Encorpado com a filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, o movimento do PSD de construir uma alternativa na disputa presidencial deste ano encontra como obstáculo o histórico das eleições brasileiras, nas quais os polos que representavam a polarização — radicalizada ou não — marcaram presença no segundo turno. Evidencia também como a terceira força passou a ser mais de direita, depois de seguidas vezes inclinada para a esquerda. A despeito do recalcitrante cenário polarizado, pesquisas recentes indicam que parcela significativa do eleitorado se mostra propensa a refutá-lo.
Na última terça-feira, o partido comandado por Gilberto Kassab surpreendeu ao anunciar a chegada de Caiado, que apareceu em vídeo ao lado de outros dois governadores da sigla cotados como presidenciáveis: o do Paraná, Ratinho Júnior, e o do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Ainda há suspeitas de que o PSD possa desistir do projeto e ficar neutro na eleição pelo Planalto, mas o discurso oficial é de que um dos três será candidato à Presidência, com o martelo a ser batido até o meio de abril.
Até hoje, nas eleições deste século, o terceiro colocado que chegou mais perto do segundo foi o ex-governador do Rio Anthony Garotinho, que recebeu 17,9% e ficou a 5,3 pontos do tucano José Serra em 2002. Marina Silva, em 2014, recebeu um percentual maior de votos, 21,3%, mas isso a deixou a 12,2 pontos de distância em relação a Aécio Neves.
O caso de Marina em 2014 é sintomático de como a polarização e a engrenagem das principais candidaturas tendem a se sobrepor ao longo da campanha. Depois do acidente aéreo que matou o então cabeça de chapa do PSB, Eduardo Campos, ela assumiu a dianteira e se destacou nas pesquisas, com 20 pontos a mais que Aécio em simulações de primeiro turno e projeções de vitória contra Dilma Rousseff no segundo. Alvo de uma estratégia de ataques do PT, que preferia enfrentar o tucano, e do PSDB, que precisava enfraquecê-la, a atual ministra do Meio Ambiente minguou e acabou de fora do embate direto contra Dilma.
A eleição que levou Jair Bolsonaro à Presidência, em 2018, é a que carrega maiores reservas na comparação com as demais. Isso porque, em tese, era Alckmin — ainda no PSDB — quem representaria o principal foco de oposição ao PT. Já o então deputado federal radicalizado do baixo clero seria a terceira via.
Na prática, contudo, Bolsonaro havia se consolidado como o principal candidato desde muito antes da campanha, deslocando o antipetismo para a extrema direita e encerrando a histórica dicotomia PT-PSDB. Assim, nomes como Ciro Gomes e Alckmin viraram os desafiantes da polarização.
Esperança
Alguns dados de pesquisas recentes alimentam os planos de quem acredita no projeto de enfrentar a polarização, seja para de fato chegar ao segundo turno ou para aumentar o poder partidário depois de uma derrota com bom desempenho. No levantamento Genial/Quaest de novembro do ano passado, 24% afirmaram preferir um presidente que não seja ligado a Lula (PT) ou a Jair Bolsonaro (PL). O número indica o potencial de uma alternativa, mas até agora o petista e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) lideram as intenções de voto.
O perfil da terceira força ao longo do tempo ajuda a ilustrar como o Brasil foi se envergando para a direita. Até 2018, os que tentaram bater de frente com os principais candidatos eram mais de centro-esquerda ou esquerda. Mesmo naquele ano de onda bolsonarista, o terceiro colocado, Ciro Gomes, ainda estava associado ao campo progressista, antes da inflexão que fez a partir da última campanha.
Garotinho, em 2002, estava no PSB e, apesar de rompido com o ex-governador Leonel Brizola e o PDT, vinha da cultura política do trabalhismo. Em 2006, tanto Cristóvam Buarque quanto Heloísa Helena eram candidatos com trajetórias de esquerda. O mesmo vale para Marina, que ficou em 3º lugar em 2010 e 2014.
