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sábado, julho 4, 2026

Nas trilhas do avô, Pedrossian Neto busca fazer jus ao legado de um visionário

Ao defender novamente as ferrovias como estratégia de desenvolvimento, Pedrossian Neto desperta lembranças de um tempo em que seu avô transformou a experiência na Noroeste do Brasil na principal credencial para governar o antigo Mato Grosso

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Valfrido Silva

Existem sobrenomes que identificam famílias. Outros sobrevivem ao tempo porque acabaram dando nome a uma era. Pedrossian é um deles. Bastou o deputado estadual Pedrossian Neto chegar a Dourados para que, antes mesmo de qualquer pergunta sobre seu projeto de reeleição à Assembleia Legislativa ou sobre os rumos de Mato Grosso do Sul, minha memória tomasse conta da conversa. Na mesa da velha Padaria do Fuxico já não estava apenas o neto de um ex-governador. Estavam, outra vez, a primeira gota de piche na Marcelino Pires, a energia de Urubupungá, o nascimento do CEUD, a Vila Popular e um tempo em que a política ainda ousava sonhar grande.

Falo como quem viu. Não li em livros, não ouvi contar e muito menos conheci por fotografias amareladas de arquivo. Vi cair a primeira gota de piche sobre a Avenida Marcelino Pires, quando as ruas de Dourados faziam jus à condição da cidade da terra vermelha. Vi chegar a energia de Urubupungá, transformando noites iluminadas por lampiões em uma cidade que finalmente descobria o futuro. Assisti ao nascimento do velho CEUD — Centro Universitário de Dourados — embrião das universidades que hoje dividem o mesmo campus, separadas apenas por uma avenida, mas unidas pela mesma origem. Vi nascer a histórica Vila Popular, primeiro “grande” conjunto habitacional da cidade, quando moradia popular ainda significava política pública e não apenas promessa de campanha.

Era um tempo em que Mato Grosso ainda era chamado, na propaganda eleitoral de Pedro Pedrossian, de “Velho Colosso”. Não era apenas um slogan. Era um diagnóstico. O engenheiro da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil enxergava um gigante adormecido e acreditava que desenvolvimento não se fazia apenas com discursos inflamados ou palanques cheios. Fazia-se com infraestrutura, energia, transporte, educação e planejamento. Talvez por isso tenha chegado ao governo trazendo muito mais a prancheta de engenheiro do que o caderno de um político profissional.

Sempre tive a impressão de que Pedro Pedrossian percorreu um caminho inverso ao de boa parte dos homens públicos brasileiros. Enquanto muitos aprendem primeiro a política para depois tentar administrar, ele chegou ao governo pela administração. Não carregava no currículo a longa aprendizagem dos corredores das câmaras municipais, das assembleias ou das disputas internas dos partidos. Entrou pela porta da gestão e, talvez exatamente por isso, tenha governado olhando mais para mapas, ferrovias e projetos estruturantes do que para pesquisas eleitorais.

Poucos governantes brasileiros deixaram uma assinatura material tão evidente quanto a dele. Da Universidade Federal de Mato Grosso à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, passando pela então Universidade Estadual de Mato Grosso, cujos desdobramentos alcançariam, anos depois, a criação da UEMS e da Universidade Federal da Grande Dourados, sua visão de futuro continua espalhada por dois Estados. Não sei de outro governador brasileiro que tenha participado tão decisivamente da implantação de três universidades públicas. Enquanto muitos governantes preferem inaugurar obras de concreto, Pedrossian ajudou a inaugurar algo muito mais duradouro: oportunidades.

Foi impossível não enxergar alguns desses traços no neto sentado à minha frente no cafezinho com Pedrossian Neto, nesta sexta-feira gelada. Tanto que abri uma exceção, ao não resistir ao seu pedido para a foto que ilustra este texto. Não porque, durante nossa prosa, imitasse gestos ou reproduzisse frases decoradas por algum ghostwriter de ocasião. Ao contrário. Seu discurso parece nascer naturalmente de uma formação construída muito antes da política e de um legado que dispensa roteiristas. Afinal, por onde quer que se ande, em qualquer canto dos dois Mato Grossos, ainda é possível enxergar, de uma forma ou de outra, a estrela de cinco pontas que simbolizou os governos de Pedro Pedrossian — não apenas estampada em fotografias de época, mas materializada em universidades, rodovias, cidades, conjuntos habitacionais e tantas outras obras que continuam falando por si. Economista formado por uma das melhores escolas do país, professor universitário antes de disputar eleições, Pedrossian Neto transmite a impressão de quem decidiu entrar na vida pública depois de preparar a bagagem intelectual necessária para isso. Quase como se carregasse a obsessão silenciosa de fazer jus ao peso do sobrenome que herdou.

Em determinado momento da conversa, chamou minha atenção quando Pedrossian Neto voltou a defender aquilo que muitos consideram uma pauta fora de moda: as ferrovias. Contou, inclusive, que chegou a ser chamado de louco, recentemente, em Ponta Porã, por insistir que Mato Grosso do Sul precisa recolocar os trilhos entre suas prioridades estratégicas. Confesso que me emocionei, porque imediatamente revi seu avô, o engenheiro Pedro Pedrossian, que, como chefe da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, transformou justamente essa experiência administrativa na principal credencial para chegar ao governo do antigo Mato Grosso. Naquele tempo, defender ferrovias também significava apostar num projeto de desenvolvimento que muitos julgavam ousado demais. Décadas depois, o neto volta a falar dos trilhos. A História não se repete. Mas, às vezes, percorre os mesmos caminhos.

Mas Pedrossian Neto faz questão de colocar os pés no chão. Reconhece que ninguém vive apenas de lembranças. Sabe que boa parte do eleitorado jovem sequer conheceu Pedro Pedrossian ou ouviu falar de suas realizações. E talvez tenha razão. A política não permite heranças automáticas. Sobrenomes ajudam a abrir portas, mas não garantem votos. Cada geração precisa construir sua própria biografia.

Ainda assim, algumas heranças permanecem mais como responsabilidade do que como privilégio. O neto não herdou apenas um sobrenome. Herdou uma cobrança permanente. Cada projeto será inevitavelmente comparado ao legado do avô. Cada discurso será confrontado com uma história que continua visível nas universidades, nas rodovias, nas cidades e nas obras que ajudaram a moldar Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

Quando a prosa terminou, fiquei com a impressão de que o verdadeiro desafio de Pedrossian Neto talvez não seja convencer o eleitor de que seu avô foi um grande governador. Isso a própria História continuará discutindo, como deve acontecer em qualquer democracia madura. Seu desafio será outro: provar que ainda existe espaço para uma política que pense cinquenta anos à frente, e não apenas até a próxima eleição.

Se conseguir isso, terá feito muito mais do que honrar um sobrenome. Terá demonstrado que algumas ideias envelhecem. Outras apenas esperam a estação certa para voltar a correr sobre os trilhos.

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