Em meio a escândalos, denúncias de corrupção e evidente descaso com serviços públicos essenciais, um fenômeno intrigante se repete em todo o espectro ideológico em que milhões de eleitores defendem com unhas e dentes justamente os políticos que mais os prejudicam. Longe de ser uma simples questão de “falta de informação” ou “manipulação”, a ciência psicológica e política aponta para um mecanismo muito mais profundo, desconfortável e humano.
Não se trata apenas de ideologia ou escolha racional. Em uma análise que desconstrói o senso comum, a psicologia social sugere que muitos eleitores estabelecem, com seus líderes, um vínculo semelhante à identificação com o agressor, que é um mecanismo de defesa inconsciente descrito originalmente por Anna Freud. Diante de um poder percebido como avassalador, o indivíduo, sentindo-se pequeno e impotente, identifica-se com a figura agressora ou opressora para transformar o medo em pertencimento.
A conclusão é perturbadora quando um leitor defende políticos corruptos ou incompetentes está, na verdade, tentando fugir da dolorosa admissão de que foi enganado e de que é, ele próprio, a principal vítima desse abandono. Atacar quem critica o “líder” é uma forma inconsciente de se blindar contra a própria fragilidade.
O viés de confirmação como advogado de defesa
Se o cérebro humano deveria funcionar como um juiz imparcial diante dos fatos, a ciência mostra que, na política, ele frequentemente atua como um advogado de defesa obstinado. O fenômeno é conhecido como viés de confirmação (confirmation bias) e, aliado à atenção seletiva, transforma a percepção da realidade.
Um estudo publicado em maio de 2024 no Personality and Social Psychology Bulletin pela Universidade de Nebraska-Lincoln revelou algo assustador em que políticos que negam suas más condutas são 12% mais propensos a manter o apoio de seus próprios eleitores do que aqueles que admitem o erro e pedem desculpas. A pesquisa conclui que os apoiadores “preferem uma negação pouco crível a perder poder e status dentro do grupo” devido ao descrédito de seu representante.
Isso explica o fenômeno da “narrativa”. Quando um político é pego em flagrante delito, a defesa imediata de sua base não é analisar as provas, mas sim classificá-las como “fake news”, “perseguição judicial” ou “invenção do lado adversário”. Não se trata de desonestidade intelectual primária, mas de um mecanismo de sobrevivência psíquica em que aceitar a verdade custaria caro demais à identidade do eleitor, que fundiu sua autoestima ao sucesso do líder. Como observou o estudo, “a tendência de defender o político é mais forte quando o político tem status elevado no partido ou quando sua reeleição é crítica”.
O espetáculo do “Nós contra Eles”
A vida política, nesse cenário, degenera em entretenimento. O cidadão, frustrado com a própria impotência para melhorar sua vida concreta (saúde, segurança, emprego), busca no espetáculo político a catarse.
A pesquisa da Univesidade de Nebraska também observou que os partidários reagem de forma “favorável às negações do político fictício quando se identificavam com o partido dele”, mesmo diante de crimes como fraude ou corrupção. Cria-se um roteiro de novela: um herói (meu líder), um vilão (a oposição) e uma torcida (eu). A briga política deixa de ser o debate de ideias para virar uma partida de futebol onde o que importa é “ganhar” a qualquer custo.
Essa dinâmica é descrita academicamente como polarização afetiva. Conforme análise de um projeto financiado pela União Europeia (Turning a Blind Eye to Scandal), “em contextos de alta polarização afetiva, a identidade moral do eleitor perde força diante da identidade partidária”. Ou seja, mesmo que o eleitor saiba intrinsecamente que roubar é errado, se o corrupto pertence ao seu “time”, o cérebro faz um malabarismo moral para perdoá-lo. É justamente aqui, que reacende a famosa frase: “rouba, mas faz”.
A Economia do ódio e o preço da impotência
Quem ganha com essa confusão emocional? Apenas os políticos. Enquanto o eleitor gasta sua energia odiando o adversário e defendendo o indefensável, a máquina da estagnação continua girando. A conta do atraso não é cobrada dos líderes, mas da plateia.
Um estudo de 2023 publicado na Acta Politica introduz o conceito de “alternativas viáveis” para explicar a lealdade irracional. A pesquisa alemã mostrou que “votantes de partidos radicais são menos propensos a punir a corrupção não porque sejam inerentemente corruptos, mas porque falta a eles uma alternativa aceitável” no espectro político. Presos em um campo minado ideológico, muitos preferem “fechar os olhos para as ovelhas negras” a admitir que poderiam ter escolhido outro caminho errado. É a síndrome de Estocolmo eleitoral em que se apaixona pelo carcereiro para suportar a prisão.
Como quebrar a hipnose?
Se o cérebro está programado para defender o grupo e rejeitar informações dissonantes, como escapar dessa armadilha? Os pesquisadores sugerem que a saída não está em “vencer” o debate no calor do momento, mas em desarmar a própria mente. A chave está em reconhecer o mecanismo. Enquanto o eleitor não admitir que está sentindo medo ou impotência, ele continuará a votar como um ato de fé cega em vez de um ato de escolha racional.
A pesquisa de 2025 sobre comportamento autoritário, publicada no Political Behavior, oferece um caminho em que a crítica precisa vir de dentro do próprio grupo. “Contra-ações por políticos companheiros de partido são particularmente eficazes em reduzir o apelo de políticos autoritários”. Ou seja, a ruptura da hipnose exige coragem de quem está do mesmo lado.
Enquanto isso não acontece, continuaremos reféns de um jogo de espelhos onde a política virou entretenimento e o cidadão, numa tentativa desesperada de não se sentir vítima, veste a camisa do próprio algoz. O futuro, porém, não será roubado apenas por eles. Será entregue por nós, que preferimos a ilusão da torcida à árdua tarefa da cidadania crítica.
Anita Tetslaff – Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas/Unigran.
