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segunda-feira, setembro 21, 2026

Simone Tebet pode ser a quarta senadora de Mato Grosso do Sul — eleita por São Paulo

Entre as líderes das pesquisas paulistas, ex-senadora poderá ampliar informalmente a representação de MS em Brasília e formar com o marido, candidato à Assembleia, uma ponte política entre os dois estados

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Valfrido Silva

Se ainda existem dúvidas em Mato Grosso do Sul sobre os dois nomes que farão companhia à senadora Tereza Cristina nos próximos quatro anos no salão azul do Congresso Nacional — embora Reinaldo Azambuja esteja na bica, aclamado pela própria militância como o futuro senador mais votado —, bem menor parece ser a incerteza em relação a outra sul-mato-grossense que se aproxima do retorno ao Senado. Não, não se trata de Soraya Thronicke, que busca a reeleição, mas de sua ex-colega de bancada Simone Tebet, que agora poderá conquistar uma cadeira por São Paulo. Embora não pertença juridicamente à bancada de MS nem possa apresentar-se formalmente como representante do Estado, Simone talvez seja mais sul-mato-grossense do que qualquer um dos candidatos locais e poderá tornar-se, na prática, a nossa quarta senadora — eleita pelos paulistas.

A provocação tem mais geografia afetiva e política do que direito constitucional. Se eleita por São Paulo, Simone deverá seu mandato aos eleitores paulistas e será uma das três representantes daquele estado. Isso não apaga, porém, uma trajetória inteira construída em Mato Grosso do Sul, desde a prefeitura de Três Lagoas até o Senado, passando pelo governo estadual, pela Assembleia Legislativa e pela herança política do pai, Ramez Tebet. Domicílio eleitoral se transfere no cartório; pertencimento não cabe em formulário.

Simone está no pelotão da frente da disputa paulista pelas duas vagas ao Senado. As pesquisas divergem sobre a ordem, mas concordam que ela é competitiva. No Datafolha, aparece com 13%, empatada numericamente com Marina Silva e tecnicamente com outros candidatos. O Paraná Pesquisas registra Marina com 30,4%, Simone com 29,5% e Guilherme Derrite com 28,9%. Na Futura/100% Cidades, Marina tem 34,9% e Simone, 32,7%. Já o Real Time Big Data coloca Derrite com 19%, Simone e André do Prado com 17%, além de Marina com 13%. Há cinco nomes disputando seriamente duas cadeiras, portanto ninguém deveria encomendar a beca da posse, mas Simone aparece em todos os levantamentos dentro da briga.

É uma situação curiosa. Enquanto Mato Grosso do Sul tenta descobrir se elegerá Azambuja e Capitão Contar, Azambuja e Vander Loubet ou alguma combinação que a urna ainda esconde, uma política formada aqui pode conquistar por São Paulo uma cadeira que já ocupou em nome dos sul-mato-grossenses. Caso isso aconteça, MS terá oficialmente três senadores e, na prática, uma quarta voz com autoridade, memória e relações suficientes para defender seus interesses no plenário e nos corredores do Congresso.

Simone sabe como fazer isso. Foi senadora por Mato Grosso do Sul entre 2015 e 2023, liderou a bancada feminina, presidiu a Comissão de Constituição e Justiça e ganhou projeção nacional durante a CPI da Covid. Antes dela, o mesmo plenário recebeu Ramez Tebet, eleito senador por MS em 1994 e reeleito em 2002. O pai foi ainda mais longe: presidiu o Senado entre 2001 e 2003 e, nessa condição, deu posse ao primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Tal como Ramez, Simone saiu do Congresso para ocupar um ministério. O pai comandou a Integração Nacional; a filha assumiu o Planejamento. Simone, porém, alcançou projeção eleitoral nacional ao disputar a Presidência da República em 2022 pelo MDB e terminar em terceiro lugar. A campanha lhe deu uma dimensão política que já não cabia inteiramente nas fronteiras de Mato Grosso do Sul e ajuda a explicar por que Lula a levou para o governo e por que São Paulo agora a acolheu como candidata.

Ela também não é pioneira nesse território onde lideranças nacionais atravessam divisas estaduais sem abandonar as raízes anteriores. José Sarney construiu sua carreira no Maranhão, governou o estado, foi senador por lá e chegou à Presidência da República com a morte de Tancredo Neves. Quando voltou ao Senado, elegeu-se pelo Amapá, que representou formalmente por 24 anos, sem jamais deixar de exercer influência decisiva sobre a política maranhense. Transferiu o título; não transferiu o centro de gravidade.

Leonel Brizola realizou travessia ainda mais espetacular. Governou o Rio Grande do Sul, viveu no exílio e, de volta ao Brasil, reconstruiu a carreira no Rio de Janeiro, tornando-se o único político eleito pelo voto direto para governar dois estados diferentes. Juscelino Kubitschek também atravessou fronteiras: depois de governar Minas Gerais e presidir a República, elegeu-se senador por Goiás. O prestígio nacional permitiu que todos se tornassem maiores do que a unidade da Federação impressa em seus diplomas eleitorais.

A própria Marina Silva, que hoje divide com Simone a dianteira em pesquisas paulistas, oferece o paralelo mais próximo. Foi vereadora de Rio Branco, deputada estadual e senadora pelo Acre durante dois mandatos. Mais tarde transferiu sua vida eleitoral para São Paulo, elegeu-se deputada federal pelo estado e agora tenta voltar ao Senado pelos paulistas. Se Marina e Simone vencerem, São Paulo poderá eleger duas senadoras importadas, uma da floresta acreana e outra do cerrado sul-mato-grossense, talvez a mais federativa das bancadas dentro da própria Federação.

No caso de Simone, o laço com MS continuará ainda mais visível porque o marido, Eduardo Rocha, disputa uma cadeira na Assembleia Legislativa. Ex-deputado estadual por três mandatos e ex-secretário da Casa Civil, ele montou uma base que alcança dezenas de municípios e é apontado como candidato competitivo. Se os dois forem eleitos, o casal estabelecerá uma ponte doméstica entre a Assembleia de Mato Grosso do Sul e a bancada paulista no Senado: ele cuidando oficialmente da política estadual; ela representando São Paulo sem precisar esquecer o estado onde nasceu politicamente.

Se Simone não vencer, mas Lula conquistar novo mandato, ninguém deverá se surpreender caso ela reencontre espaço num ministério. Sua estatura nacional, a experiência administrativa e a lealdade demonstrada ao governo mantêm essa porta aberta. Com mandato ou sem ele, Simone dificilmente deixará de ser uma interlocutora de Mato Grosso do Sul em Brasília.

Resta apenas uma dúvida protocolar. Se Simone Tebet for eleita senadora por São Paulo, quando o próximo governador de Mato Grosso do Sul — Eduardo Riedel, Fábio Trad ou quem receber a chave do Parque dos Poderes — precisar de sua ajuda em Brasília, deverá marcar audiência com uma representante paulista ou simplesmente telefonar para a quarta senadora de MS?

A Constituição responderá São Paulo. A política, provavelmente, atenderá Mato Grosso do Sul.

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