Antes de se tornar um dos principais responsáveis pela política brasileira de enfrentamento ao HIV e à Aids, dirigir programas da Organização Mundial da Saúde e ajudar a garantir tratamento gratuito a milhares de pessoas, Paulo Roberto Teixeira foi um menino criado em Dourados, aluno da Escola Estadual Presidente Vargas e integrante de uma família profundamente ligada à história da cidade. O médico sanitarista morreu neste sábado (19), aos 77 anos, em São Paulo, deixando um legado que atravessou fronteiras e transformou o Brasil em referência internacional no combate a uma das epidemias mais devastadoras e estigmatizadas do século passado.
Paulo Roberto nasceu em Álvares Machado, no interior de São Paulo, mas veio ainda menino com a família para Dourados. Era filho dos comerciantes Paulo Almeida Teixeira e Maria do Carmo Teixeira, que mantiveram durante muitos anos uma loja de aviamentos na Avenida Marcelino Pires, entre as ruas João Cândido Câmara e Nelson de Araújo. Cresceu ao lado dos irmãos José Roberto, Plínio Gastão e José Paulo Teixeira e, embora tenha construído a maior parte da vida profissional em São Paulo, jamais deixou de pertencer à memória douradense. O vínculo foi reconhecido oficialmente pela Câmara Municipal, que lhe concedeu o título de Cidadão Douradense.
Cada um dos irmãos também deixou marcas na cidade e na região. José Roberto morreu ainda jovem em um acidente nas proximidades do atual Parque Antenor Martins, tragédia que comoveu Dourados e levou a Câmara a dar seu nome à avenida que hoje serve de acesso ao Clube Indaiá. José Paulo, advogado, estabeleceu-se inicialmente em Dourados, onde foi secretário municipal de Fazenda na administração do prefeito Luiz Antônio Álvares Gonçalves. Mais tarde, transferiu-se para Bonito, município em que também ocupou a Secretaria de Fazenda, atuou como empresário e esteve entre os idealizadores do Festival de Inverno.
Paulo Roberto seguiu outro caminho. Formou-se em Medicina pela Universidade Estadual Paulista, em Botucatu, especializou-se em dermatologia na Escola Paulista de Medicina e em saúde pública pela Universidade de São Paulo. Sua formação profissional foi acompanhada por intensa participação política. Ainda estudante, militou no movimento estudantil e na Ação Popular, enfrentando processos e prisões durante a ditadura militar, em 1968, 1969 e 1974. Posteriormente, participou das articulações que ajudaram a formar o Partido dos Trabalhadores.
Quando os primeiros casos de Aids começaram a surgir no Brasil, no início dos anos 1980, pouco se sabia sobre a doença. O desconhecimento vinha acompanhado de medo, preconceito e abandono, sobretudo contra homossexuais e outros grupos atingidos pela epidemia. Paulo Roberto dirigia então o programa de hanseníase da Secretaria de Saúde de São Paulo e conhecia de perto os efeitos provocados por uma doença cercada de estigma.
Em 1983, depois da mobilização de ativistas e profissionais de saúde, foi chamado para coordenar a resposta do governo paulista. Liderou a criação do primeiro programa público de prevenção e controle da Aids no Brasil e um dos primeiros da América Latina. Em vez de tratar os pacientes como culpados ou ameaças à sociedade, ajudou a construir uma política baseada em ciência, assistência, prevenção, direitos humanos e diálogo com as populações diretamente afetadas.
A experiência paulista rapidamente se tornou referência. Em 1985, já inspirava iniciativas em outros 12 estados. A criação do Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids, em 1988, reuniu atendimento, formação de profissionais, vigilância, prevenção e pesquisa. No ano seguinte, São Paulo tornou-se o primeiro estado brasileiro a oferecer AZT na rede pública, antecipando o princípio que mais tarde definiria a política nacional: tratamento não como privilégio de quem pudesse pagar, mas como direito de todos.
Em 2000, Paulo Roberto assumiu a coordenação do Programa Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde. Diante dos preços cobrados pelos laboratórios, passou a defender a redução dos valores e o licenciamento compulsório de medicamentos — a chamada quebra de patentes — sempre que necessário para preservar o acesso universal. A posição brasileira ajudou a fortalecer a compreensão internacional de que as regras de propriedade intelectual não poderiam se sobrepor ao direito à saúde.
A atuação levou o médico criado em Dourados à Organização Mundial da Saúde. Em 2003, ele assumiu a direção do Departamento de HIV/Aids da OMS e participou da estratégia conhecida como “3 by 5”, que estabeleceu a meta de oferecer tratamento a 3 milhões de pessoas vivendo com HIV nos países pobres e em desenvolvimento até o fim de 2005. Também trabalhou como consultor da Organização Pan-Americana da Saúde e do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids.
Ao lamentar sua morte, o Ministério da Saúde classificou Paulo Roberto como um dos nomes fundamentais da resposta brasileira à epidemia e destacou sua contribuição para o fortalecimento do SUS, o acesso aos medicamentos antirretrovirais e a construção de políticas baseadas na ciência, no respeito e na garantia de direitos. A Fiocruz definiu-o como um humanista incansável e um dos arquitetos da reação brasileira ao HIV e à Aids.
O corpo foi velado neste domingo (20), no Cemitério do Araçá, em São Paulo. A causa da morte não foi divulgada.
Dourados já havia eternizado numa avenida o nome de José Roberto Teixeira. Talvez ainda não tivesse percebido inteiramente que outro menino daquela mesma família abriu uma avenida muito maior, por onde passaram ciência, dignidade, medicamentos e milhões de pessoas antes condenadas ao abandono. Paulo Roberto Teixeira não nasceu em Dourados, mas foi aqui que começou sua caminhada. E poucas caminhadas iniciadas nesta cidade chegaram tão longe — ou ajudaram tanta gente a continuar viva.
contrapontoMS
