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terça-feira, fevereiro 3, 2026

Só o vento sabe a resposta: Sobre a escrita de André Alvez

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Eu trago-te nas mãos o esquecimento/ Das horas más que tens vivido, “Amor! […]  – Eu sou Aquela de quem tens saudade, /A Princesa do conto: “Era uma vez…”. (“Conto de Fadas”: Florbela Espanca)       

Amiga, especialista em “semiótica”, descreveu-me entusiasmada sobre um livro que acabara de ler: “Flores azuis não vão para o céu” (2025).  Já pelo título interessou-me o enredo; todos apreciamos um bom enredo; todos lemos com interesse numa “história”. Parece ser isto que um bom romance faz, contar-nos uma história. Encomendei o livro e, com ele, vieram mais quatro do escritor André Luiz Alvez. Li todos de uma assentada: “O olho esquerdo” (2020); “Todo bicho alado sente medo do vento” (2023); “O santo de cicatriz” 2013); “A bruxa da sapolândia” (2024).  

Observei a profícua criação literária de todos eles. Notei que seguem uma linha de continuidade, como se o escritor fosse contumaz criador, e é. Corri os olhos pelas notas críticas. Há pouco interesse no que dizemos sobre os livros. Somos todos frustrados diante da criação literária que admiramos. Alegrou-me a nota de Lucilene Machado, escritora e estudiosa que respeito. Entre fascinado e acabrunhado, permaneci. Como existia um escritor assim em meu Estado e eu nunca houvera falar; poucos de nós olhamos em nosso entorno. Já de início vislumbrei a originalidade (se ela existe) da criação de André Luiz. Sobretudo no estadio contemporâneo, no qual a narrativa mais parece amalgamar-se em manifesto sociologista do que em arte literária propriamente.

Nós, afeitos à leitura de cunho estético, lemos com certo dissabor o rol de produção de hoje em dia, mais de denúncia que de criação artística. Talvez a mais forte impressão que me tenha permanecido até o momento, é a de que André Luiz segue uma trilha muito próxima a do nosso cronista mais saboroso _ Rubem Braga. Não faltam associações a Júlio Cortázar, o argentino sobre quem mais tinta já correu. E que a ele façam associações ao realismo fantástico ou ao realismo maravilhoso.

Em tudo e por tudo, ler a obra de André Luiz Alvez é prazer garantido. A obra entrega o que promete. Sobre o título deste texto? Nós, os que lemos o escritor, bem o sabemos! Um sintagma nominal e recorrente em sua obra, que faz alusão à leveza, à musicalidade próprias da escrita sensível e quintessenciada, está latente no verso de Cecília Meireles: Só de três lugares nasceu até hoje esta música heroica:/ do céu que venta, / do mar que dança, / e de mim.                          

                                               Paulo Sérgio Nolasco dos Santos

                          Dr. Titular em Literatura Comparada na UFGD; Membro da Academia Sul-mato-grossense de Letras; Escritor; professor de teoria e crítica literárias, e de literaturas regionais e culturais

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