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domingo, agosto 2, 2026

A mágica que fez Nelsinho trocar a disputa ao Senado pela suplência de Azambuja

A versão oficial fala em orientação nacional do PSD e espírito de grupo. Nos bastidores, porém, a retirada da candidatura ao Senado já vinha sendo construída muito antes do anúncio deste sábado

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Valfrido Silva

Política é uma atividade curiosa. Quase sempre existe uma versão oficial, cuidadosamente preparada para as câmeras, e outra, menos elegante, que percorre silenciosamente os corredores, os gabinetes, os grupos de WhatsApp e as conversas reservadas entre prefeitos, vereadores, deputados e candidatos. A primeira costuma virar nota à imprensa. A segunda, quase nunca chega ao papel. Foi exatamente essa sensação que ficou depois do pronunciamento de Nelsinho Trad ao anunciar sua desistência da disputa pela reeleição ao Senado. Tentando explicar o inexplicável, o senador falou em orientação nacional do PSD, em respeito à liderança de Gilberto Kassab, em projeto coletivo, em fortalecimento da candidatura do governador Eduardo Riedel e na necessidade de deixar as vaidades pessoais em segundo plano. Um discurso correto, educado, institucional. Mas, como diria o inesquecível senador pernambucano Marco Maciel, uma respeitável “tertúlia flácida para bovino dormitar”. Porque, a rasteira política, de verdade, já vinha se desenhada nos bastidores do azambujismo.

Até poucos dias atrás, Nelsinho figurava em praticamente todas as pesquisas como um dos dois nomes mais competitivos para conquistar uma das vagas ao Senado. Não era obra do acaso. Ao longo do mandato construiu uma base sólida nos municípios, principalmente pelo volume de emendas parlamentares destinadas às prefeituras. Prefeitos, vereadores e lideranças regionais aprenderam a enxergar nele um parlamentar presente, acessível e eficiente na difícil tarefa de abrir portas em Brasília e transformar pedidos de recursos em obras e serviços. Poucos senadores chegaram ao período eleitoral com uma rede de apoios municipais tão consistente quanto a dele. Pois foi justamente essa base que começou a ser minada.

Enquanto o discurso público pregava unidade em torno da reeleição de Eduardo Riedel, nos bastidores outra estratégia avançava silenciosamente. O núcleo político ligado ao ex-governador Reinaldo Azambuja passou a trabalhar pela consolidação da chamada chapa pura do PL ao Senado: Azambuja no primeiro voto, Capitão Contar no segundo. A orientação começou discretamente, quase como uma preferência natural da campanha bolsonarista. Pouco depois, transformou-se numa diretriz. Prefeitos, deputados e vereadores passaram a ser “estimulados” a concentrar esforços exclusivamente na dupla. Candidatos proporcionais que inicialmente pretendiam dividir seus apoios entre Azambuja e Nelsinho começaram a ouvir que o momento exigia reforçar a chapa completa do grupo. Em política, nem sempre é preciso uma ordem formal. Às vezes basta o ambiente deixar claro para onde sopra o vento.

Nelsinho percebeu rapidamente que seu patrimônio político começava a sofrer um desgaste silencioso. Cada prefeito que mudava de posição, cada vereador que alterava o discurso e cada candidato que deixava de pedir votos para o senador representava muito mais do que um apoio perdido. Representavam, no conjunto da trama, uma mudança na correlação de forças dentro da própria aliança governista. Permanecer candidato significaria disputar votos não apenas contra adversários externos, mas também enfrentar um processo de esvaziamento promovido dentro da própria base que ajudava a sustentar o governo.

Foi justamente nesse momento que a decisão ganhou contornos de inevitabilidade. Coincidentemente, também era o instante em que os irmãos Trad atravessavam a trincheira política. O ex-deputado Fábio, assumia a candidatura ao Governo do Estado pelo PT. O também ex-deputado e ex-prefeito da capital, Marquinhos anunciava disputar uma vaga na Câmara Federal pelo PV, na mesma coligação. A política, que raramente separa os fatos das conveniências, tratou de aproximar as duas histórias. A candidatura de Nelsinho deixou de ser vista apenas como um projeto pessoal e passou a ser observada também pelo prisma das novas circunstâncias familiares e eleitorais. Daí em diante, o movimento em favor da chapa pura ao Senado ganhou velocidade, até tornar praticamente inevitável a solução anunciada neste sábado.

A explicação oficial veio pronta: orientação nacional do PSD. Politicamente, porém, a realidade parecia bem menos burocrática. Ninguém abandona espontaneamente uma candidatura quando aparece entre os favoritos nas pesquisas, possui estrutura partidária, boa capilaridade municipal e um histórico reconhecido de entrega de recursos aos municípios. O senador simplesmente percebeu que a disputa havia deixado de ser eleitoral para se transformar numa batalha interna, na qual parte do próprio exército já havia recebido outra missão.

Até porque havia ainda um componente eleitoral que tornava a permanência de Nelsinho na disputa ainda mais incômoda para quem defendia a chapa pura ao Senado. Sua candidatura começava a ser vista como um possível ponto de convergência do chamado segundo voto. Num Estado em que o bolsonarismo continua sendo uma força política relevante, parte desse eleitorado poderia naturalmente optar por Reinaldo Azambuja no primeiro voto e destinar o segundo a Nelsinho Trad. Ao mesmo tempo, com Fábio Trad encabeçando a chapa do PT ao Governo e Vander Loubet como único candidato petista ao Senado, também não era desprezível a possibilidade de que uma parcela do eleitorado identificado com o presidente Lula utilizasse o segundo voto para prestigiar o senador do PSD. Não se tratava de uma aliança formal nem de uma transferência automática de votos, mas de uma hipótese eleitoral que passou a frequentar os cálculos dos estrategistas da campanha governista. Quanto mais competitiva se mostrasse a candidatura de Nelsinho, maior seria o risco de romper a lógica da chapa fechada em torno de Reinaldo Azambuja e Capitão Contar.

Ao aceitar a primeira suplência de Reinaldo Azambuja, Nelsinho preservou seu espaço político, manteve o PSD dentro da aliança governista e evitou transformar uma divergência de bastidores numa guerra pública entre aliados. Não foi um gesto de fraqueza. Foi uma decisão pragmática de quem conhece suficientemente a política para perceber quando o tabuleiro já foi rearrumado antes mesmo do início oficial da partida.

É exatamente por isso que sua fala deste sábado merece ser ouvida com atenção, mas também lida nas entrelinhas. Ela explica a decisão institucional. Não explica, porém, a engenharia política que a tornou praticamente inevitável. Essa parte permaneceu fora do discurso. Talvez por elegância. Talvez por disciplina partidária. Talvez porque certos movimentos, na política, nunca sejam escritos nas atas das convenções.

Como convenção é sempre um ambiente festivo, todos saíram satisfeitos diante das câmeras. Eduardo Riedel consolidou uma ampla aliança. Reinaldo Azambuja não terá mais Nelsinho fungando em seu cangote e Capitão Contar passou a integrar uma chapa praticamente sem concorrência interna. Nelsinho Trad preservou sua posição no grupo e evitou um desgaste que poderia comprometer sua trajetória política. A fotografia oficial transmitiu unidade. Mas, como costuma acontecer na política, a história mais interessante não estava na fotografia. Estava justamente naquilo que ficou fora do enquadramento.

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