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quarta-feira, agosto 19, 2026

Uma sapatada na cara do eleitor!

Na temporada das declarações de voto, talvez seja prudente olhar não apenas para quem oferece apoio, mas também para a biografia de quem resolveu recebê-lo

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Valfrido Silva

Minha aversão às redes sociais era tão grande, antes destas eleições, que acabei, por uma questão de coerência, dando o melhor exemplo possível: mantive-me prudentemente distante delas. Era uma maneira de evitar tornar-me apenas mais um personagem do espantoso espetáculo de ridicularização que tomou conta do planeta, inviabiliza encontros familiares e sociais e consegue a proeza de abestalhar assustadoramente até quem, diante de tamanha demanda literária — inclusive nas próprias redes sociais —, não poderia se dar a esse prazer. Mas não. Nesse que talvez seja o espaço mais democrático e, ao mesmo tempo, mais perigoso já criado pela tecnologia, parece que deixou de ser suficiente simplesmente ser. É preciso aparecer. E, em determinados casos, ser ou pelo menos parecer idiota ajuda uma barbaridade.

Até que outro dia os algoritmos — ainda bem que eles também se encarregam dessa espécie de seleção natural — resolveram me impingir à oitiva de uma live. O personagem era um cidadão até respeitável, daqueles que costumam fundamentar seus comentários na Palavra — sim, nos Evangelhos do Cristo — e que, em princípio, mereceria alguns minutos de atenção deste velho insubordinado. Ouvi. Ele começou explicando por que não seria candidato nestas eleições e, até aí, o Laquicho ia bem. Depois anunciou que, embora estivesse fora da urna, tinha candidato a deputado e pretendia apresentá-lo aos seguidores.

Vieram então as preliminares indispensáveis a esse tipo de cerimônia. A política está uma vergonha. Precisamos mudar tudo o que está aí. O eleitor precisa escolher melhor. É necessário colocar gente honesta na vida pública. Precisamos renovar os costumes, recuperar valores, escolher pessoas comprometidas com o bem comum. Blá-blá-blá, blá-blá-blá e mais um pouquinho de blá-blá-blá até que, finalmente, chegou o momento do tchan! tchan! tchan!

O homem revelou o nome de seu apoiado.

Antes, naturalmente, preparou o terreno. Grande amigo. Pessoa honesta. Competente. Merecedor de confiança. Homem capaz de contribuir para a necessária transformação da política. Confesso que o apoiador era tão convincente que conseguiu me fisgar. Por alguns segundos fiquei pendurado no anzol, curioso para conhecer aquela reserva moral que aparentemente permanecera escondida de todos nós enquanto a política brasileira se deteriorava.

Foi só aparecer o nome que consegui me livrar do anzol.

Era ninguém mais, ninguém menos que um dos personagens mais conhecidos daquele furacão que devastou politicamente Dourados no início da década passada, quando a Operação Uragano atingiu Prefeitura, Câmara Municipal e praticamente uma geração inteira da política da terra de seu Marcelino. Com passagem pelo xilindró e protagonista involuntário de uma das cenas mais emblemáticas daquele período, o dito cujo volta 16 anos depois, como se nada tivesse acontecido, apostando nessa suposta amnésia do eleitor.

Não precisamos dar nome aos bois. Em Dourados, principalmente, quem viveu aquele período provavelmente já matou a charada. E quem não matou pode continuar lendo porque o personagem, neste caso, é menos importante que a extraordinária contradição oferecida pela situação.

Foi quando percebi que talvez tenhamos acabado de encontrar uma das grandes diversões reservadas para esta campanha eleitoral que mal começou: acompanhar não apenas os candidatos, mas seus apoiadores. E não apenas os apoiadores, mas seus apoiados.

Porque declaração de apoio virou uma espécie de certificado político expedido pelo próprio declarante. O sujeito entra na rede, apresenta suas credenciais morais, explica como enxerga o mundo, lamenta a decadência dos costumes, fala em Deus, família, honestidade, competência, renovação, responsabilidade pública e, depois de preparar cuidadosamente o altar, coloca sobre ele o candidato escolhido.

O problema é que candidato tem biografia. E biografia, ao contrário de santinho, não se imprime novamente a cada eleição.

É preciso fazer aqui uma ressalva que nossa velha régua exige. Operação policial, prisão, investigação, acusação, processo, cassação e condenação são coisas diferentes e não serão misturadas neste espaço apenas porque isso produziria um parágrafo mais contundente. Muito menos pretendemos condenar alguém perpetuamente por aquilo que aconteceu quinze ou vinte anos atrás. Cada personagem daquela história teve sua própria trajetória judicial e política e, se algum deles precisar ser individualizado nesta campanha, haverá de ser com documento sobre a mesa.

