade das pessoas, muitas vezes para chantagem do mais baixo nível. Menos mal, podendo, e devendo, servir também para denunciar, eventualmente, consórcios espúrios para salvar empresas falidas com dinheiro público. Principalmente, quando sacrificando as menores rubricas orçamentárias, já que naquelas onde os resquícios owaris e uragânicos insistem em não desaparecer a causa é dada como perdida. Ou seja, aquilo que era para ser o começo do fim, parece estar, ainda, só no começo. Ou, como disse o próprio Alan em sua mensagem pós-eleitoral, seria só um recomeço. No caso um perigoso recomeço. Que o jovem prefeito honre a história deu seu conterrâneo Totó Câmara e não fique à mercê do canto da sereia, para que o barco douradense não afunde de novo, como onze anos atrás.

Atraído pelo canto da sereia, Alan Guedes lembra Luiz Antônio

Atraído pelo canto da sereia, Alan Guedes lembra Luiz Antônio

O  fenômeno eleitoral Ari Valdecir Artuzi

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