Valfrido Silva
Com a campanha finalmente nas ruas, começa agora uma segunda eleição, menos vistosa que aquela dos adesivos, bandeiras, jingles, caminhadas e candidatos sorridentes nas redes sociais: a batalha que é para conseguir chegar até a urna. E, olhando atentamente algumas das listas apresentadas pelos partidos em Mato Grosso do Sul, é difícil acreditar que todos aqueles nomes estarão efetivamente pedindo voto até 4 de outubro. Primeiro porque a Justiça Eleitoral ainda precisa examinar os pedidos de registro e é justamente nesta fase que eventuais esqueletos começam a sair dos armários. Depois porque há uma seleção talvez ainda mais impiedosa acontecendo fora dos tribunais: a da famosa estrutura, ou falta dela! Sem recursos para material, equipe e, em alguns casos, nem para a gasolina necessária para percorrer o Estado, há candidato descobrindo já na largada que aquela candidatura tão festejada na convenção partidária pode não passar de um nome na nominata.
Os primeiros a abandonar oficialmente a corrida já apareceram. Três candidatos a deputado estadual pelo Republicanos — Tatiane Sobreira Wehner, Luiz Gabriel da Silva Nogueira e Valdenir Machado — renunciaram antes mesmo da conclusão da análise de seus registros pelo TRE-MS. As desistências foram apresentadas como decorrentes de razões pessoais, homologadas pela Justiça Eleitoral e os três passaram a constar como inaptos no DivulgaCand. Importante: não foram impugnados nem declarados inelegíveis. Simplesmente desistiram.
Mas três desistências antes praticamente de a tinta secar no registro servem para chamar atenção para uma realidade conhecida de quem acompanha eleição por dentro. A fotografia tirada na convenção partidária raramente chega intacta ao dia da votação. Há o candidato que entra para completar chapa, aquele que acredita numa promessa de estrutura partidária, outro que calcula receber determinada quantia do fundo eleitoral e descobre depois que a conta feita pelo partido era diferente, além daquele que só percebe a dimensão territorial e financeira de uma campanha para deputado estadual ou federal quando começa efetivamente a percorrer Mato Grosso do Sul.
E neste ano o problema ganhou um ingrediente adicional. Uma disputa judicial sobre a divisão do Fundo Especial de Financiamento de Campanha levou o Tribunal Superior Eleitoral a suspender temporariamente o acesso dos partidos a 48% dos recursos enquanto não conclui o julgamento. O fundo inteiro soma R$ 4,961 bilhões em 2026, e os recursos só ficam à disposição das legendas depois da definição dos critérios internos de distribuição. Ou seja: o dinheiro existe, mas a torneira não necessariamente está aberta na velocidade imaginada por quem aceitou colocar o nome na urna.
Em Mato Grosso do Sul essa ansiedade começou muito antes da campanha. Ainda em julho, dirigentes partidários ouvidos pelo Campo Grande News diziam aguardar a definição dos repasses nacionais e faziam suas contas sobre quanto conseguiriam trazer para o Estado. O PL, por exemplo, projetava solicitar algo entre R$ 30 milhões e R$ 35 milhões ao diretório nacional. Só que uma coisa é o dinheiro chegar ao partido. Outra é chegar ao candidato.
A legislação entrega às direções partidárias considerável poder para estabelecer os critérios de distribuição do fundo, respeitadas as destinações legalmente protegidas. É justamente quando esses critérios saem do papel e começam a virar dinheiro de verdade que muito candidato descobre seu tamanho dentro da própria legenda. O sujeito que se imaginava peça importante da chapa pode descobrir que, na planilha do partido, é figurante.
E eleição custa dinheiro antes mesmo de ficar cara. Mato Grosso do Sul tem 79 municípios espalhados por mais de 357 mil quilômetros quadrados. Um candidato proporcional que pretenda fazer campanha minimamente estadual precisa viajar, abastecer carro, produzir material, manter comunicação, montar equipe e organizar agenda. Mesmo numa campanha franciscana, o tanque não aceita santinho como pagamento. É aí que começa uma modalidade de seleção natural eleitoral que não aparece nas convenções.
Sem estrutura partidária e sem dinheiro, há candidato que reduz a campanha à própria cidade; outro passa a trabalhar para uma candidatura majoritária na esperança de receber apoio; alguns simplesmente desaparecem das ruas; e outros acabam desistindo formalmente. É nesse ambiente que começam também os relatos de bastidores sobre candidatos dispostos a negociar apoios e estruturas políticas para continuar na disputa.
A outra peneira começa agora nos processos de registro. O prazo para apresentação das candidaturas terminou no sábado, dia 15, e o TRE-MS entra justamente na etapa de análise desses pedidos. É preciso novamente separar as coisas. Uma candidatura pode sofrer pedido de impugnação e, ainda assim, terminar deferida. Pode ter o registro indeferido e recorrer. Pode renunciar, como fizeram os três candidatos do Republicanos. E pode atravessar toda a análise sem qualquer problema. Chamar todo mundo que aparece como “inapto” no sistema de ficha-suja seria tão errado quanto imaginar que todo pedido de impugnação resulta automaticamente na retirada do candidato da eleição.
Mas é justamente aí que começam a aparecer as capivaras. Condenações, contas rejeitadas, ausência de quitação eleitoral, problemas de filiação, documentação, desincompatibilização e outras situações capazes de provocar questionamentos estarão sob a lupa da Justiça Eleitoral. Algumas serão simples pendências corrigíveis. Outras poderão gerar ações de impugnação. E somente depois de toda essa burocracia se saberá quem efetivamente terá o registro deferido ou indeferido.
Portanto, aquela longa relação de candidatos apresentada ao eleitor neste primeiro fim de semana de campanha deve ser lida por enquanto como fotografia da largada, não necessariamente como fotografia da chegada. Até 4 de outubro haverá desistências, substituições e candidaturas que poderão enfrentar problemas na Justiça. Haverá também uma disputa silenciosa dentro dos próprios partidos pelo combustível que mantém qualquer campanha funcionando: dinheiro, estrutura e prioridade política.
Talvez por isso os próximos dias sejam particularmente interessantes. Até agora perguntávamos quem seria candidato. A partir de agora começam duas perguntas muito melhores: quem a Justiça Eleitoral deixará chegar à urna — e quem terá dinheiro para chegar até ela?