Mas também existe uma coisa chamada memória. E eleição talvez seja uma das ocasiões em que ela mais faça falta.

Não porque alguém esteja proibido de apoiar quem bem entender. Muito pelo contrário. Esse é precisamente o encanto da democracia. O cidadão que passou alguns minutos defendendo renovação política tem todo o direito de escolher seu candidato. O candidato tem todo o direito de receber seu apoio. E este escriba tem o mesmíssimo direito de olhar para os dois e perguntar se o discurso apresentado antes do anúncio combina com a biografia apresentada depois dele.

Aí começa a parte divertida.

Porque campanha eleitoral costuma produzir uma matemática curiosíssima. Quando determinado personagem declara apoio, a assessoria do candidato imediatamente contabiliza aquilo como ativo. Fulano declara apoio a Beltrano. Fotografias. Abraços. Vídeos. Redes sociais. Declarações de confiança. Às vezes o apoio rende mais propaganda que uma proposta de governo. Mas raramente alguém faz a conta inversa. Afinal, quanto custa um apoio? Calma, Jesus Cristinho. Não estou falando de dinheiro. Estou falando de passivo político.

Todo apoiador leva alguma coisa para o palanque. Pode levar votos, liderança comunitária, prestígio profissional, história partidária, capacidade de mobilização, influência religiosa, empresarial, sindical ou simplesmente um grupo de seguidores nas redes sociais. Mas leva também sua própria biografia. Da mesma maneira, todo apoiado entrega alguma coisa a quem anuncia publicamente o voto nele. O cidadão que recomenda determinado candidato aos seguidores está, goste ou não, emprestando parte de sua credibilidade àquela candidatura.

É uma operação de mão dupla. Talvez por isso seja interessante inaugurarmos nesta campanha uma seção imaginária chamada APOIADOS E APOIADORES.

Sem patrulha ideológica. Sem determinar quem pode apoiar quem. Sem polícia de amizade. Muito menos aquela bobagem de imaginar que alguém responde automaticamente por tudo que outra pessoa fez durante a vida.

A proposta é bem mais simples — e jornalisticamente muito mais divertida. Contextualizar. Fulano declarou apoio? Ótimo. Quem é Fulano? Beltrano recebeu o apoio? Perfeito. Quem é Beltrano?

O que o apoiador diz representar combina com aquilo que o apoiado representa? Há coerência entre o discurso e a escolha? Existe história entre eles? Houve rompimento anterior? O apoiador criticava ontem aquilo que hoje está abraçando? O candidato que festeja determinado apoio já disse exatamente o contrário sobre aquele personagem? E, principalmente, quando alguém sobe ao púlpito eletrônico das redes sociais para recomendar uma candidatura em nome de valores, moralidade, renovação ou qualquer outra virtude, a biografia do recomendado confirma o sermão? Aí, meu caro eleitor, começa a campanha que não cabe no santinho.

E as redes sociais, das quais este velho escriba fugiu durante tanto tempo, talvez acabem prestando involuntariamente um grande serviço. Porque antigamente muitas dessas alianças eram costuradas numa sala fechada, registradas numa fotografia e convenientemente esquecidas depois da eleição. Hoje o vivente liga a câmera, ajeita o celular, olha solenemente para os seguidores e deixa para a eternidade digital um documento dizendo quem apoia, por que apoia e quais virtudes afirma enxergar no apoiado.

Depois fica mais difícil alegar que tiraram do contexto. O contexto está filmado. E talvez os algoritmos tenham finalmente encontrado alguma utilidade para este insubordinado. Em vez de me oferecer dancinha, receita milagrosa, teoria conspiratória, coach ensinando a enriquecer antes do café da manhã e desconhecido contando intimidades que nem o próprio confessor gostaria de ouvir, podem continuar me trazendo declarações de apoio político. Prometo assistir. Não necessariamente para descobrir em quem votar. Mas para descobrir quem anda dizendo a quem devemos entregar nosso voto.

Daqui até 4 de outubro haverá muita gente respeitável emprestando nome, prestígio, amizade, reputação e até os Evangelhos para recomendar candidatos ao eleitor. É direito de todos eles. Como é direito do eleitor, antes de aceitar a recomendação, conferir não apenas quem apoia, mas principalmente quem está sendo apoiado. Porque apoio político pode ser abraço, fotografia, vídeo, discurso, recomendação, pedido de voto e até certificado público de confiança. Mas, dependendo da escolha, aquilo que começou como uma declaração solene de apoio pode terminar, depois da eleição, como…uma sapatada na cara do eleitor.

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