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sábado, maio 9, 2026

Zé Tubaina, o “retratista” e “cientista” que fez o presidente da República esperar por um clique histórico

Um dos mais antigos profissionais do fotojornalismo, Tubaina morreu sexta-feira, de AVC, em Campo Grande

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Trocadilhos à parte, a foto que ilustra esse texto é a que melhor retrata a passagem por este plano terreno de um dos maiores retratistas da história da terra de seu Marcelino – José Ferreira Gonçalves, o antológico Zé Tubaina, que morreu sexta-feira passada, vítima de AVC, em Campo Grande. “Retratista”, assim, entre aspas, porque era assim que ele gostava de ser chamado, por sua origem humilde, mas um ás do clique – de festa de batizado de crianças às grandes coberturas jornalísticas, como esta, da visita do presidente Ernesto Geisel para o lançamento do PRODEGRAN, o Programa de Desenvolvimento da Grande Dourados, na segunda metade da década 1970.

O que muita gente põe na conta do folclore aconteceu, de verdade, e eu estava lá, para conferir. Os que tiverem dúvidas, só atentar  para o detalhe do desengonçado cabeludo meio corcunda aí no canto direito da foto, ao lado do à época prefeito de Três Lagoas, Ramez Tebet, atrás do baixinho general e ministro da Casa Militar, Dirceu de Araújo Nogueira, na frente do professor José Pereira Lins. Eu mesmo, por mais otimista que fosse, ainda foca, sem poder imaginar que um dia poderia estar fazendo este registro histórico em homenagem a este meu grande parceiro. E tem que ser assim mesmo, nos mínimos detalhes, porque toda vez que essa história vem à tona sempre fica um ar de incredulidade de quem escuta pela primeira vez.  

Zé Tubaina, o “retratista” e “cientista” que fez o presidente da República esperar por um clique histórico
José Ferreira Gonçalves, o Zé Tubaina – foto arquivo familiar

Essa formação, para a posteridade, se deu por insistência da colunista social Ymera Fedrizi. Logo após o almoço, no clube Indaiá, o presidente da República já com a agenda atrasada, pelo tanto que precisou posar ao lado de lideranças de toda a região, e dona Ymera resolve recrutar as autoridades locais para uma pose especial com Geisel. Feito o mais difícil, a colunista dá o start para Zé Tubaina disparar seu flash. E, daí, o inusitado da coisa: pra lá de desenxabido, o fotógrafo percebeu que havia acabado o filme de sua pentax. Não, a história não acaba aí.

Com aquela sua paciência oceânica, Tubaina pediu um tempinho. Não aquele tempinho básico para recarregar a máquina. Tempinho para dar um pulinho até o lado de fora do Clube, onde (por ordem da segurança presidencial) estava estacionada sua Brasília – amarela! –, com a mochila na qual estavam as bobinas de filmes. E o menos crível, depois de um daqueles memoráveis regabofes da época: também paciente, o presidente da República aguentou firme, talvez por estar ladeado pelo prefeito João Totó Câmara e pelo então apenas fazendeiro Antônio Tonanni, ambos com repertório suficiente de causos para entreter pelo tempo que fosse não só Geisel, mas também Garcia Neto, o último governador do Mato Grosso uno. Quem conhece a distância da entrada do antigo salão de festas do Clube Indaiá até a portaria deve imaginar o tempo que correu até o final dessa história, quando, esbaforido, Zé Tubaina retornou para o tão esperado retrato.

Zé Tubaina era uma dessas raras unanimidades, não só como profissional do fotojornalismo, mas também como amigo e parceiro. Versátil, tentou a vida como empresário da gastronomia, período em que pregou uma peça na família e nos amigos, “desaparecendo” da cidade por um tempo, depois voltando, aventurando-se como cartola do esporte bretão, como dizia o não menos folclórico e antológico colunista esportivo Ayrthon Barbosa Ferreira, o dr. Petiscão, que apelou ao refrigerante famoso para apelidar o amigo chegado, isto sim, numa “loira gelada”. Mas, fotógrafo acima de tudo, sonhando com uma aposentadoria melhor, Zé Tubaina ainda tentaria uma derradeira tacada, como “cientista”, neste caso necessariamente entre aspas, por conta das normativas do academicismo. Morreu frustrado por não ter conseguido patrocínio para pagar o alto preço para patentear uma raizada que vendia na Pedra (ponto dos marreteiros do centro da cidade), para ele, esta, sim, uma verdadeiramente panacéia.

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