28.2 C
Dourados
terça-feira, abril 28, 2026

O partido perfeito para a soberba

Ao migrar para o PL, Azambuja se insere em um modelo político marcado pelo personalismo — o mesmo que, no caso Bolsonaro, transformou força eleitoral em derrota

- Publicidade -

Se há algo que não se pode negar a Reinaldo Azambuja é a coerência. Ao trocar o PSDB pelo PL, pode até ter cometido um equívoco estratégico, como já analisado, mas acertou — e acertou em cheio — na escolha do ambiente. Porque, convenhamos, para quem carrega consigo uma dose generosa de autoconfiança, para não dizer outra coisa, não haveria abrigo mais adequado do que o partido de Jair Bolsonaro.

Não se trata aqui de ideologia. Trata-se de método. Ou, mais precisamente, da ausência dele.

Bolsonaro construiu sua trajetória política com base na confrontação permanente, na negação sistemática de qualquer tipo de limite e, sobretudo, na crença inabalável de que sua vontade pessoal se sobrepunha a qualquer aconselhamento técnico ou institucional. Funcionou — até deixar de funcionar.

E foi exatamente aí que a soberba cobrou a conta.

O exemplo mais didático, e talvez mais caro, foi o do então ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Médico, técnico, equilibrado, Mandetta conduzia o enfrentamento inicial da pandemia com respaldo científico e aprovação popular. Tinha o que, em política, vale mais do que qualquer ideologia: credibilidade.

Mas credibilidade, como se sabe, costuma incomodar quem acredita não precisar dela.

Mandetta não caiu por incompetência. Caiu por contrariar o chefe. Por não se dobrar à lógica do improviso, da negação da realidade e do personalismo. Foi demitido no auge de sua aprovação, quando poderia ter sido o principal ativo de um governo diante da maior crise sanitária do século.

E não se trata aqui de leitura de bastidor ou de interpretação enviesada. O próprio Mandetta, depois de demitido, tratou de escancarar o que se passava. Em entrevistas sucessivas, relatou que o então presidente tomava decisões sobre a pandemia sem sequer consultar o Ministério da Saúde — chegando ao ponto de convocar rede nacional de televisão para tratar de um tema dessa gravidade sem ouvir sua própria equipe técnica. Não era exceção. Era método. Governava-se, segundo o ex-ministro, à revelia dos próprios ministros da área.

Ali, naquele momento, talvez tenha se decidido mais do que a condução da pandemia.

Talvez tenha se desenhado o resultado da eleição seguinte.

Porque, se Bolsonaro tivesse feito o básico — governar enquanto deixava quem entendia cuidar da crise —, o desfecho poderia ter sido outro. Mas não. Preferiu reafirmar sua própria visão, mesmo diante dos fatos, mesmo diante da ciência, mesmo diante da opinião pública.

Soberba, em estado puro.

E soberba, como já vimos por estas bandas, não costuma terminar bem.

É nesse ponto que a escolha de Azambuja pelo PL deixa de ser apenas uma decisão partidária e passa a ser quase uma declaração de método. Ao ingressar em um ambiente político onde o personalismo é regra e a autocrítica é exceção, o ex-governador não apenas muda de sigla — ele se insere em uma cultura.

Uma cultura onde pedir voto pode ser visto como fraqueza. Onde ouvir pode ser interpretado como concessão. Onde dividir espaço não faz parte do vocabulário.

Uma cultura onde, muitas vezes, se acredita mais na força da largada do que na inteligência da corrida.

O problema é que eleição não se ganha apenas com impulso inicial. Exige fôlego, leitura de cenário e, principalmente, capacidade de adaptação. Virtudes que não costumam florescer em ambientes onde a convicção pessoal se sobrepõe a tudo.

No fim das contas, Azambuja pode até não ter escolhido o melhor partido para se eleger.

Mas, para alguém que parece acreditar que já venceu antes mesmo de correr, dificilmente poderia ter escolhido um mais adequado.

Porque, como a história insiste em lembrar — no Brasil, em Brasília e, sobretudo, no Mato Grosso do Sul —, a soberba não costuma falhar.

Ela apenas aguarda o momento certo.

Para cobrar.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-