Após disputar com o PT o plano político nacional por quase duas décadas, o Geraldo Alckmin que tomará posse como vice do presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste domingo reviu posições do passado e se alinhou a bandeiras da esquerda como a taxação de grandes fortunas e a revisão de pontos da reforma trabalhista do ex-presidente Michel Temer. Aliados atribuem essa mudança à experiência e a um certo apuro na sensibilidade social do ex-governador.
Ao se associar a Lula no posto de vice, o ex-tucano precisou fazer um contorcionismo na defesa de suas teses econômicas, já que historicamente elas são antagônicas a premissas petistas. As diferenças se dão principalmente em temas como um Estado mais enxuto e a agenda de privatizações — o PT tem se insurgido contra a venda da Eletrobras. Na campanha deste ano, Alckmin moderou o tom e falou em privatizar áreas não fundamentais, a exemplo de subsidiárias da Petrobras. Ainda assim, pessoas próximas dizem que as parcerias público privadas defendidas pelo governo de transição são “Geraldo puro”, pois foram implementadas em suas gestões em São Paulo. A medida tem sido encampada como alternativa para alavancar investimentos num momento em que a capacidade orçamentária do poder público é menor.
Alckmin também se distanciou de posturas mais conservadoras como a política de linha dura na segurança pública, o que sempre se mostrou um sucesso eleitoral nas eleições paulistas, e hoje defende câmeras nos uniformes dos policiais militares. E não é só. O ex-governador também passou a questionar o grande número de pobres, pretos e pardos presos no país por tráfico de drogas, em muitos casos por pequenas quantidades.
Há 20 anos, Alckmin levou ao Congresso uma proposta para alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para aumentar a pena de restrição de liberdade de menores infratores. Movimentos de esquerda sempre criticaram essa hipótese por entenderem que trata-se de uma política para aumentar o encarceramento de jovens. Enquanto ensaiava sua candidatura presidencial em 2017, Alckmin disse ser “legítima” a redução da maioria penal. Após o seu giro à esquerda, não tem tocado mais no assunto. Quem o acompanha de perto, no entanto, entende que Alckmin não mudou necessariamente de opinião em relação a todos esses temas — os aliados pontuam que ele costuma “silenciar” em questões que geram divisões.
Silêncio estratégico
O tema dos agrotóxicos é um assunto que Alckmin tem evitado até agora, pois é visto com desconfiança num novo governo que pretende se contrapor à política ambiental do presidente Jair Bolsonaro. Em 2018, o ex-governador defendeu um projeto que ficou conhecido como “lei do veneno”, por flexibilizar registros de agrotóxicos, e tido como favorável por ruralistas. O uso desses defensivos agrícolas é rechaçado pela esquerda e movimentos ligados ao PT como o Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que é um dos maiores produtores de arroz orgânico da América Latina.
Pessoas próximas acham que a mudança de posições refletem o pragmatismo de Alckmin, uma das marcas de seu perfil político, e que seus movimentos se dão “conforme o vento”. Avaliam ainda que traços liberais podem voltar se o contexto político for favorável. Ao escolher Alckmin, Lula fez questão de dizer que o vice seria o oposto do PT e que representaria a amplitude do seu governo e sua capacidade de diálogo com outros setores da sociedade.
No campo do comportamento, no entanto, aliados reforçam que não há mudanças bruscas e que Alckmin segue sendo empático com os eleitores e seus pares na política, mas extremamente rigoroso, atento a detalhes, em alguns casos irrelevantes, e difícil no trato com seus subordinados.
Católico praticante, o vice eleito mantém as referências religiosas de sempre em suas falas. Um de seus mantras sempre foi uma frase de Santo Agostinho: “Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem.” Quando confrontado por políticos ou jornalistas, costuma se desvencilhar com a seguinte frase: “Existem dois ansiosos: os políticos e os jornalistas”.
No esfera pessoal, seus hábitos são tidos como avessos ao luxo dos palácios que o cercam. Quando quer espairecer, o ex-governador costuma capinar em seu sítio em Pindamonhangaba, no interior paulista. O trajeto de São Paulo até a cidade natal costuma ser feito a bordo do seu HB20, carro que é alvo de deboche de amigos, que consideram muito simples para quem foi quatro vezes governador do estado mais rico do país.
OPINIÕES REVISTAS
PRESOS
Em seus governos em São Paulo, Alckmin adotou uma política de linha dura na segurança pública, aumentou o número de presos e defendeu a criação de mais penitenciárias no estado. Hoje, diz que uma de suas preocupações é o alto número de negros, pardos e jovens presos por crimes como tráfico de drogas.
ECA
Alckmin também defendia a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente e o endurecimento das internações de menores que cometiam crimes hediondos. Em entrevistas, ele chegou a considerar como legítima a redução da maioridade penal. Desde que se associou a Lula, tem evitado falar desses temas.
ECONOMIA
Quando assumiu o governo de São Paulo em 2003, Alckmin propôs uma agenda robusta de privatizações e seguiu com essa pauta em seus planos de governo nas disputas presidenciais.
Já na campanha de 2022, candidato a vice de Lula, tratou de parcerias público privadas e falou em vender ativos do governo em áreas não fundamentais, sem entrar em polêmicas no quesito.
MEIO AMBIENTE
O ex-governador defendia a chamada “lei do veneno”, que flexibiliza os registros de agrotóxicos. Atualmente, não tem se manifestado sobre o tema.
Gustavo Schmitt/O Globo — São Paulo
