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terça-feira, fevereiro 3, 2026

As escolas indígenas prometidas e o exagero do marketing que foge à realidade

Anúncio de seis escolas indígenas no MS expõe o contraste entre maquetes institucionais e a realidade complexa das aldeias que aguardam infraestrutura e escuta

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Papel aceita tudo. Inclusive imagens que transformam aldeia indígena em bairro-modelo de folder institucional, com calçada perfeita, paisagismo geométrico e crianças enquadradas como se estivessem a dois quarteirões de um shopping center. A realidade, quem conhece Bororó, Jaguapiru, Tey Kuê, Limão Verde ou Pirajuí sabe, é outra, bem mais complexa, bem mais dura e, justamente por isso, merecedora de cuidado redobrado quando a política resolve aparecer em forma de promessa bem diagramada.

É nesse contexto que chega o anúncio da construção de seis escolas indígenas em aldeias de Mato Grosso do Sul, resultado de articulação do deputado federal Geraldo Resende junto ao Ministério da Educação, dentro do PAC Educação Indígena e Quilombola. O anúncio é real, a resolução foi publicada no Diário Oficial da União, o programa existe e os recursos estão previstos. Até aqui, fato.

O problema começa quando o modelo apresentado tenta vender a ideia de que a obra, por si só, resolve tudo. Não resolve. Escola indígena não é apenas parede colorida, planta padrão do Proinfância e placa inaugural. É território, acesso, saneamento, diálogo comunitário, respeito cultural e presença permanente do Estado. Tudo aquilo que não aparece nas imagens de apresentação, mas decide o sucesso — ou o fracasso — da política pública.

A maquete é, de fato, bonita. Mas fica a pergunta inevitável: se as próprias comunidades indígenas tivessem sido chamadas a opinar sobre a arquitetura, o resultado não seria outro, mais próximo do gosto, da cultura e das necessidades reais de quem vai usar aquele espaço?

As escolas previstas para as aldeias Bororó e Jaguapiru, em Dourados; Tey Kuê, em Caarapó; Pirajuí, em Paranhos; Limão Verde e Ipeque, em Aquidauana, podem representar avanço importante, especialmente para mães que precisam trabalhar, estudar e garantir segurança às crianças. Essa expectativa aparece nos depoimentos das próprias lideranças indígenas e é legítima.

Mas experiência não falta a quem acompanha de perto essas comunidades para saber que entre o anúncio e a sala de aula funcionando existe um caminho longo, irregular e cheio de armadilhas. Quantas obras já começaram com discurso bonito e terminaram paradas, adaptadas às pressas ou desconectadas da realidade local?

O modelo Proinfância, pensado em Brasília, pode até servir como ponto de partida. Nunca como ponto de chegada. Quando a escola chega sem ouvir a aldeia, vira prédio estranho dentro do próprio território. Quando chega com escuta, adaptação e compromisso de execução, pode se transformar em ferramenta real de mudança.

Reconhecer o esforço político que levou o projeto até o PAC não obriga ninguém a engolir a maquiagem do release. Informação também é isso: separar anúncio de entrega, imagem de realidade, promessa de execução.

Aldeia indígena pode até ser um paraíso — mas não do jeito artificial que o marketing insiste em mostrar. E quando a obra sair do papel e chegar ao chão batido da aldeia, aí sim será possível saber se a política pública respeitou o lugar onde decidiu os arquitetos não ousaram pousar.

Certamente o deputado Geraldo Resende, que tanto se orgulha de sua origem humilde, se pudesse escolher sem as amarras da burocracia e do marketing institucional, talvez preferisse uma escola mais próxima da simplicidade acolhedora imaginada pela própria inteligência artificial — e menos das linhas modernistas, caras e nem sempre compatíveis com as necessidades concretas das crianças e jovens indígenas.

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