20.4 C
Dourados
segunda-feira, outubro 5, 2026

As urnas afastaram um problema de Marçal, criaram outros e anteciparam a disputa municipal

Com a Cavala em Brasília e os aliados fortalecidos, a sucessão douradense começa dois anos antes da hora

- Publicidade -

Valfrido Silva*

O prefeito Marçal Filho livrou-se de um problema na Câmara Municipal, mas as urnas colocaram outros, muito maiores, diante da porta de seu gabinete. A eleição da vereadora Isa Marcondes, a Cavala, para a Câmara Federal retira do plenário municipal uma oposicionista ruidosa, imprevisível e sempre disposta a transformar a tribuna, as redes sociais e até assuntos de alcova em instrumentos de combate político. Em compensação, entrega-lhe mandato federal, imunidade parlamentar, microfone nacional e acesso às emendas das quais Dourados continuará precisando. Marçal poderá respirar aliviado por não ter mais a Cavala relinchando tão perto, mas não poderá fechar-lhe a porteira. Prefeito algum do segundo maior município do Estado se dá ao luxo de dispensar dinheiro de Brasília por incompatibilidade de temperamentos.

Ainda assim, é um problema menor quando comparado ao relacionamento mantido nos últimos anos com Geraldo Resende, o deputado federal que deixará a cadeira justamente para a chegada de Isa. Geraldo sempre orbitou o campo dos aliados, mas foi daqueles aliados que obrigam o prefeito a dormir com um olho aberto e o Diário Oficial debaixo do travesseiro. Médico, ex-secretário estadual de Saúde, deputado de sucessivos mandatos e dono de uma estrutura política própria, jamais dependeu de Marçal para existir. Ao contrário: ambos dividiram durante décadas o mesmo território eleitoral, às vezes no mesmo palanque, quase sempre medindo cuidadosamente o tamanho da sombra que um projetava sobre o outro. A Cavala pode dar coices; Geraldo conhecia os corredores, as porteiras e os atalhos.

O problema é que a saída de um velho concorrente não deixa o campo vazio. Rodolfo Nogueira, o Gordinho do Bolsonaro, saiu das urnas reeleito, fortalecido e com motivos suficientes para começar a contemplar, de longe ou de perto, a cadeira de Marçal. Publicamente, o prefeito sempre o tratou como aliado. O deputado também correspondeu enquanto a conveniência recomendava. Mas alianças políticas possuem prazo de validade e, muitas vezes, vencem exatamente quando um dos aliados começa a considerar pequena a cadeira que ocupa. Rodolfo tem mandato federal, ligação direta com o bolsonarismo, estrutura partidária e uma votação que lhe permite sonhar. Se antes precisava ser puxado, agora pode se imaginar puxador — inclusive do tapete municipal.

Ao lado dele está Gianni Nogueira, atual vice-prefeita, esposa de Rodolfo e agora deputada estadual eleita com a maior votação de Dourados. Gianni encontra-se ainda mais perto da linha sucessória porque já está dentro da Prefeitura, conhece a administração, participa da fotografia oficial e poderá usar o mandato na Assembleia para cultivar presença nos bairros e recursos para o município. É a situação clássica em que o prefeito olha para o lado e encontra a vice; olha para Brasília e encontra o marido da vice; olha para 2028 e talvez encontre os dois discutindo em família quem deverá reivindicar a herança. A eleição de domingo não rompeu formalmente a aliança, mas alterou brutalmente a relação de forças dentro dela.

