O barulho do ar-condicionado briga com meu sono. Não gosto dele. Não gosto do seu elevado consumo de energia, do impacto ambiental dos gases refrigerantes e do calor que devolve ao ambiente externo. Mas como evitar que o suor escorra pelas minhas costas, trazendo aquela sensação tão desagradável de respiração?
Alguém me lembra que, no Brasil, a energia é considerada mais limpa do que na França, onde uma parte significativa da eletricidade é produzida por centrais nucleares, que deixam como herança o problema do lixo atômico.
A questão fundamental é: o que fazer diante de um calor que cresce com o aquecimento global? É impossível permanecer o tempo todo nas águas de uma piscina ou do mar quando a vida exige trabalho, compromissos, deslocamentos. Esta semana, a temperatura beirou os 40 graus em Paris e em muitas regiões do país.
Toulouse, no sul da França, tem sofrido intensamente com esses novos extremos climáticos. E o que a cidade tem feito? Plantado árvores. Criou um plano ambicioso com o objetivo de plantar 100 mil árvores entre 2020 e 2030. Elas oferecem sombra, refrescam o ar e capturam CO₂.
A cidade também tem desenvolvido espaços verdes capazes de funcionar como pulmões da vida urbana: parques e jardins, praças com mais vegetação e espaços públicos menos dominados pelo concreto. Toulouse e tantas outras cidades trabalham na desimpermeabilização dos solos, substituindo o asfalto por superfícies capazes de absorver água e armazenar menos calor. Sabemos que o asfalto retém temperaturas elevadas e impede que a água penetre no solo.
E quando os centros históricos, com suas ruas estreitas, não permitem o plantio de árvores, surgem outras soluções: áreas de sombra criadas por estruturas de sombreamento, dispositivos temporários que protegem os habitantes da exposição direta ao sol.
A cidade também procura adaptar seus edifícios para oferecer maior conforto térmico, por meio de isolamento, vegetação em muros e telhados verdes. Quando isso não é possível, busca materiais que absorvam menos calor — como a pintura branca dos telhados, em substituição ao preto tradicional, que intensifica o aquecimento.
Mas reconstruir, transformar, mudar uma cidade leva tempo!
E eu continuo querendo frescor. Frescor natural. Aquele quando a noite vai caindo, silenciosa, no centro do mundo.
Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.