Agora, todos os governadores considerados para a empreitada estão à direita e, com exceção de Eduardo Leite, declaram diferentes tipos de apoio a Jair Bolsonaro. Ratinho e Caiado, assim como o paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o mineiro Romeu Zema (Novo), fazem acenos à base bolsonarista a todo momento. O último partiu do paranaense, que disse que daria um indulto ao ex-presidente e a condenados pelo 8 de janeiro.
— O espectro ideológico ganhou força à direita, e Lula é hegemônico do outro lado, o que esvazia a eleição presidencial de alternativas à esquerda. Isso cria para o segundo turno a ideia de que “a divisão faz a força”, já que a margem para a esquerda crescer depois do primeiro turno é menor — avalia o cientista político e sociólogo Antonio Lavareda, fundador do Ipespe. — Poderemos ver nessas eleições algo parecido com o que algumas capitais registraram em 2024, uma espécie de “primárias” da direita no primeiro turno. Foi o que houve em São Paulo e Goiânia, por exemplo
Em 2022, Lula e Bolsonaro abocanharam juntos a maior fatia de votos já concentrada nos dois principais candidatos de uma disputa presidencial: quase 92% dos sufrágios do primeiro turno ficaram com eles. Opções de terceira força, Simone Tebet e Ciro Gomes somaram juntos meros 7,2%, o menor percentual obtido pelos demais postulantes em uma eleição brasileira. Salvo pequenos exemplos, a centro-direita capitulou e desistiu de se diferenciar de Bolsonaro naquele momento, o que faz a nova costura de Kassab ser lida por entusiastas como o maior gesto de reorganização desse campo político desde 2018.
— Desde que a terceira via de extrema-direita foi bem-sucedida em 2018, essa é a primeira tentativa organizada da centro-direita. — aponta Lavareda.
— Discordo de chamar de terceira via, terceira força. Esse movimento de agora parte de quem foi a primeira força até 2002 (com o PSDB), depois virou segunda força e agora tenta se reorganizar de forma estratégica, algo que não aconteceu em 2022.
Poder dos governos
Outro empecilho à luz da História é a dificuldade que governadores enfrentam para vencer o jogo nacional. Apesar de sempre despontarem com força, ex-mandatários estaduais não conseguiram conquistar a Presidência durante a Nova República, com exceção de Fernando Collor.
A eleição de 1989, primeira no país após a ditadura, foi uma disputa “solteira”. Apenas o cargo de presidente estava em jogo, o que anula a correlação entre o voto para o Planalto e o conferido a governadores e parlamentares. Trata-se de um estímulo ao personalismo de candidatos carismáticos, dada a reduzida importância das máquinas partidárias. Collor, que governou o pouco populoso estado de Alagoas, foi eleito por um partido nanico, o antigo PRN.
Desde então, diversos governadores de estados de peso — sobretudo São Paulo, mas também Minas e Rio — até tiveram bom montante de votos, mas acabaram derrotados. Embora tivessem vida política relevante, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro nunca haviam sido eleitos para o Executivo antes de chegar à Presidência.
Nos últimos anos, entretanto, os governadores têm se destacado por superlativos índices de aprovação e tentam, juntos, criar um bloco sólido de oposição a Lula. Há diferentes argumentos para os bons desempenhos, e um deles é fiscal. Os estados retomaram a capacidade de investimento depois de anos de contenção. Parte disso vem de incentivos que os Executivos locais tiveram, como perdões a dívidas por parte da União. O cardápio de entregas, segundo interlocutores, é o principal ativo deles na comparação com Flávio.
De 2021 para 2022, segundo o Observatório de Política Fiscal da FGV, o investimento bruto dos estados quase dobrou, passando de R$ 57 bilhões para R$ 104,8 bilhões. Nos dois anos seguintes, manteve-se em patamares altos, R$ 87,1 bilhões e R$ 89,8 bilhões. A barreira dos R$ 100 bilhões, atingida mais de uma vez até 2014, havia despencado com a crise econômica do país e só foi retomada agora.
Além disso, os comandantes estaduais cultivam o discurso enfático na segurança pública. O tema não costuma ser prioritário em eleições nacionais, mas tem sido um dos mais explorados pela oposição a fim de emparedar Lula.
Caio Sartori/O Globo — Rio de Janeiro
