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quarta-feira, julho 8, 2026

A perigosa recaída do insubordinado

A trilogia da Copa ganhou um quarto capítulo de lambuja. Não por causa da Noruega, de Neymar ou de Haaland, mas porque uma leitora me fez reencontrar o foca de jornalismo esportivo que um dia começou à beira dos campos da velha LEDA

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Valfrido Silva

Nem toda trilogia termina no terceiro capítulo. Algumas ganham um capítulo de lambuja. Foi exatamente o que aconteceu com a sequência de crônicas que começou na eliminação do Brasil para a Noruega e acabou me levando muito mais longe do que eu próprio imaginava. O responsável por esse inesperado quarto movimento não foi Neymar, nem Haaland, nem a Seleção Brasileira. Foi uma jovem leitora, a Larissa Rodrigues. Enquanto o contrapontoMS registrava um dos maiores picos de audiência de sua história recente, provocado pelas crônicas da Copa do Mundo, chegou uma mensagem de poucas palavras que valeu mais do que qualquer gráfico do Google Analytics: “Sua narrativa é um conto. Que se lê cantando”. Bastou para este velho insubordinado do jornalismo descobrir que talvez o problema nunca tivesse sido apenas a decadência da Seleção Brasileira. Talvez fosse um problema de foro íntimo deste editor, que, diante do futebol milionário de hoje, sente uma vontade cada vez maior de voltar aos velhos tempos da Liga Esportiva Douradense de Amadores, a velha LEDA, onde tudo começou.

Foi ali que comecei no rádio, como repórter esportivo, quando boleiro ainda era chamado de boleiro justamente porque jogava bola, não porque administrava contrato, imagem, patrocínio, bônus, luvas, helicóptero ou férias em resort. Não havia staff, fisiologista particular, assessor de imprensa ensinando o jogador a responder sem dizer nada nem empresário decidindo quem seria titular antes do treinador. Havia campo, poeira, chuteira gasta, rivalidade e uma vontade quase irresponsável de vencer. E, convenhamos, houve tardes em que um clássico entre Ubiratan e Operário, nos bons tempos dos supercampeonatos amadores, parecia mais vibrante, mais honesto e mais brasileiro do que certas exibições recentes da própria Seleção.

A memória, essa velha escaladora de times impossíveis, logo começa a fazer das suas. Mauro Alonso, goleiro de campo que jogava como ala no futebol de salão. Valdeci Carbonaro. Pitu. Os irmãos Saldivar. Os irmãos Faker. Omenélio. Piper (o diabo loiro, segundo o cronista Alcodan), Varela. Coutinho. Leba. Careca. Marciano. Bastaria reunir esses nomes para montar uma seleção que talvez nunca disputasse uma Copa do Mundo, mas que continua campeã na lembrança de quem teve o privilégio de vê-los jogar. Eram boleiros antes que a palavra atleta se tornasse sinônimo de marca internacional. Jogavam porque amavam o jogo. E talvez exatamente por isso jogassem tão bem.

Foi então que compreendi por que aquela série de três crônicas se recusou a terminar. A primeira falava da derrota que eliminou uma época. A segunda tentava explicar por que o Brasil precisava reaprender a remar para não continuar morrendo na praia. A terceira enxergava, numa fotografia entre Neymar e Haaland, muito mais do que uma diferença de centímetros. Parecia suficiente. Parecia o ponto final. Mas a mensagem da Larissa abriu uma quarta porta. De repente, a Copa deixou de ser o assunto principal. A verdadeira pauta passou a ser o caminho percorrido por um jornalista que, sem perceber, ainda carregava dentro de si aquele menino que começou cobrindo partidas da LEDA.

Talvez por isso as crônicas tenham encontrado tanta ressonância entre os leitores. Não foi apenas pela derrota para a Noruega. Nem pela saudade de Pelé, Garrincha, Rivelino, Sócrates, Ronaldinho, Ronaldo ou até Neymar. Foi porque, no fundo, muita gente também anda desconfiada de que perdeu alguma coisa pelo caminho. Perdemos a Seleção como extensão do futebol que víamos aos domingos. Perdemos a identificação com jogadores que mal conhecemos antes de vê-los vestindo a camisa amarela. Perdemos o prazer de torcer por um time que parecia representar muito mais do que onze atletas. Representava uma ideia de Brasil.

E aí surge a parte mais incômoda da conversa. Quando se fala em reconstruir o futebol brasileiro, quase tudo se resume ao treinador, ao esquema tático ou ao próximo ciclo da Copa. É pouco. Muito pouco. Como escrevi anteriormente, o buraco é muito mais embaixo. A corrupção no futebol parece ter aprendido quase todas as lições da política partidária. Mudam os uniformes, os camarotes e as atas de reunião. Permanecem os vícios, os contratos nebulosos, os interesses cruzados, as estruturas fechadas e a dificuldade quase crônica de prestar contas ao verdadeiro dono desse espetáculo: o torcedor.

Nessas horas, volta inevitavelmente à memória a advertência de Ruy Barbosa sobre o triunfo das nulidades, a prosperidade da desonra e o crescimento da injustiça. A frase continua assustadoramente atual. A diferença é que, no futebol, a indignação costuma durar apenas até a próxima convocação. Depois, tudo recomeça como se nada tivesse acontecido.

Talvez o pico de audiência do contrapontoMS durante esses dias de Copa ajude a explicar alguma coisa. O leitor não procurava apenas placares. Para isso bastaria abrir qualquer aplicativo. Procurava memória. Procurava narrativa. Procurava alguém disposto a transformar um resultado esportivo numa conversa sobre identidade, pertencimento e país. Talvez porque o futebol, antes de virar uma poderosa indústria global, fosse exatamente isso: uma história cantada na arquibancada, narrada no rádio, exagerada na calçada, discutida no boteco e guardada para sempre na memória de quem a viveu.

Por isso confesso que a tentação é grande. Dá vontade de deixar por algum tempo o jornalismo analítico político com seus coronéis, seus bastidores, seus marqueteiros, seus telões, seus mitos e bichões de salto alto; seus gerúndios criminosos, para voltar aos velhos campos da LEDA e perguntar onde foi parar aquele futebol de rosto conhecido, chuteira enlameada e alma amadora. Talvez ele nunca mais volte. Talvez tenha ficado preso numa tarde qualquer de Ubiratan contra Operário, com Mauro Alonso fechando o gol, Pitu inventando jogadas, os Saldivar e os Faker transformando rivalidade em espetáculo e a cidade inteira acreditando que aquilo era apenas futebol.

Não era. Era uma escola de identidade. Era ali que aprendíamos, sem perceber, que uma camisa podia representar uma comunidade inteira. Que vencer era importante, mas pertencer era ainda maior. Talvez seja exatamente isso que falte à Seleção Brasileira de hoje. Não apenas craques. Não apenas técnicos competentes. Não apenas dirigentes honestos e transparentes. Falta ao torcedor voltar a se reconhecer naquele time. Falta ao jogador vestir a camisa amarela como quem veste uma história e não apenas mais um compromisso entre duas temporadas europeias.

Foi aí que descobri que Larissa Rodrigues não escreveu apenas um elogio. Sem saber, acrescentou um quarto capítulo a uma história que deveria terminar no terceiro. A trilogia virou quadrilogia porque uma leitora percebeu antes do próprio autor que aquelas crônicas nunca falaram apenas de futebol. Falavam da memória. Da profissão. Da infância. Da identidade. Falavam daquele menino que um dia entrou num campo da LEDA carregando um bloco de anotações e que, passados mais de cinquenta anos, continua acreditando que futebol não é apenas placar. É gente. É memória. É pertencimento afetivo. Como bem disse Larissa, um conto que se lê cantando. Talvez seja exatamente por isso que certas derrotas produzam boas crônicas. Elas apenas nos lembram o caminho de volta para casa.

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