Anita Tetslaff*
A Copa do Mundo de 2026, realizada em um momento de intensa conexão digital, revelou a dimensão planetária da influência brasileira. O futebol, nossa principal “moeda de troca” cultural, nunca foi tão poderoso. Dados de engajamento mostram que a seleção brasileira é uma força imbatível nas redes sociais. Nos primeiros dias do Mundial, o Brasil foi a equipe que mais acumulou engajamento no Instagram e a que mais ganhou novos seguidores, retomando a liderança mundial com a maior base de fãs na plataforma, somando 24,8 milhões de seguidores. Um estudo do IBOPE Repucom confirma essa hegemonia, colocando o Brasil no pódio das seleções com a maior “torcida digital” do mundo, com 38,4 milhões de seguidores em todas as plataformas.
O fascínio, no entanto, transcende o campo de futebol. O fenômeno do “Brazilcore”, uma estética que exporta nossas cores, símbolos e alegria, tomou conta do mundo, ganhando força nas redes sociais e na moda. Todo mundo ama o Brasil. Essa valorização do que é genuinamente brasileiro, antes vista como exótica ou marginal, agora é desejada como um diferencial. O mundo busca autenticidade, e o Brasil, com sua mistura e criatividade, tornou-se um celeiro de referências. O sucesso do cinema nacional, com prêmios como o Oscar para “Ainda Estou Aqui”, e a crescente demanda internacional por talentos brasileiros em diversas áreas, que subiu 53% em 2025, são termômetros dessa mudança.
O turismo também é um termômetro visível dessa virada. Segundo dados do Ministério do Turismo, o Brasil recebeu 9 milhões de turistas estrangeiros em 2025, um recorde histórico com um aumento de 37% em relação ao ano anterior, e liderou o crescimento do turismo internacional com um avanço de 45%, superando destinos como Vietnã e Egito (21%). O turista estrangeiro não vem apenas pelas praias, mas exalta o clima, a comida, a cultura e, curiosamente, até o sistema de saúde, tornando o CPF brasileiro um objeto de desejo comparável ao antigo Green Card americano.
A imagem do Brasil no exterior deixou de ser a do país folclórico e exótico pintado pelo Norte Global para se tornar a de uma potência cultural, criativa e cheia de “alma”. O futebol, as redes sociais e o Brazilcore são os vetores dessa transformação, que, longe de ser uma moda passageira, parece ser um realinhamento global de valores. Em um mundo cansado de crises e polarizações, o “sonho tupiniquim”, com sua leveza, criatividade e calor humano, surge como um novo ideal, em contrapartida ao “American Dream” em decadência. E, neste cenário, a camisa amarela de Pelé tornou-se o passaporte para um país que o mundo, finalmente, quer conhecer e abraçar.
Esse movimento não é espontâneo, mas fruto de um longo e estratégico trabalho diplomático. O Brasil se consolidou como um país pacifista e mediador, usando sua cultura como “soft power” para construir relações internacionais benignas e se posicionar como formador de agenda. A capa da revista The Economist em 2009, com o Cristo Redentor decolando, foi um marco nessa validação. Hoje, o país colhe os frutos desse investimento, com marcas internacionais bilionárias vendendo o estilo de vida brasileiro.
Estamos diante do fim do complexo de inferioridade e do início do “orgulho caramelo”. A Copa do Mundo de 2026 surge como uma oportunidade de ouro para marcas e para o governo consolidarem essa imagem. O desafio agora é transformar esse momento de euforia em políticas estruturantes. Como destacou o Ministério do Turismo, o foco está em consolidar o setor como vetor de desenvolvimento, com investimentos em infraestrutura e sustentabilidade. Se o mundo quer o que o Brasil tem, é hora de o Brasil acreditar em si mesmo e ocupar esse espaço com a autenticidade que sempre lhe foi peculiar.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.
