A ameaça de morte enviada à deputada estadual Gleice Jane, por meio de mensagens no WhatsApp, rompeu a barreira do privado para escancarar um problema que atravessa o país: a violência política de gênero que se soma, em Mato Grosso do Sul, a um dos mais alarmantes índices de feminicídio do Brasil. Não era apenas uma ofensa. Era uma sentença escrita com a frieza de quem acredita que a vida de uma mulher — ainda mais uma mulher que ocupa o espaço público — pode ser reduzida a um aviso cruel: “você vai morrer.”
Em um estado onde tantas mulheres são silenciadas pela força bruta, o ataque à parlamentar não surge como um raio em céu limpo. Ele é parte de uma tempestade que se repete, incessante, na rotina de brasileiras que ousam existir com autonomia. Quando alguém diz a uma mulher que ela deve calar, obedecer ou desaparecer, não importa se a arma usada é uma mão, uma faca ou uma mensagem: a raiz é a mesma.
No vídeo em que denuncia as ameaças, Gleice Jane reconhece que o alvo não é apenas ela. É o que ela representa. É a participação das mulheres na política, tantas vezes tratada como provocação, afronta ou invasão de um território que muitos ainda consideram masculino. Ela relaciona esse ataque ao crescimento dos casos de feminicídio, lembrando que o ódio político contra mulheres não é um evento isolado — é sintoma de uma cultura que insiste em expulsá-las de qualquer espaço de poder, inclusive do próprio corpo.
Da mensagem de ódio ao crime de feminicídio, a distância é menor do que gostaríamos de admitir. Basta olhar os números do estado. Basta ouvir os noticiários. Basta perguntar às famílias que perderam filhas, mães, irmãs. Basta reparar na naturalidade com que se comentam mortes anunciadas, como se todas fossem parte de um enredo inevitável.
Ainda assim, entre tanta violência, há resistência. Quando a deputada conclama: “Parem de nos matar”, não é um slogan de campanha. É um pedido de sobrevivência coletiva. Ela orienta que nenhuma mulher se cale, que denuncie, que registre ocorrência, que procure ajuda. Que reivindique, com a coragem possível, o direito elementar de existir.
O caso agora será investigado pela Polícia Civil. Mas numa sociedade adoecida pelo machismo e estimulada pela vitimização da violência, a pergunta que deveria permanecer ecoando é outra: até quando? Quantas ameaças mais serão normalizadas antes que percebamos que a violência contra mulheres — seja física, psicológica, virtual ou política — é um ataque direto à democracia, à cidadania e à própria ideia de humanidade?
O aviso que Gleice Jane recebeu poderia ter chegado a qualquer outra mulher. E, por isso, não pode ser ignorado. Porque no fundo, o que elas pedem não é poder demais, nem privilégios, nem heroísmo. Pedem apenas o que deveria ser óbvio: viver.
