Valfrido Silva
Com o Nelsinho Trad, o “namoradinho” dos eleitores, praticamente instalado no centro emocional da disputa ao Senado, o ex-governador Reinaldo Azambuja parece ter começado a reorganizar cuidadosamente o tabuleiro da direita sul-mato-grossense para 2026. E, nessa corrida onde ninguém se movimenta por acaso, o primeiro obstáculo que o coronel político maracajuense tenta retirar da cancha atende pelo sobrenome Contar.
Longe, muito longe mesmo, de embarcar no viralatismo bolsonarista segundo o qual tudo o que vem dos Estados Unidos automaticamente ganha selo de excelência, o senador Nelsinho Trad já pode, pelo menos simbolicamente, começar a fazer contas para um eventual segundo mandato no Senado. Isso depois da repercussão da pesquisa qualitativa produzida na Flórida e aqui analisada pelo Contraponto/MS, apontando o senador do PSD kassabiano como o nome de maior potencial de crescimento eleitoral dentro da disputa senatorial sul-mato-grossense.
E talvez o mais curioso dessa fotografia política seja exatamente o perfil que começa a se desenhar de Nelsinho: o do candidato emocionalmente palatável num ambiente político exausto da polarização permanente. Uma espécie de “namoradinho” de eleitores e eleitoras moderados.
Para usar uma linguagem mais televisiva, quase uma reedição política daquela velha fórmula que transformou Regina Duarte na eterna “namoradinha do Brasil”, muito antes da atriz trocar os folhetins globais pelos discursos conservadores das redes sociais. Nelsinho vai ocupando silenciosamente esse espaço de candidato de menor rejeição, menos ideológico, mais administrativo, mais municipalista e emocionalmente menos cansativo para um eleitorado já saturado da guerra religiosa entre esquerda e direita.
E há um detalhe eleitoral importante nisso tudo: as mulheres seguem sendo maioria do eleitorado brasileiro. E parte significativa delas demonstra crescente fadiga diante desse ambiente político histérico onde militantes de ambos os lados parecem dispostos a defender suas causas com fervor quase químico, como se ideologia tivesse substituído definitivamente o bom senso. É justamente nesse terreno que Nelsinho parece surfar.
E surfa com uma prancha relativamente sólida. Números administrativos não lhe faltam para sustentar o discurso de eficiência parlamentar. O senador vem transformando em peça central de pré-campanha a prestação de contas diária de suas emendas parlamentares, exibidas didaticamente em rádio e televisão num momento particularmente estratégico do calendário político. Não por acaso, o discurso encontra enorme receptividade junto aos prefeitos e vereadores espalhados pelo Estado, permanentemente sedentos por recursos federais capazes de irrigar administrações municipais cada vez mais dependentes de Brasília.
Coisa de cinema
Mais recentemente, somando-se à narrativa da pesquisa qualitativa americana, Nelsinho ainda ganhou um componente quase cinematográfico durante sua passagem pela Expoagro: encantou-se com um garanhão de genética raríssima no Haras Continental, de Marcelo Iguma. Coerente e igualmente distante do complexo de vira-latas, decidiu não correr riscos na corrida e encomendou um First Down Dash, descendente do lendário Quarto de Milha considerado o maior cavalo de corrida de todos os tempos. Com isso, reforçando involuntariamente aquela velha estética do político interiorano que mistura poder, tradição rural e sofisticação econômica sem precisar explicar muito.
Enquanto isso, na baia ao lado, mas na mesma cancha, o ambiente começa a ficar mais turbulento. A crise envolvendo Flávio Bolsonaro e os bastidores financeiros do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro produziu desconforto visível em setores da direita regional. O projeto cinematográfico, que retrataria Bolsonaro sob a imagem de um “Dark Horse” — o azarão improvável —, acabou atravessado por diálogos constrangedores envolvendo pedidos de recursos e dificuldades de financiamento. E, ironicamente, talvez “azarão” já não seja exatamente a palavra mais confortável para o bolsonarismo utilizar neste momento, sobretudo depois que o sobrenome Vorcaro passou a circular nos bastidores políticos quase como um daqueles maus presságios capazes de transformar qualquer aventura eleitoral numa travessia perigosamente curta.
É nesse cenário que reaparece o fantasma político de Capitão Contar. Azambuja sabe que o ex-deputado do PL continua sendo um nome com forte apelo junto ao bolsonarismo mais raiz e emocional do Estado. E sabe também que, mesmo derrotado no segundo turno de 2022, Contar produziu enorme risco político no grupo governista ao submeter Eduardo Riedel a uma disputa muito mais apertada do que o establishment estadual imaginava inicialmente.
Talvez por isso exista hoje um movimento silencioso para empurrar o bolsonarismo sul-mato-grossense em direção a alternativas consideradas mais “controláveis” politicamente, como o deputado Marcos Pollon, por exemplo. É que Contar representa exatamente aquilo que grupos mais tradicionais da política regional costumam temer: candidaturas movidas mais por paixão militante do que por racionalidade partidária.
E há ainda outro ingrediente relevante nessa corrida eleitoral. O campo lulista também deve entrar fortemente na disputa ao Senado, provavelmente com Vander Loubet carregando a velha máxima segundo a qual presidentes fortes eleitoralmente costumam puxar consigo seus candidatos ao Senado. Mato Grosso do Sul conhece bem esse fenômeno. Basta lembrar Soraya Thronicke, praticamente desconhecida do grande eleitorado até ser impulsionada pela onda bolsonarista de 2018.
O que começa a se desenhar para 2026 talvez seja justamente uma disputa entre diferentes formas de emoção política. De um lado, candidatos apostando na radicalização ideológica e na militância apaixonada. De outro, figuras tentando ocupar um centro menos barulhento, mais pragmático e emocionalmente menos desgastante.
E é exatamente aí que Nelsinho Trad parece enxergar sua grande oportunidade. Porque, em tempos de excesso de gritaria política, às vezes o eleitor acaba se aproximando justamente daquele candidato que consegue conversar sem transformar cada frase numa guerra santa ideológica.
