Nas eleições presidenciais de 2022, o Brasil inteiro foi tragado pelo buraco negro da polarização Lula-Bolsonaro, aquela disputa de titãs que transformou o País num ringue emocional e, de quebra, empurrou para os escaninhos da história um acontecimento dos mais relevantes da política mato-grossulense: duas senadoras do Estado, Simone Tebet e Soraya Thronicke — esta, douradense da gema, com poeira de chão vermelho no currículo — enfrentando as duas feras nacionais, olho no olho, em pleno horário nobre da democracia. Foi um instante raro. Um desses momentos em que o Mato Grosso do Sul, geralmente tão acostumado a ser coadjuvante, ousou ser protagonista. Mas, como sempre, o Brasil passou por cima, como carreta em rodovia mal sinalizada.
Simone, para surpresa geral, subiu ao pódio no primeiro turno, ficando atrás apenas de Lula e Bolsonaro, num feito histórico para um Estado acostumado a exportar boi, soja e voto obediente. Aquilo a transformou imediatamente em personagem nacional e a levou ao Ministério do Planejamento no governo Lula, num desdobramento que já seria suficiente para garantir seu nome nos livros. Mas Simone não é dessas figuras que se contentam em virar nota de rodapé. Ela tem a marca do destino político, herdada do pai, Ramez Tebet, que também foi senador, presidente do Congresso Nacional e ministro, um homem que conhecia Brasília como quem conhece as ruas de Três Lagoas. História puxando história, como se o sobrenome carregasse uma espécie de vocação institucional.
Agora, Simone faz e acontece de novo. Não satisfeita em ter virado ministra e em ter sido, por alguns meses, a terceira via real possível no País das duas únicas vias permitidas, ela anuncia — ou melhor, aceita — transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo para disputar o Senado pelo maior Estado da federação. Troca o tereré pelo café com leite. Troca a pasmaceira quente de Três Lagoas pelo “inferno”, como o próprio Ramez definiu São Paulo certa vez a este insubordinado do jornalismo. E faz isso como quem diz: não me quiseram aqui? Pois bem, o mundo é grande, e o Senado é nacional. Simone vai de mala e cuia, levando na bagagem o que Mato Grosso do Sul parece não ter sabido valorizar: estatura, preparo, densidade, horizonte.
Porque há uma verdade amarga nessa história: estamos falando de uma senadora para quem o Estado natal deu as costas. Mato Grosso do Sul, que se acostumou a idolatrar coronéis regionais e a aplaudir pirotecnia administrativa de prefeito de bordão fácil, não soube — ou não quis — reconhecer a rara potência de ter duas mulheres senadoras rompendo o cercado da política nacional. Preferiu a lógica do quintal. Preferiu o conforto do “conhecido”. Preferiu a eterna síndrome provinciana de que quem cresce demais incomoda.
E foi exatamente aí que meu filho caçula, Felipe Torquato Melo, durante o almoço do último domingo, resumiu tudo de forma tão curta e grossa que merecia ser inscrita no brasão oficial do Estado, ao lado do boi e da soja: “Pai, o MS não merece a Simone nem a Soraya.” Pronto. Não disse tudo? É isso. Não é que Simone esteja abandonando Mato Grosso do Sul. É Mato Grosso do Sul que nunca soube plenamente estar com Simone. Não soube sustentar a própria grandeza quando ela apareceu em carne, osso e voto.
São Paulo, esse monstro urbano, essa locomotiva que atropela até os próprios trilhos, agora recebe Simone Tebet como quem recebe uma peça estratégica. Lula articula, os partidos se mexem, Marina Silva também se movimenta, e a corrida ao Senado paulista vira tabuleiro nacional. Enquanto isso, aqui, entre um tereré e um “alô você”, seguimos discutindo miudezas, como se o universo político coubesse num palanque de interior.
Não importa o desdobramento dessa história. Simone já é a própria história. Do MS para o Brasil. Do Brasil para São Paulo. E, quem sabe, de São Paulo para onde mais a política permitir. O que fica, para nós, é a pergunta incômoda: quantas vezes este Estado ainda vai desperdiçar seus melhores quadros por não suportar que eles sejam maiores do que o cercado?
Talvez a tragédia do Mato Grosso do Sul não seja a falta de nomes. Seja a falta de merecimento.
