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quinta-feira, junho 25, 2026

Crise com Michelle pressiona Flávio no eleitorado feminino, apressa definição de vice e amplia lista de problemas na campanha

Aliados do senador avaliam que embate com ex-primeira-dama compromete principal estratégia para crescer fora da base bolsonarista e se soma a uma sequência de crises antes mesmo do início oficial da campanha

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A crise aberta pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao tornar públicos os desentendimentos com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) criou mais um desafio para uma campanha que já vinha sendo obrigada a rever estratégias antes mesmo do início oficial da disputa eleitoral. Reservadamente, aliados avaliam que o episódio atingiu justamente um dos principais pilares do projeto eleitoral do senador, que consistia em ampliar sua presença entre mulheres e conquistar eleitores para além da chamada “bolha bolsonarista”.

A avaliação dentro da campanha é que o episódio antecipou discussões estratégicas, como a definição do candidato a vice-presidente, com uma mulher na chapa, e aumentou a pressão para que Michelle e Flávio reconstruam a relação antes do início da campanha eleitoral. Integrantes do núcleo político do senador afirmam acreditar que a candidatura continua viável mesmo sem uma participação ativa da ex-primeira-dama, mas reconhecem que seu engajamento reduziria resistências em segmentos considerados estratégicos e encurtaria o caminho para a consolidação da candidatura.

O episódio ocorre justamente quando a coordenação da campanha buscava ampliar o alcance da pré-candidatura para grupos em que Flávio aparece atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Desde o início do ano, pesquisas internas e levantamentos de institutos vêm orientando uma estratégia voltada especialmente para mulheres, jovens e idosos, segmentos considerados fundamentais para reduzir a vantagem do petista.

Entre esses grupos, o maior desafio está justamente entre as mulheres. Pesquisa Genial/Quaest divulgada neste mês mostrou Lula com 41% das intenções de voto nesse segmento, contra 24% de Flávio. Outros 13% afirmam ainda não saber em quem votar, percentual que alimenta a avaliação da campanha de que ainda existe espaço para crescimento.

É justamente nesse ponto que Michelle é vista como um ativo eleitoral difícil de substituir. Além de falar com mais facilidade ao eleitorado feminino, a ex-primeira-dama comanda o PL Mulher desde 2023 e percorreu o país estruturando diretórios, identificando novas lideranças e fortalecendo a presença da sigla entre mulheres conservadoras.

Um aliado resume a preocupação dizendo que o episódio atinge justamente um eleitorado que Flávio “não podia perder de jeito nenhum”. Na avaliação desse interlocutor, Michelle leva consigo uma parcela importante de mulheres evangélicas e lideranças do PL Mulher, justamente o segmento que a campanha pretendia mobilizar para diminuir a vantagem de Lula.

Além da mobilização de Michelle, a campanha vinha construindo outros gestos voltados ao eleitorado feminino. Flávio passou a defender publicamente que pretende escolher uma mulher para compor sua chapa como candidata a vice-presidente e intensificou discursos sobre maior participação feminina em cargos de comando. Durante evento recente em São Paulo, afirmou ser favorável a mais mulheres no governo e no Supremo Tribunal Federal (STF) e apresentou a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques como exemplo de liderança feminina ligada ao campo conservador.

Dias depois, Daniella passou a integrar oficialmente a equipe responsável pela elaboração do programa de governo na área econômica e, nos bastidores, seu nome começou a ser citado não apenas para um eventual ministério, mas também como uma alternativa para compor a chapa presidencial.

Agora, aliados admitem que a discussão sobre a vice ganhou novo peso. Embora a definição estivesse prevista apenas para uma etapa posterior da campanha, interlocutores afirmam que a repercussão do vídeo reforçou a necessidade de acelerar essa escolha.

Michelle diz ter sido maltratada por Flávio

A preocupação ganhou força depois que Michelle publicou um vídeo nas redes sociais relatando o episódio que deu origem ao rompimento com o enteado. Na gravação, a ex-primeira-dama afirmou ter sido “desrespeitada” e “maltratada” por Flávio após se posicionar contra uma articulação do PL para apoiar o pré-candidato a governador do Ceará Ciro Gomes (PSDB).