Talvez esteja aí a explicação para a cautela quase cirúrgica da nota divulgada pelo gabinete de Marçal nesta segunda-feira. O prefeito cumprimentou todos os deputados federais e estaduais eleitos, mas, ao nominar os protagonistas da vitória, preferiu deter-se no governador Eduardo Riedel e nos senadores Reinaldo Azambuja e Capitão Contar. Falou da histórica reeleição de Riedel, dos quase 70% recebidos pelo governador em Dourados, dos 76.935 votos destinados a Reinaldo e da votação expressiva de Contar. Quando chegou aos deputados, entretanto, a homenagem tornou-se coletiva: os oito federais de um lado, os 24 estaduais do outro. Nenhum Rodolfo, nenhuma Gianni, nenhuma Cavala, nenhum Zé Teixeira, nenhum Tiago Botelho e nenhuma Gleice Jane. A nota foi tão protocolar que parecia redigida com luvas para não deixar impressões digitais na sucessão municipal.

Não significa que Marçal tenha rompido com os Nogueira ou decidido hostilizar a nova bancada. Significa apenas que prefeito experiente não entrega, numa nota de congratulações, o protagonismo que os possíveis sucessores passarão os próximos dois anos tentando conquistar. Ao defender a importância das emendas parlamentares para saúde, educação, habitação, segurança e recuperação da malha viária, Marçal reconheceu que precisará de todos. Mas preferiu falar da bancada como substantivo coletivo. Individualizar demais seria começar a distribuir, antes da hora, credenciais para 2028.

O cuidado torna-se ainda mais necessário porque Marçal nunca foi propriamente um bolsonarista. Sua origem política está ligada ao grupo do ex-governador André Puccinelli, no MDB, e durante muito tempo o prefeito exibiu o bico tucano que lhe permitia transitar pelo centro, apoiar candidatos de direita e permanecer em cima do muro sem parecer desconfortável. Agora o muro ficou estreito. De um lado, estão Rodolfo e Gianni, ligados diretamente a Jair Bolsonaro e empoderados pelas urnas. Do outro, a oposição petista também saiu fortalecida com a reeleição de Gleice Jane e a eleição de Tiago Botelho.

Botelho, o mais afoito, não esconde o desejo de voltar a disputar a Prefeitura. Gleice possui mandato, militância consolidada e presença em segmentos que o campo conservador nem sempre alcança. Ambos podem tentar recuperar para o PT a cadeira que já pertenceu a Laerte Tetila, um dos prefeitos mais bem avaliados da história de Dourados. A esquerda local, que durante algum tempo pareceu condenada a administrar lembranças, saiu das urnas com dois mandatos estaduais e uma disputa interna sobre quem chegará primeiro à largada de 2028.

Marçal, portanto, venceu e ganhou problemas. Conservou o alinhamento com Riedel, viu Reinaldo chegar ao Senado e poderá contar com uma bancada douradense maior e politicamente diversificada. Ao mesmo tempo, perdeu a comodidade de ser o único nome naturalmente colocado no centro do tabuleiro municipal. A deputada federal Isa Cavala continuará cobrando, agora de Brasília. Rodolfo poderá transformar a amizade em projeto sucessório. Gianni deixará a Vice-Prefeitura para assumir a cadeira na Assembleia, levando consigo a projeção conquistada dentro da administração municipal e abrindo espaço para que a presidente da Câmara passe a ocupar o primeiro lugar na linha de substituição de Marçal. Tiago e Gleice trabalharão para fazer oposição e disputar entre si a condição de herdeiros de Tetila.

Entre a cruz e a espada, Marçal ainda dispõe da principal vantagem: está sentado na cadeira que todos desejam. Tem a caneta, a máquina administrativa, aprovação popular e dois anos para mostrar resultados. Mas terá de administrar Dourados enquanto administra os aliados, os adversários e, principalmente, os aliados que podem virar adversários sem precisar mudar sequer de fotografia.

A urna livrou o prefeito da Cavala no plenário municipal. Em compensação, deixou um gordinho, uma vice, dois petistas e a própria Cavala rondando seu gabinete. Menos mal que todos prometem mandar emendas. Para Marçal, será preciso recebê-las sorrindo e conferir se, junto com o dinheiro, não chegou também o projeto de alguém tomar-lhe a cadeira.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.

- Publicidade -
- Publicidade -
- Publicidade -

Últimas Notícias

Últimas Notícias

- Publicidade-