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terça-feira, setembro 22, 2026

Debate do Midiamax vira espetáculo deplorável e faz a democracia apanhar dentro e fora do palco

Oito candidatos, uma hora e meia, acusações rasteiras e pancadaria entre militantes transformaram a oportunidade de discutir Mato Grosso do Sul num lamentável festival de despreparo

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Valfrido Silva

O debate entre os oito candidatos ao governo de Mato Grosso do Sul deveria ter sido uma das oportunidades mais importantes desta reta final da campanha. Acabou transformado num espetáculo deplorável da democracia, daqueles em que o eleitor se senta diante da televisão esperando ouvir propostas para saúde, educação, segurança e desenvolvimento, mas termina assistindo a uma mistura de tribunal improvisado, ringue verbal e, do lado de fora, pancadaria de verdade. Faltaram ideias no palco e sobrou disposição para o confronto na plateia. Quando até a Polícia Militar precisa intervir para separar cabos eleitorais distribuindo socos e bandeiradas, já não se sabe se estamos escolhendo um governador ou tentando descobrir qual torcida ficará de pé depois do último intervalo.

É difícil imaginar que Eduardo Riedel, Fábio Trad, João Henrique Catan, Renato Gomes, Lucien Rezende, Delcídio do Amaral e os demais candidatos não tivessem algo mais importante a oferecer ao eleitor do que desperdiçar uma hora e meia com agressões, provocações e acusações lançadas sem tempo, disposição ou documentos para que fossem devidamente esclarecidas. Um governador que busca a reeleição deveria ter a oportunidade de explicar o que fez e o que ainda pretende fazer e não ficar no canto do ringue se defendendo de golpes baixos. Seus adversários deveriam mostrar onde ele falhou e como fariam diferente. Era essa a encomenda. O que chegou à mesa foi um prato requentado de ressentimentos, palavras de ordem e pequenos recortes destinados menos ao eleitor do que aos algoritmos das redes sociais.

O caso mais lamentável envolveu Daniel Lemes, candidato indígena do PCO, personagem até então desconhecido da maioria do eleitorado. Não se trata aqui de questionar a legitimidade de suas denúncias nem de negar a violência histórica sofrida pelos povos originários. Mato Grosso do Sul carrega conflitos fundiários antigos, mortes, abandono e feridas que nenhum governo conseguiu fechar. Tudo isso precisa ser discutido, cobrado e enfrentado. Mas chamar o governador de “genocida”, “mentiroso” e “assassino de indígena” não esclarece responsabilidades, não apresenta solução e tampouco melhora a vida dentro das aldeias. Apenas transforma uma tragédia real em munição eleitoral de consumo rápido.

É triste ver, mais uma vez, um ilustre representante dos povos originários colocado na linha de frente de uma guerra partidária como bucha de canhão. Daniel poderia ter usado seu tempo para apresentar um programa indígena construído a partir de sua própria experiência: água potável, habitação, saúde, educação, segurança alimentar, produção sustentável e solução para a questão fundiária. Preferiu — ou foi induzido pela lógica de uma candidatura que precisava desesperadamente aparecer — debulhar acusações que renderiam cortes para as redes sociais. No fim, não foi somente ele que ficou exposto. Toda a comunidade indígena acabou arrastada para o palco como massa de manobra de uma disputa que terminará na urna, mas cujas consequências continuarão nas aldeias.

Os povos indígenas dependem decisivamente de políticas públicas, como dependem milhões de brasileiros marginalizados pelo desenvolvimento que aparece nas estatísticas, mas nem sempre chega à porta de casa. Essas políticas não são perfeitas, jamais serão suficientes e devem ser permanentemente fiscalizadas. Na saúde indígena, sobretudo, as deficiências continuam graves. Isso não significa que nada tenha sido feito. Existem programas de habitação, abastecimento de água, assistência social, educação e investimentos compartilhados entre União, Estado, municípios e bancada federal. Cobrar mais é obrigação; fingir que tudo começou ontem ou que tudo se resume à vontade homicida de um governante é propaganda.

Há ainda a questão cultural, frequentemente ignorada tanto pelos governos quanto pelos salvadores eleitorais que aparecem de quatro em quatro anos. Não se pode impor às comunidades indígenas soluções desenhadas em gabinetes, mas também não se pode abandonar famílias inteiras sob o pretexto de respeitar tradições. Entre o paternalismo oficial e a exploração ideológica existe um enorme território onde deveriam caber diálogo, ciência, respeito e políticas públicas construídas com os próprios indígenas, não apenas em nome deles.

Enquanto esse triste espetáculo acontecia no auditório, do lado de fora as torcidas completavam a obra. Socos, empurrões e bandeiradas foram transmitidos ao vivo justamente quando um repórter descrevia o ambiente como tranquilo. A ironia não poderia ser mais perfeita nem mais cruel. Militantes que deveriam defender projetos demonstraram que mal conseguem dividir uma calçada. Houve acusações de agressão contra mulheres e gente que terminou a noite na delegacia. A baixaria verbal do palco encontrou sua tradução física na porta do debate.

Não houve vencedor. Riedel saiu atacado, mas não abatido. Fábio Trad, Catan, Delcídio do Amaral, Renato Gomes e Lucien Rezende perderam tempo precioso que poderiam ter usado para mostrar por que merecem governar. Os demais conseguiram alguns segundos de exposição, provavelmente suficientes para alimentar as redes e insuficientes para convencer quem esperava seriedade. Perdeu a empresa que promoveu um encontro legítimo e necessário. Perdeu o eleitor, que recebeu ruído onde deveria haver informação. E perdeu principalmente a democracia, reduzida a um espetáculo em que candidatos trocam acusações dentro do auditório enquanto seus cabos eleitorais trocam pancadas do lado de fora.

Debate deveria ser uma janela aberta para o futuro. O de ontem terminou como um espelho do presente: muita gente gritando, pouca gente ouvindo e quase ninguém dizendo a Mato Grosso do Sul para onde pretende levá-lo.

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