Ela afirmou que, depois de expor sua posição, ela e Flávio conversaram por telefone, momento no qual ele disse que seria melhor que ela permanecesse fora das decisões partidárias.

— Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone. Eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política.

O episódio remonta ao fim do ano passado, quando Michelle entrou em rota de colisão com parte da família Bolsonaro ao se opor publicamente à aproximação entre o PL e Ciro Gomes no Ceará. Na ocasião, Flávio classificou a postura da madrasta como “autoritária”, enquanto Carlos e Eduardo Bolsonaro também defenderam a estratégia do partido. Dias depois, o senador pediu desculpas à ex-primeira-dama, mas o mal-humor entre os dois permaneceu.

Ao retomar o assunto agora, Michelle reacendeu uma disputa justamente no momento em que o PL tentava reorganizar a pré-campanha presidencial do senador.

Outro foco de preocupação envolve o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Um aliado de Flávio avalia que Bolsonaro acabou colocado em uma espécie de “sinuca de bico”. Segundo esse interlocutor, o conflito opõe sua esposa e o filho que ele próprio escolheu como sucessor na disputa presidencial. A leitura é que, caso a crise se prolongue, o ex-presidente poderá ser pressionado pelos demais filhos a se posicionar, ampliando o desgaste interno justamente quando a campanha tenta demonstrar unidade.

Apesar da apreensão de parte dos aliados, outra ala do bolsonarismo faz uma leitura diferente do episódio. Um interlocutor próximo à campanha avalia que Michelle aproveitou o momento para reforçar seu peso político dentro do grupo. Na visão dessa pessoa, a ex-primeira-dama estaria “valorizando” seu apoio ao demonstrar que sua participação na campanha continua sendo um ativo importante para a candidatura de Flávio.

Interlocutores próximos a Michelle também afirmam que a gravação teve outro objetivo: o de pressionar Flávio a procurá-la para uma conversa reservada e encerrar um conflito que se arrasta desde o fim do ano passado. Segundo essas pessoas, a ex-primeira-dama permaneceu em silêncio durante meses para evitar ampliar as tensões em torno de Jair Bolsonaro enquanto o ex-presidente enfrentava decisões do ministro Alexandre de Moraes, mas decidiu apresentar sua versão após considerar que os ataques contra ela haviam ultrapassado os limites.

A nova turbulência se soma a uma sequência de problemas enfrentados pela pré-campanha de Flávio antes mesmo do início oficial da disputa eleitoral. Nas últimas semanas, o senador já havia sido obrigado a reorganizar parte da estratégia após o desgaste provocado pelo caso Dark Horse, que levou aliados a defender mudanças na condução da comunicação da campanha.

A crise culminou na saída de Marcello Lopes, que coordenava a comunicação da pré-campanha, e na entrada do publicitário Eduardo Fischer para comandar a área estratégica. A missão do marqueteiro passou a ser reposicionar a candidatura após a repercussão negativa do episódio envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e recolocar Flávio no debate sobre economia, segurança pública e propostas de governo.

Segundo interlocutores da campanha, a estratégia começava a surtir efeito, com a retomada de agendas voltadas à apresentação de propostas e à aproximação com empresários e setores do agronegócio. O vídeo de Michelle, porém, voltou a deslocar o foco da campanha para conflitos internos, justamente quando o grupo pretendia deixar a crise anterior para trás.

Além da repercussão nacional, a pré-campanha ainda administra impasses em palanques estaduais, negociações para formação de alianças e a definição da chapa presidencial.

O calendário eleitoral também aumenta a pressão sobre a equipe de Flávio. As convenções partidárias, período em que os partidos oficializam seus candidatos, poderão ser realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto. Até lá, integrantes da campanha sabem que o senador precisará chegar com a estratégia de comunicação reorganizada e com a composição da chapa definida.

Letícia Pille/O Globo — Brasília

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