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quarta-feira, setembro 2, 2026

Dourados pode eleger menos deputados estaduais

Segundo maior colégio eleitoral de Mato Grosso do Sul entra na disputa com quatro deputados ligados à cidade, novos nomes querendo espaço e um problema antigo: antes de enfrentar o resto do Estado, cada candidato precisa sobreviver à própria chapa

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Valfrido Silva

Depois do panorama geral apresentado sobre os medalhões, puxadores, escadinhas e o inevitável “caminhão de japonês” que se aproxima das 24 cadeiras da Assembleia Legislativa, chegou a hora de olhar para o nosso próprio quintal. Dourados é o segundo maior colégio eleitoral de Mato Grosso do Sul e entra na campanha com quatro deputados estaduais diretamente ligados à cidade: Zé Teixeira, agora no PL; Renato Câmara, no Republicanos; Lia Nogueira, no PSDB; e Gleice Jane, no PT. Até maio eram cinco, mas Neno Razuk perdeu a cadeira depois da retotalização dos votos de 2022, assunto que já esmiuçamos por aqui até a última vírgula. Em tese, portanto, uma cidade desse tamanho deveria começar a eleição pensando em preservar suas quatro cadeiras e, quem sabe, buscar uma quinta. O problema é que eleição proporcional não respeita fronteira municipal, bairrismo nem certidão de nascimento. E Dourados colocou tanta gente na pista que pode descobrir, outra vez, que abundância de candidato nem sempre significa abundância de deputado.

Comecemos pelo decano. Seo Zé Teixeira carrega décadas de política, uma base construída principalmente no agronegócio e uma capilaridade que pesquisa espontânea nem sempre consegue medir. Só que mudou-se para um PL abarrotado de gente competitiva. No levantamento mais recente do Ranking Brasil, realizado entre 23 e 27 de agosto, Zé aparece com 0,40%, enquanto uma nova concorrente douradense já marca 0,90%: a vice-prefeita Gianni Nogueira. A diferença numérica não autoriza ninguém a decretar ultrapassagem, especialmente numa pesquisa com margem de erro superior aos percentuais individuais, mas registra uma fotografia politicamente interessante. Gianni entrou na corrida carregada — ou carregando — pelo marido, o deputado federal Rodolfo Nogueira, com quem forma uma dobradinha familiar, e reivindica para si a condição de mais lídima representante do bolsonarismo-raiz em Dourados. Para Zé Teixeira, portanto, a ameaça não vem apenas dos medalhões do próprio PL espalhados pelo Estado. Agora existe concorrência dentro de casa.

Renato Câmara, que antes de transferir o domicílio eleitoral para Dourados foi duas vezes prefeito de Ivinhema, onde o pai, Nelito, também foi prefeito e deputado, vive situação diferente. Está no Republicanos, possui três mandatos e uma rede eleitoral que ultrapassa Dourados e alcança municípios da região, característica importante numa eleição proporcional. Sua lembrança na espontânea é pequena, mas seria temerário sepultar um deputado que já demonstrou saber onde procurar votos. Lia Nogueira também terá de suar. Aparece com 0,40% e disputa espaço numa Federação PSDB-Cidadania onde estão Caravina, Paulo Duarte, Flávio Cabo Almi, Eduardo Rocha, Silvio Pitú e outros nomes competitivos. Lia aposta na enorme exposição conquistada durante o mandato e numa presença praticamente permanente nas pautas políticas e policiais nesses quatro anos. Visibilidade ajuda muito a pedir voto. Só não altera a matemática da chapa.

Na esquerda douradense a briga talvez seja ainda mais acirrada. Gleice Jane tenta a reeleição pelo PT, mas ganhou dentro de casa a companhia de Tiago “amigo do Lula” Botelho. Foi com essa grife que ele apareceu em sua primeira grande aventura eleitoral, na disputa pelo Senado, antes de perder também a eleição para prefeito de Dourados e passar pela Superintendência do Patrimônio da União em Mato Grosso do Sul. Agora quer a Assembleia e a pesquisa mais recente já o coloca com 0,80%, atrás de Zeca do PT, com 1%, mas numericamente à frente de Gleice, que aparece com 0,65%, e de Pedro Kemp, com 0,40%. Outra vez, não é resultado para proclamar vencedor e derrotado, mas suficiente para mostrar que existe disputa. Tiago e Gleice não brigam apenas pelo eleitor douradense: precisam sobreviver à mesma Federação Brasil da Esperança, onde também estão Zeca, Luiza Ribeiro e outros companheiros. E companheiro, como sabemos, continua sendo companheiro até começar a contagem dos votos.

A fila douradense ainda tem Bárbara Resende, candidata do União Brasil, estreante que começa inevitavelmente amparada pelo sobrenome e pela estrutura política do pai, o deputado federal Geraldo Resende. Por enquanto, a pesquisa lhe reserva modestos 0,05%, sinal de que prestígio paterno não se transfere automaticamente por PIX eleitoral. E ela caiu numa União Progressista onde está justamente Gerson Claro, líder do levantamento com 2,30%, além de Jamilson Name, com 1,55%, e outros concorrentes conhecidos. Há também o vereador Marcelo Mourão, igualmente espremido no congestionamento do PL, e o ex-vereador Aurélio Bonatto, no Avante. Bonatto construiu originalmente seu projeto muito próximo de Neno Razuk, de quem foi chefe de gabinete na Assembleia, imaginando uma composição em que Neno buscaria a Câmara Federal. Sem Neno naquele desenho, acabou, para usar expressão que dificilmente será encontrada nos manuais de ciência política, dependurado na brocha e obrigado a construir a própria escada.

É aí que aparece o verdadeiro perigo para os douradenses. Não é um candidato específico, mas a fila que cada um precisa enfrentar dentro de seu partido ou federação. Gerson Claro aparece com 2,30%; Paulo Corrêa, com 2%; Caravina, com 1,70%; Márcio Fernandes, com 1,60%; Coronel David, Lucas de Lima, Odilon Ribeiro, Jamilson Name e Marco Santullo estão na casa de 1,55%, enquanto Paulo Duarte, Flávio Cabo Almi, Eduardo Rocha, Silvio Pitú e Pedrossian Neto também aparecem no pelotão competitivo. São adversários que nem precisam buscar votos em Dourados para ameaçar a representação douradense: basta chegarem à frente dos nossos candidatos dentro das respectivas chapas. E, numa espontânea ainda carregada de indecisos, esses números servem muito mais para identificar quem já está na memória do eleitor do que para distribuir antecipadamente as 24 cadeiras.

Por isso, mais interessante do que perguntar hoje quantos deputados Dourados elegerá é acompanhar quem sobreviverá ao fogo amigo. Gianni precisa enfrentar a tropa pesada do PL e ainda divide território com o decano Zé Teixeira, que, por sua vez, precisa provar que a velha capilaridade continua funcionando. Lia enfrenta uma federação congestionada. Renato precisa transformar sua base regional em votos. Gleice e Tiago disputam espaço, eleitor e Lula dentro da mesma federação. Bárbara precisa demonstrar que Resende é mais do que sobrenome. Mourão procura uma brecha no engarrafamento liberal, enquanto Bonatto tenta descobrir onde apoiar a escada depois que mudaram a parede.

Dourados tem eleitor para fazer uma bancada respeitável. Resta saber se não tem candidatos demais disputando os mesmos eleitores para conseguir fazê-la.

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