“Até aqui o Laquicho vai bem”. Menos mal que o mais famoso dos bordões de Liberato Leite de Farias, o Laquicho, nosso “mentiroso-mor”, pode ser colocado na boca do prefeito Marçal Filho, ainda com crédito por não ter completos seus cem dias de administração. É que em Dourados, nos últimos tempos, a linha entre a ficção e a realidade parece cada vez mais tênue. Enquanto celebramos o Dia da Mentira, a cidade ainda vive sob o peso de promessas não cumpridas que se arrastam por anos, transformando o discurso político em uma grande peça de mau gosto que todos conhecemos, mas da qual não conseguimos sair.
O caso do aeroporto municipal é emblemático dessa triste realidade. Alguns anos de promessas, milhões investidos em reformas conduzidas por quem não tinha expertise no assunto (o Exército Brasileiro), e o resultado é uma pista pronta à espera do retorno, ops!, dos voos comerciais. Um prejuízo incalculável. Enquanto isso, alguns políticos continuam repetindo o mantra das “tratativas avançadas”, como se acreditassem que, dizendo a mentira por tempo suficiente, ela magicamente se tornaria verdade.
O mesmo roteiro se repete em outras áreas essenciais:
O Hospital Regional é um dos maiores exemplos de embromação. Até agora, só serviu para que a família Parizotto fosse contemplada com um viaduto para facilitar o acesso e viabilizar, de vez, seus loteamentos. Na educação, vemos escolas deterioradas e professores reclamando de tudo, principalmente de salários, como sempre, enquanto as placas com nomes de gestores são as primeiras a serem renovadas. Na limpeza pública, contratos milionários são firmados ano após ano, mas as ruas continuam sujas e os cronogramas nunca são cumpridos. No transporte urbano, frotas novas são anunciadas com pompa, enquanto os passageiros sofrem com veículos velhos e inadequados. Nas linhas escolares, inclusive.
Até nossas árvores centenárias caíram vítimas dessa cultura da mentira institucionalizada. Quantas foram derrubadas sob a alegação de “ataque de cupins”, apenas para dar lugar a novos empreendimentos? A natureza, ao que parece, também deve se curvar aos interesses econômicos e políticos.
A Operação Uragano em 2010 deveria ter servido como um alerta sobre os perigos dessa normalização da mentira. Em vez disso, vimos os envolvidos se transformarem em “perseguidos políticos”, alguns até realocados nas melhores sinecuras governamentais, como se o problema fosse a denúncia, e não os crimes cometidos.
Enquanto isso, a violência cresce, a população se sente cada vez mais insegura, e as soluções propostas – quando existem – parecem mais pensadas para gerar manchetes e lives positivas do que para realmente resolver os problemas.
Neste 1º de abril, enquanto muitos se divertem com mentirinhas inofensivas, Dourados continua presa nas grandes mentiras que moldam seu cotidiano. Liberato Leite de Farias, nosso mentiroso folclórico Laquicho ao menos tinha o mérito da criatividade e da graça. Nossos políticos atuais nem isso nos oferecem – só a repetição cansativa de promessas vazias e justificativas esfarrapadas.
Talvez seja hora de pararmos de rir dessas piadas recorrentes e começarmos a cobrar as verdades que nos são devidas, para que os próximos capítulos dessa novela não seja apenas o remake de um “Vale Tudo”, como o da Rede Globo, com apenas adaptações de cenários e mudanças de algumas caras, preferencialmente com mais verdade e menos ficção.