Valfrido Silva*
Há um velho ditado, desses que perderam a delicadeza antes mesmo de nascer, segundo o qual pobre nunca come caviar e, quando come, passa mal. A frase carrega uma crueldade social desnecessária, mas guarda uma advertência que serve perfeitamente à política: há gente que, depois de provar um pouco de poder, nunca mais consegue voltar à mesa comum. Confunde mandato com título de nobreza, gabinete com propriedade particular, assessor com criado e eleitor com figurante contratado para aplaudir. Quando perde a cadeira, não sofre apenas uma derrota eleitoral. Sofre uma espécie de despejo existencial. A pessoa continua a mesma, mas o mundo, de repente, para de lhe abrir a porta.
São as viúvas de 2026. Não choram propriamente a democracia, o projeto coletivo ou as grandes propostas que juravam defender. Choram a estrutura, o carro, o motorista, os assessores, as diárias, o telefone atendido no primeiro toque e aquela reverência artificial que acompanha qualquer pessoa temporariamente instalada perto do cofre público. Algumas tinham mandato. Outras jamais conseguiram um, mas possuíam dinheiro suficiente para montar ao redor de si a cenografia do poder. Em ambos os casos, passaram a campanha convencidas de que a urna deveria reconhecer o investimento, como se eleição fosse aplicação financeira com resgate automático na noite de domingo.
Foram elas que decoraram ruas e avenidas das principais cidades do Estado com totens monumentais. Em cada esquina havia um rosto maior que a obra realizada, um sorriso mais largo que a intenção de voto e um número eleitoral apresentado como senha de acesso ao futuro. Na reta final, os totens se multiplicaram tanto que parecia impossível atravessar uma cidade sem ser observado por candidatos em tamanho natural, alguns com os braços cruzados, outros apontando para o horizonte e todos demonstrando uma confiança que as urnas não haviam autorizado. O eleitor passava por eles silenciosamente. Os marqueteiros confundiram silêncio com admiração. Era apenas o povo esperando a oportunidade de responder sem precisar discutir.
Nas redes sociais, pintaram, bordaram, dançaram e sapatearam. Gravaram vídeos dentro de caminhonetes, em lavouras, academias, feiras, igrejas, cozinhas e currais. Alguns descobriram subitamente que gostavam de crianças, idosos, cachorros, tereré e pão com mortadela. Outros se apresentaram como bichões indomáveis, embora passassem a campanha inteira no colo de coronéis políticos, abanando o rabo ao primeiro carinho e rosnando apenas quando o dono autorizava. Insistiam que não eram bichinhos de estimação de ninguém. Talvez acreditassem mesmo. Todo animal bem domesticado imagina que escolheu sozinho a coleira.
O deslumbramento produziu também sua cota de crueldade. Velhos amigos deixaram de receber um abraço. Companheiros de caminhada passaram a ser tratados como incômodos. Gente que ajudara a abrir portas foi obrigada a esperar na antessala enquanto recém-chegados, portadores de dinheiro, influência ou bajulação mais eficiente, entravam sem bater. O candidato, cercado por aduladores profissionais, começou a acreditar que sua presença iluminava ambientes, que suas frases mereciam registro histórico e que qualquer crítica nascia da inveja. Não percebeu que o poder emprestado cobra juros altos e que os primeiros a abandonar um derrotado são justamente aqueles que mais se curvavam quando imaginavam que ele venceria.
Dinheiro também não faltou. Alguns rasgam fortunas em toda eleição com a perseverança de quem tenta comprar na urna aquilo que jamais conseguiu construir na rua. Imprimem montanhas de material, alugam exércitos de cabos eleitorais, ocupam outdoors, adesivam veículos e contratam especialistas encarregados de transformar rejeição em “desconhecimento”. Quando os votos não aparecem, culpam o partido, a legenda, os aliados, as pesquisas, a chuva, o sol, o algoritmo, a imprensa e, em último caso, o próprio eleitor, acusado de não compreender a grande oportunidade que lhe foi oferecida.
Talvez alguns tenham servido também àquelas lavanderias do fundão eleitoral sobre as quais tanto se falou durante a campanha. Candidaturas que movimentam dinheiro, contratam serviços, espalham material e produzem despesas muito superiores à musculatura política que possuem. A eleição passa, os votos desaparecem, mas as notas fiscais ficam. