Se meu saudoso amigo Alberto Campos Perdomo ainda estivesse entre nós, certamente hoje seria um daqueles dias em que ele me pararia na Pedra, ali na Marcelino Pires, em frente à CB (Central de Boatos) do Takeo, para um de seus memoráveis puxões de orelha:
— Que história é essa de “foi eles, claro” e “foi eles, sempre”? E ainda repetido duas vezes?
A reprimenda seria inevitável. Afinal, poucos conheciam melhor os caminhos e descaminhos da língua portuguesa do que Perdomo. Filólogo de mão cheia, eleitor de Jânio Quadros até depois da morte do homem da vassoura, era daqueles que enxergavam um erro de concordância a cem metros de distância.
A bronca viria por causa da legenda de uma ilustração editorial publicada junto à crônica “Misantropia Digital“. Nela, dois grupos se acusavam mutuamente diante de um ataque cibernético. De um lado: “Foi eles, claro”. Do outro: “Foi eles, sempre”.
Errado? Sem dúvida. Mas talvez nem tanto.
Vivemos tempos estranhos para a língua portuguesa. Se a Rede Globo, em pleno horário nobre, coloca milhões de brasileiros para cantar “Respeita nóis”, com uma dupla da novela das 7h, quem sou eu para exigir que uma multidão enfurecida de uma charge consulte primeiro o velho Aurélio antes de apontar culpados?
Aliás, a mesma emissora também embala sua novela das sete, “Sagrado Coração”, com a voz da sul-mato-grossense Ana Castela cantando, sem o menor constrangimento, “Olha onde eu tô”. E ninguém parece escandalizado. Muito pelo contrário. A música, cheia de “equívocos linguísticos”, toca nas rádios, nas festas, nos aplicativos e até nos celulares dos mais rigorosos defensores do vernáculo.
Talvez porque a língua real nunca tenha pedido licença à língua formal.
Quem cresceu em Dourados sabe disso. Quantas vezes já ouvimos locutores anunciarem voos chegando ou saindo de nosso “aérioporto” Francisco de Mattos Pereira? Quantas vezes o poeta Weimar Torres foi promovido a “Wermar Torres” por algum apresentador mais entusiasmado? E não apenas nas ondas da velha “latinha”. Também nos jornais impressos e digitais, onde revisores e professores de português frequentemente são atropelados pela pressa do fechamento.
Quantas vezes já fomos obrigados a ler construções como “o casal são”, inclusive em páginas que levam o nome do próprio poeta? Sem falar nos incontáveis “pobremas”, “menas” e outras pérolas, como uma que era muito ouvida no plenário da Assembleia Legislativa, o antológico “me falou pra mim”, que sobrevivem heroicamente à perseguição dos gramáticos.
A propósito, que não se confundam essas escorregadas com os neologismos, espécie de filhos legítimos da necessidade. Enquanto “menas” continua fazendo o saudoso Aurélio se revirar no sepulcro caiado, expressões como “printar”, “viralizar”, “deletar”, “textão” ou “sextou” acabaram encontrando cidadania na língua portuguesa. Umas nascem do descuido; outras, da criatividade.
No fundo, a língua faz o que sempre fez: adapta-se aos falantes. Algumas expressões desaparecem. Outras resistem. Algumas viram motivo de correção. Outras acabam entrando nos dicionários. E há aquelas que simplesmente se tornam retratos perfeitos de uma época.
Foi exatamente por isso que mantive o “foi eles” na ilustração. Não por desconhecimento da regra. Mas porque a frase dizia mais sobre os personagens do que qualquer concordância correta poderia dizer.
Afinal, os acusadores da charge não estavam preocupados com gramática. Nem com provas. Nem com investigação. Estavam apenas cumprindo o ritual moderno da polarização: apontar imediatamente o dedo para o outro lado.
E, convenhamos, se existe uma coisa que costuma chegar antes da reflexão, é a certeza. Mesmo quando ela vem acompanhada de um pequeno tropeço no português.
Que me perdoe o amigo Perdomo. Mas desta vez a gramática perdeu para a crônica. E, suspeito, até ele acabaria sorrindo.
