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sexta-feira, junho 26, 2026

O homem reciclador

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Ele empurra um carrinho de bebê abarrotado com dois sacos repletos de coisas. Não é a primeira vez que o vejo. Já o encontrei em diferentes lugares do bairro.

Vai atravessar a rua. O farol ficou verde; pode passar. Manca de uma perna, que parece menor que a outra.

Passa em frente à praça, onde os odores dos jasmins, entre outras flores, e as cores das cerejeiras anunciam a primavera.

Ele continua empurrando o seu carrinho. No rosto, barba por fazer; nos olhos escuros, o cansaço. Mais adiante, para diante de algumas lixeiras. Levanta a tampa de uma delas e começa a abrir os sacos de plástico ali depositados. Não usa luvas, mas tem experiência em abrir sacos. Não encontrou nada que lhe interessasse. Abre outro. Dele tira uma blusa masculina de manga comprida, uma calça… Coloca as duas peças em um dos sacos sobre o carrinho de bebê e continua o trabalho.

Parece um cigano da Romênia, alguém que conhece e pratica esse trabalho diariamente por estas bandas. Não me parece ser uma dessas pessoas que o fazem habitualmente para vender nos mercados de pulgas. Será que o que recupera vai para a venda na Romênia? É, de certa forma, um trabalho de reciclagem.

Em Paris, estima-se que milhares de pessoas pratiquem essa atividade. Ou seja, pessoas que vasculham lixeiras em busca das mais variadas coisas: roupas, livros, sapatos, utensílios domésticos (louças, pequenos móveis etc.) e, às vezes, metais ou eletrodomésticos.

Dependendo do bairro, o lixo é mais precioso do que em outros. Lembro-me de um amigo que me disse que, quando chegou a Paris, mobiliou seu estúdio — um pequeno apartamento, uma quitinete — com objetos encontrados nas ruas. Esses profissionais da reciclagem ficam com o que lhes é útil, mas, sobretudo, revendem o que encontram.

São “profissionais” que revendem em mercados informais, em feiras de usados ou mercados de pulgas. Às vezes, vendem também a antiquários ou revendedores. Trata-se de uma espécie de economia paralela, frequentemente utilizada para garantir a sobrevivência.

Na França, normalmente é proibido jogar roupas no lixo comum. Paris dispõe de uma rede de contentores instalados nas calçadas para a recolha de roupas e tecidos.

Desde a adoção da lei relativa à economia circular (AGEC), a França incentiva fortemente a separação dos resíduos têxteis. Roupas, sapatos e tecidos não devem ser descartados no lixo doméstico quando ainda podem ser reutilizados, doados ou reciclados.

As pessoas também podem entregar essas peças a associações ou às ressourceries (centros de reutilização), que as revendem ou as encaminham para reutilização. Os objetivos são reduzir o desperdício têxtil, diminuir a poluição e incentivar a economia circular.

As roupas em bom estado são revendidas pelas associações. As danificadas são encaminhadas para circuitos específicos, onde serão recicladas ou reaproveitadas industrialmente.

“Meu homem” continua seu caminho.

Mazé Torquato Chotil – Jornalista e autora. Doutora (Paris VIII) e pós-doutora (EHESS), nasceu em Glória de Dourados-MS, morou em Osasco-SP antes de chegar em Paris em 1985. Agora vive entre Paris, São Paulo e o Mato Grosso do Sul. Tem 14 livros publicados (cinco em francês). Fazem parte deles: Na sombra do ipê e No Crepúsculo da vida (Patuá); Lembranças do sítio / Mon enfance dans le Mato Grosso; Lembranças da vila; Nascentes vivas para os povos Guarani, Kaiowá e Terenas; Maria d’Apparecida negroluminosa voz; e Na rota de traficantes de obras de arte.
Em Paris, trabalha na divulgação da cultura brasileira, sobretudo a literária. Foi editora da 00h00 (catálogo lusófono) e é fundadora da UEELP – União Européia de escritores de língua Portuguesa. Escreveu – e escreve – para a imprensa brasileira e sites europeus.

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