Valfrido Silva
A decolagem do Capitão Contar nas pesquisas pode significar uma pane geral no painel de controle do jatinho de Vander Loubet. O candidato petista ainda não entrou em queda livre, mas os sinais luminosos da cabine já recomendam apertar os cintos, revisar os instrumentos e, principalmente, olhar para o céu à espera do socorro prometido pelo Palácio do Planalto. A esperança é de que, até a próxima semana, um KC-390 como aqueles que transportaram tropas e munições para a FAB pouse no Aeroporto Internacional Ueze Elias Zahran carregado com aquilo de que Vander mais precisa nesta reta final: “santinhos” dele com Lula, para a batalha final pelo segundo voto ao Senado.
Os números mais recentes ajudam a entender a turbulência. Na rodada do IPR/Correio do Estado, Reinaldo Azambuja aparece com 23,98% na soma dos dois votos para o Senado, enquanto Contar saltou de 17,09% para 20,34% e já ameaça voar colado ao companheiro de chapa. Bem abaixo, Vander tem 8,99%, tecnicamente empatado com Soraya Thronicke, que registra 8,61%. Traduzindo o painel: os dois candidatos do PL ocupam, por enquanto, as poltronas destinadas a Brasília, e o petista precisa mais do que dobrar sua altitude para entrar na disputa por uma delas.
Reinaldo Azambuja continua voando em altitude de cruzeiro, protegido por uma estrutura partidária poderosa, pelo apoio de prefeitos e por uma rede municipalista construída ao longo de dois mandatos de governador. Contar, porém, deixou de ser apenas o passageiro bolsonarista acomodado na poltrona ao lado. Ganhou velocidade, subiu alguns milhares de pés e começa a disputar com Azambuja não somente uma das vagas, mas também a primazia dentro da própria chapa. É o pau que bate em Chico começando a ameaçar Francisco: se o voto raiz do bolsonarismo permanecer com o capitão e uma parte do agronegócio também embarcar em sua candidatura, poderá faltar oxigênio para quem imaginava atravessar a campanha na primeira classe.
O problema de Vander não é apenas estar atrás dos dois candidatos do PL. É precisar encontrar, em poucos dias, um caminho até o eleitor que já escolheu seu primeiro senador e ainda não decidiu o segundo. Como cada eleitor tem direito a dois votos, a campanha não precisa necessariamente arrancar votos de Azambuja ou Contar; precisa convencer o lulista, o eleitor de centro e até uma parcela dos apoiadores de Riedel de que deixar a segunda opção em branco equivale a abandonar uma cadeira no meio da pista. É nesse compartimento ainda vazio da urna que o petista pretende guardar sua bagagem.
Guilherme Boulos esteve em Campo Grande, caminhou em comunidades, anunciou investimentos federais e pediu o voto no time completo de Lula. Foi reforço importante, mas não era o comandante capaz de mudar sozinho a rota do voo. Vander precisa do próprio presidente, não apenas em gravações eleitorais ou mensagens exibidas no palanque, mas desembarcando em Mato Grosso do Sul, abraçando sua candidatura e explicando ao eleitorado lulista que presidente também precisa de senador. Lula é o único que pode transformar o segundo voto, frequentemente esquecido ou desperdiçado, numa questão nacional.
A operação, entretanto, exige precisão. Lula também precisa socorrer Fábio Trad, que tenta reduzir a enorme distância aberta por Eduardo Riedel na corrida pelo governo. O KC-390 presidencial terá, portanto, de chegar com munição para duas batalhas diferentes: dar musculatura à candidatura de Fábio e impedir que Vander seja abatido pela dobradinha do PL. Se concentrar fogo demais no governo, poderá deixar o candidato ao Senado desguarnecido; se priorizar Vander, corre o risco de confirmar que a eleição estadual já foi entregue ao adversário.
Há ainda uma ironia voando sobre essa campanha. Enquanto Azambuja sempre foi tratado como o nome praticamente embarcado para Brasília, Contar cresce com a força de quem não depende dos prefeitos, mas da identificação direta com o eleitor bolsonarista. Vander, por sua vez, depende justamente daquilo que seu adversário tem de sobra: uma liderança nacional capaz de transformar fidelidade ideológica em voto casado. Flávio Bolsonaro empurra Contar; Lula ainda precisa colocar Vander na garupa.
O pouso prometido pode mudar o clima da campanha, mas não basta abrir a porta do avião e descer a escada sorrindo. Lula terá de pedir claramente o voto em Vander, ensinar o eleitor a usar suas duas escolhas e transformar a eleição para o Senado numa extensão de sua própria disputa pelo Planalto. Caso contrário, o KC-390 poderá pousar cheio de autoridade presidencial e decolar deixando no aeroporto exatamente a munição que veio entregar.
Contar já ganhou altitude. Vander ainda tem pista, combustível e piloto experiente, mas o painel está piscando. Agora, sua campanha depende menos da torre de controle estadual e mais de uma voz conhecida vindo de Brasília: “Aguarde instruções. Reforço a caminho”.
