Valfrido Silva
O terremoto político provocado pelas revelações de Daniel Vorcaro em Brasília nesta terça-feira tem uma propriedade curiosa: quanto mais se remexe o passado dos personagens que hoje disputam o poder, mais gente conhecida aparece na fotografia. Alexandre de Moraes acabou no epicentro do abalo, Flávio Bolsonaro foi alcançado de raspão pelo mesmo tremor e, quando baixamos os olhos do Planalto Central para o MS e ligamos o horário eleitoral gratuito, descobrimos que por aqui também não faltam candidatos obrigados a conviver com velhas acusações, investigações, prisões e uma palavrinha de seis letras que a política brasileira transformou talvez na mais repetida de todas: ladrão.
Comecemos pelo personagem que mais convive com ela. Lula da Silva. Ladrão. Por mais desrespeitoso que possa parecer com o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não se trata aqui de uma agressão gratuita ao candidato à reeleição. Numa peleja que talvez seja decidida no photo finish, o popular olho mágico das corridas de cavalo, quem sabe não fosse o caso de Lula ir novamente ao cartório para acrescentar o “Ladrão” ao nome. O eleitor, claro, vota no número, não no nome, mas depois de tantos anos ouvindo a palavra associada ao petista, vai saber o peso que ela terá na solidão da urna. Ainda mais quando aparece colada ao 13, número que para a parcela mais supersticiosa — e principalmente mais antipetista — do eleitorado já carrega sua própria carga cabalística.
Faço toda essa peroração para entrar num assunto que estou devendo aos caros leitores e caríssimas e perfumadas leitoras, mas, nesta ocasião, muito especialmente aos eleitores e eleitoras que irão às urnas no próximo dia 4 de outubro — e não venham me acusar de modismo linguístico, porque essa discussão nós já tivemos aqui. Relutei muito em assistir ao horário eleitoral gratuito depois que as redes sociais nos impuseram, antecipadamente, o seu horário eleitoral compulsório. Na televisão, pelo menos, ainda há algum critério: os candidatos capricham no blush, alguns parecem reforçar até as borrifadas de Chanel, como se perfume atravessasse a tela e rendesse votos. Mesmo assim escapam pérolas como as “crínicas” prometidas por Jefferson Bezerra e candidatos ao Legislativo anunciando solenemente seus “planos de governo”, coisa que, em princípio, caberia a quem pretende governar, não a quem está pedindo votos para legislar. Mas descontemos aí a cobiça que as famosas e famigeradas emendas parlamentares também despertam nos candidatos.
Sorte ou azar, numa das primeiras sentadas diante da televisão dei de cara com André Puccinelli. Duas vezes governador, deputado estadual e federal, agora tentando voltar à política justamente pela Assembleia Legislativa, onde tudo começou. André foi, registre-se, um bom governador do MS — e reconhecer isso não obriga ninguém a rasgar as outras páginas de sua biografia. Num tempo em que dizia ter decidido abandonar a política para cuidar dos netos, cunhou até uma expressão para a aposentadoria: seria apenas “vovorista”. Foi também o próprio André quem, cansado dos ataques, reclamou que já não aguentava mais ser chamado de ladrão pelas ruas. Depois veio a Operação Lama Asfáltica e o ex-governador acabou preso, transformando-se no personagem político mais ilustre alcançado por uma investigação que apurou um gigantesco esquema de corrupção em contratos públicos.
Com ele apareceu também Edson Giroto, seu antigo secretário de Obras, igualmente alcançado e preso pela Lama Asfáltica e agora novamente na telinha pedindo votos, este, para deputado federal. E aqui não é necessário condenar ninguém outra vez nem absolver ninguém por conta própria. Se estão candidatos e a Justiça Eleitoral permite que peçam votos, cabe ao eleitor decidir o que fazer com o currículo que cada um carrega. O interessante é outra coisa: André e Giroto, personagens de uma mesma história que durante anos frequentou páginas policiais e tribunais, reaparecem agora no ambiente asséptico da propaganda eleitoral, penteados, maquiados (Girotto deu até aquela escurecida básica nos cabelos brancos) e pedindo uma nova oportunidade.
Mais adiante aparece Reinaldo Azambuja, também duas vezes governador, depois de ser prefeito de Maracaju, seu curral eleitoral, deputado estadual e federal e agora candidato ao Senado no palanque de Flávio Bolsonaro. Aqui não precisamos sequer recorrer à memória deste velho insubordinado do jornalismo. As delações da JBS colocaram o MS no Jornal Nacional e no noticiário brasileiro. Wesley Batista afirmou que a empresa pagou R$ 70 milhões em propina acertada com Azambuja entre 2015 e 2016 em troca de benefícios fiscais. A acusação descrevia dinheiro em espécie e notas fiscais de operações de gado que, segundo os delatores, não existiram. Reinaldo sempre negou as acusações, classificando-as como falsas, e sustentou a legalidade das doações eleitorais e dos incentivos fiscais concedidos em seu governo. Acusação não é condenação, mas também não deixa de ter existido porque antigos adversários decidiram mudar de lado ou dividir o mesmo palanque.
Talvez seja justamente aí que Brasília e o MS se encontrem. O escândalo Vorcaro mostrou de maneira quase didática como funciona a memória na política: basta abrir um celular, levantar o sigilo de um relatório ou puxar uma fotografia antiga para relações que pareciam enterradas voltarem ao presente com extraordinária vitalidade. Alexandre de Moraes, acostumado a ocupar o centro de algumas das mais explosivas investigações dos últimos anos, passou a enfrentar perguntas sobre sua própria relação com Vorcaro. “Flávio Bolsonaro imediatamente partiu para cima do ministro, contaminado por aquela providencial amnésia política que o fez esquecer que o mesmo banqueiro também aparece no financiamento do filme Dark Horse, sobre seu pai.
E seria confortável demais terminar esta crônica deixando a impressão de que a memória só alcança um lado. A própria delação da JBS descreveu um esquema que, segundo os irmãos Batista, teria atravessado administrações de Zeca do PT, André Puccinelli e Reinaldo Azambuja. Se o companheiro Zeca resolver encaminhar este post ao amigo Lula, como costuma fazer quando escrevo alguma coisa que possa interessar ao supremo mandatário — expressão, aliás, que poderia ter entrado ontem na nossa conversa sobre modismos pátrios —, talvez seja prudente avisar ao presidente que capivara política não costuma respeitar ideologia.
No fundo, talvez seja esse o grande problema de uma eleição disputada depois de tantos escândalos, operações, delações, prisões, absolvições, condenações anuladas, alianças desfeitas e posteriormente refeitas. Quando todo mundo resolve apontar o dedo para todo mundo, fica difícil encontrar mão inteiramente disponível para atirar a primeira pedra.
Por isso, depois de Vorcaro, Moraes, Flávio, Lula, André, Giroto, Reinaldo, Zeca & Cia., talvez o melhor analista político para encerrar esta conversa não esteja em Brasília nem em Campo Grande. Morreu em 2005 e atendia pelo nome de Bezerra da Silva.
“Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão…”
