Acho que finalmente chegou a hora de explicar a alguns de meus leitores o significado prático de uma palavra que aparece com frequência aqui no contrapontoMS: establishment. Um dia ainda escrevo um artigo inteiro sobre ela. Hoje basta imaginar um tabuleiro de xadrez. Não um desses joguinhos disputados na praça da cidade, mas uma partida de Garry Kasparov, o enxadrista russo que transformou o jogo numa verdadeira ciência da estratégia. Quem acompanhava suas partidas costumava cometer o mesmo erro. Achava que a vitória acontecia quando ele anunciava o xeque-mate. Kasparov sorria. Sabia que o adversário havia perdido cinco ou seis jogadas antes, quando aceitou mover uma peça aparentemente sem importância. Pois foi exatamente isso que aconteceu semana passada no xadrez da política estadual, às vésperas das convenções partidárias que definiram os candidatos que vão disputar as próximas eleições.
Sem retirar uma única vírgula do artigo publicado ontem — A manobra que, por elegância, Nelsinho Trad preferiu não contar —, acrescento apenas uma nova peça ao tabuleiro. Porque a política raramente se limita às fronteiras desenhadas no mapa. Muito menos quando o jogo envolve a recomposição Senado da República, onde cada cadeira vale ouro para quem governa e para quem faz oposição.
Enquanto boa parte do Estado acompanhava a visita de ministros do governo federal, os discursos protocolares e até o constrangimento provocado pelo episódio envolvendo a deputada Camila Jara na FIEMS, outro jogo parecia estar sendo disputado longe dos holofotes. Como nas partidas de Kasparov, havia muito mais acontecendo do que os olhos conseguiam enxergar. O público observava os peões avançando. Os enxadristas estudavam o destino das torres, dos bispos e da rainha.
O tabuleiro nacional ajuda a compreender o estadual. Para o Palácio do Planalto, poucas disputas regionais têm importância apenas regional. Cada eleição para o Senado representa uma peça estratégica na correlação de forças que sustentará ou dificultará o governo nos próximos anos. Mato Grosso do Sul já conta com Tereza Cristina como uma das principais vozes da oposição. Abrir espaço para uma bancada ainda mais alinhada ao bolsonarismo seria um movimento que qualquer estrategista político, sentado em Brasília, certamente analisaria com atenção.
Foi aí que a partida começou a ganhar outra lógica.
Reinaldo Azambuja sempre apareceu como um dos nomes mais competitivos da disputa. Sua eleição passou a ser tratada, por muitos analistas, como altamente provável. Restava saber quem ocuparia a segunda cadeira. E era justamente nesse ponto que a candidatura de Nelsinho Trad se transformava numa variável incômoda. Experiente, municipalista, bem avaliado por prefeitos e vereadores, presente em praticamente todas as pesquisas entre os favoritos, o senador tinha condições de disputar votos em diferentes segmentos do eleitorado.
Mais do que isso.
Sua candidatura possuía uma característica rara. Poderia tornar-se o destino natural do chamado segundo voto. Parte do eleitor bolsonarista poderia votar em Reinaldo Azambuja e destinar o segundo voto a Nelsinho. Da mesma forma, uma parcela do eleitorado identificado com Lula, tendo Vander Loubet como principal referência petista ao Senado e Fábio Trad liderando a chapa ao Governo, poderia enxergar no senador do PSD uma alternativa politicamente aceitável para completar a votação. Não se tratava de uma aliança formal. Tratava-se da matemática silenciosa das urnas, aquela que costuma preocupar muito mais os estrategistas do que os discursos de palanque.
Foi justamente aí que o tabuleiro começou a lembrar uma partida de Kasparov.
O grande mestre nunca atacava a peça mais forte do adversário de imediato. Primeiro restringia seus movimentos. Depois isolava seus apoios. Em seguida obrigava o rival a fazer exatamente a jogada que lhe interessava. Quando finalmente capturava a peça, o público aplaudia o último lance sem perceber que a partida havia sido decidida muito antes.
Na política sul-mato-grossense, o recuo de Nelsinho parece ter seguido roteiro semelhante. Primeiro vieram os sinais de fortalecimento da chapa pura ao Senado. Depois o movimento de concentração dos apoios em torno de Reinaldo Azambuja e Capitão Contar. Em seguida o reposicionamento de lideranças municipais. Logo depois, a entrada de Fábio Trad na disputa pelo Governo, alterando completamente a leitura estratégica sobre os possíveis fluxos do segundo voto. Quando o senador anunciou, elegantemente, que atendia à orientação nacional do PSD e passava a ocupar a primeira suplência de Azambuja, o xeque-mate já estava dado.
E aqui aproveito para traduzir também o pensamento do ex-senador Marco Maciel, cuja extraordinária erudição ainda hoje desafia muita gente. Sua célebre “tertúlia flácida para bovino dormitar” nada mais é do que a velha e boa conversa mole para boi dormir. Não porque fossem falsas as explicações do sempre educado e gentleman Nelsinho Trad. Mas porque, como acontece nas grandes partidas de xadrez, elas revelavam apenas o último lance. A verdadeira partida havia sido decidida muito antes.
Talvez seja justamente por isso que tantos brasileiros ainda encontrem dificuldade para compreender quando ouvem ou leem a palavra establishment. Não se trata de uma conspiração permanente, nem de uma sala escura onde meia dúzia de pessoas decide o destino do país. Trata-se de algo muito mais sofisticado. É a capacidade de enxergar o tabuleiro inteiro quando quase todo mundo ainda está olhando apenas para a próxima jogada.
Kasparov costumava dizer que o bom enxadrista pensa cinco ou seis lances à frente. Na política, às vezes, há quem pense uma eleição inteira adiante. Se essa leitura estiver correta, o movimento que retirou Nelsinho Trad da disputa produziu aquilo que os enxadristas chamam de ataque duplo: abriu um corredor muito mais largo para Vander Loubet e, ao mesmo tempo, colocou sob fogo cerrado a candidatura do Capitão Contar, o nome mais identificado com o bolsonarismo na corrida ao Senado. Em linguagem militar, foi um único tiro de canhão para atingir dois alvos. Jair Bolsonaro, que serviu na Artilharia do Exército em Nioaque, certamente compreenderia essa metáfora. Garry Kasparov, provavelmente, sorriria diante dela. Diria que não houve canhão algum. Houve apenas o sacrifício calculado de uma peça para tornar inevitável o xeque-mate alguns lances adiante. E essa talvez seja a maior semelhança entre o xadrez e a política: quando a plateia percebe que uma peça desapareceu do tabuleiro, normalmente a partida já estava decidida muito antes. O xeque-mate apenas oficializa aquilo que os grandes jogadores haviam desenhado em silêncio.
