Valfrido Silva
Nesses tempos de acendimento de piras da Semana da Pátria, Pátria amada afora, numa pátria já tão castigada até no uso de seus próprios símbolos, como um tempo recente em que vestir verde e amarelo, carregar a bandeira nacional ou simplesmente enrolar-se nela passou a funcionar quase como declaração de voto, tamanha a apropriação promovida pelo bolsonarismo, talvez seja conveniente lembrar que patriotismo também pode começar por coisas bem menores. Uma delas seria tratar com um pouco mais de carinho a língua portuguesa. Não precisa beijar o Aurélio, dormir abraçado ao Houaiss nem declamar Camões diante do espelho. Bastaria, por exemplo, evitar o “acendimento da chama” quando o velho e bom verbo acender está ali, desempregado, pedindo uma oportunidade. Mas devo reconhecer: perto de uma preciosidade que ouvi recentemente, o acendimento quase merece ser promovido a patrimônio imaterial da humanidade.
A cena aconteceu em Dourados e o local do suposto crime linguístico não poderia ter sido mais adequado: uma biblioteca municipal. Reabria-se aquele templo destinado justamente aos livros, às letras e às palavras quando o cerimonial convocou solenemente as “membras” do Executivo para compor o palco. Membras. Assim mesmo. Confesso que naquele instante imaginei os dicionários tentando se esconder atrás das enciclopédias, Machado de Assis pedindo asilo na seção de literatura estrangeira e Camões, se estivesse por ali, considerando seriamente furar o outro olho. Só havia um pequeno problema: a ignorância era minha. Fui aos alfarrábios e descobri que a danada da membra existe, está dicionarizada e pode circular tranquilamente pelas dependências de uma biblioteca sem que a Polícia Gramatical lhe peça documentos. Estranha aos ouvidos de muita gente? Sim. Pouco usada? Também. Mas inocente perante o Código Penal do Vernáculo.
Foi aí que a membra ficou muito mais interessante do que quando parecia simplesmente errada. A língua portuguesa é um organismo vivo e certas palavras, construções e maneiras de falar parecem ganhar impulso conforme muda a própria sociedade. Algumas são neologismos; outras, modismos; existem ainda aquelas que passam décadas cochilando no fundo do dicionário até alguém sacudir a poeira e devolvê-las à passarela. Presidenta é um belo exemplo. Dilma Rousseff não inventou a palavra, como muita gente ainda acredita. Ela já existia muito antes de a primeira mulher chegar à Presidência da República. Dilma apenas fez questão de usá-la e lhe deu uma visibilidade provavelmente jamais alcançada. A palavra acabou incorporada à própria disputa política e o debate gramatical, como quase tudo neste país, rapidamente ganhou torcida organizada.
Na esteira dela veio também a liturgia do “todos e todas”, incorporada com entusiasmo ao discurso político como maneira de explicitar a presença feminina que o velho masculino genérico dizia representar sozinho. Mais adiante chegaram os “todes”, tentando incluir também quem não se reconhece nessa divisão entre todos e todas. Não interessa ser contra nem a favor. Cada época fabrica, recupera ou populariza seu vocabulário, e o tempo é um editor muito mais impiedoso que este velho insubordinado do jornalismo: algumas palavras ficam, outras desaparecem, outras retornam décadas depois com roupa nova. Talvez membra esteja apenas vivendo uma dessas temporadas. Se vai criar raízes ou voltar tranquilamente para seu cantinho no dicionário, deixemos que os viventes resolvam.
Há, entretanto, um modismo linguístico que parece ter adquirido imunidade à passagem do tempo: o gerundismo do telemarketing. O gerúndio, coitado, não tem culpa. “Estou escrevendo esta crônica” é português perfeitamente saudável. A doença começa quando alguém avisa que “vai estar verificando”, promete que “vai estar encaminhando” e pede que o cidadão “possa estar aguardando”. Criou-se uma extraordinária dimensão temporal em que ninguém verifica, encaminha ou resolve coisa alguma: todos apenas vão estar fazendo. O insubordinado até poderia estar pensando em escrever sobre o assunto, mas acabou ficando receoso de alguém poder estar achando que ele está se achando. E, enquanto isso, o leitor pode estar ficando preocupado de este parágrafo não estar conseguindo terminar.
Conseguiu.
Também não se trata de exigir que prefeito, vereador, secretário, mestre de cerimônias ou jornalista fale como se tivesse acabado de sair de uma sessão da Academia Brasileira de Letras. Até porque, se instalássemos um discípulo de mestre Aurélio dentro de uma redação, talvez os primeiros presos fôssemos nós. Jornalista escreve depressa, erra, tropeça, repete palavra, engole vírgula e, quando acredita ter produzido uma obra-prima, aparece sempre um leitor misericordioso para mostrar que havia um “há” onde deveria existir um “a”. A diferença está no cuidado. Principalmente quando a palavra não escapa numa conversa de boteco, mas sai de um microfone, preparada por um cerimonial, durante um ato oficial e — os deuses da ironia capricharam — dentro de uma biblioteca.
Talvez seja pedir demais nestes tempos em que até a bandeira brasileira precisou ser resgatada da condição de propriedade particular de um agrupamento político. Mas, já que estamos celebrando a Semana da Pátria com piras, bandeiras, hinos e chamas cívicas, poderíamos acrescentar discretamente outro patrimônio à lista dos que merecem algum cuidado: a língua da própria Pátria Amada. Não para congelá-la, porque língua congelada é língua morta. Muito menos para transformar o dicionário em cassetete. Apenas para tentar distinguir o que é evolução, o que é neologismo, o que é modismo, o que é palavra antiga vestida de novidade e o que é aquela velha tentação burocrática de usar cinco palavras quando uma resolveria. A chama pode simplesmente ser acesa. O documento pode ser enviado. A providência pode ser tomada. E a mulher que integra uma mesa pode ser membro ou membra dela — esta última, aprendi a tempo, com todas as bênçãos do dicionário.
Quanto às “membras”, retiro solenemente qualquer acusação.
Elas podem estar ficando tranquilas: ninguém vai estar procedendo à cassação de seus direitos linguísticos. 😂
