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segunda-feira, agosto 31, 2026

A natureza humana em tempos de eleições

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Anita Tetslaff*

Se o século XVI nos ensinou com Maquiavel que a política é a arte do possível e não do dever-ser, o século XIX, com Dostoiévski, lembrou-nos de que o ser humano é um campo de batalha entre o bem e o mal. Neste ano eleitoral, a campanha política transformou-se em um palco onde as estratégias dos “fins justificam os meios” chocam com a angústia de uma sociedade que exige um mínimo de verdade. Ao observarmos o atual cenário de ataques mútuos, disseminação de informações falsas e a ausência de propostas concretas, percebemos que a disputa de 2026 não é apenas entre candidatos, mas entre duas visões antagônicas sobre a natureza humana.

O cenário político atual parece ter sido escrito sob a tutela de Nicolau Maquiavel. Em “O Príncipe”, ele rompeu com a tradição filosófica ao afirmar que o governante deve estar disposto a agir contra a ética para manter a estabilidade e o poder. “Os homens obedecem melhor ao medo do que ao amor”, sentenciou Maquiavel, e essa máxima ressoa nas estratégias modernas de comunicação.

Ao analisar as redes sociais e os debates eleitorais de 2026, vemos a aplicação prática do maquiavelismo em que candidatos utilizam o medo e a insegurança do eleitor para desestabilizar o adversário. O foco em apontar os erros do oponente, muitas vezes exagerados ou falsos, é uma tática clássica de “dividir para conquistar”. A disseminação de fake news atua como a “nova arte da guerra”, não para conquistar territórios, mas para conquistar a opinião pública por meio da desorientação. O cinismo e o sarcasmo nas falas não são meros acasos; são instrumentos para desumanizar o rival e fortalecer a própria imagem, mesmo que à custa da verdade.

Em contrapartida, a lente de Fiódor Dostoiévski revela as profundezas desse drama. Para o autor de “Crime e Castigo”, o ser humano não é definido apenas por suas ações, mas pelo sofrimento e pela reflexão que sucedem a essas ações. “O homem não é só aquilo que faz, mas o que sofre depois que faz”. Esta frase é especialmente pertinente ao observarmos a crise de credibilidade política.

Dostoiévski nos alerta que, mesmo que o candidato vença a eleição usando artimanhas e mentiras, ele não conseguirá silenciar a própria consciência. Mais ainda, a sociedade, que consome diariamente esse bombardeio de informações distorcidas, carrega o peso dessa degradação moral. O “verdadeiro julgamento” de que fala o filósofo russo ocorre nas urnas, mas também no íntimo de cada eleitor que, ao final do processo, precisa conviver com a escolha feita.

Estudos da Universidade de São Paulo (USP) indicam que a exposição constante a fake news gera um fenômeno de “fadiga moral” no eleitorado, onde a apatia e o descrédito institucional crescem na mesma proporção das mentiras disseminadas. Isso corrobora ao pensamento de Dostoiévski de que a mentira coletiva corrói a alma social, tornando os cidadãos escravos de suas próprias desconfianças.

A interseção entre esses dois pensadores oferece um diagnóstico preciso para as eleições de 2026. Se Maquiavel explica o “como” se conquista o poder, por meio da astúcia, do medo e, por vezes, da falsidade, Dostoiévski explica o “preço” que se paga por isso, a dissolução da confiança e a erosão da ética.

Como bem observou a cientista política Hannah Arendt, a banalidade do mal está em não pensar sobre as consequências dos atos. Na política atual, a banalização da mentira tornou-se uma ferramenta corriqueira. Candidatos tratam a omissão de dados e a distorção de fatos como “estratégia de marketing” ou “narrativa”. No entanto, o eleitor, munido de smartphones e acesso à informação, mesmo que contaminada, parece estar dividido entre a aceitação cínica do jogo maquiavélico e a busca desesperada por um líder que represente os valores da consciência e da transparência.

Maquiavel teria aplaudido a sagacidade dos estrategistas de campanha que sabem usar o medo e a desinformação a seu favor. Ele diria que o príncipe moderno deve ser “raposa e leão” para enganar e intimidar. Dostoiévski, no entanto, sentaria no canto do palco e observaria, com o olhar sombrio de quem sabe que a verdadeira tragédia não está no erro do governante, mas no fardo da consciência do governado.

As eleições de 2026, portanto, não são apenas sobre quem irá governar, mas sobre que tipo de sociedade queremos ser. Se escolhermos o caminho do cinismo e da mentira, venceremos o jogo maquiavélico, mas perderemos a própria consciência. Se exigirmos verdade e propostas, talvez abracemos o sofrimento da reflexão proposto por Dostoiévski, mas estaremos, finalmente, no caminho da redenção política.

Colocar a mão na consciência, como sugere o ditado popular, nunca foi tão urgente. Precisamos lembrar que, enquanto Maquiavel tem razão sobre como o homem conquista o poder, Dostoiévski tem a razão final sobre o preço que pagamos por isso.

(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.

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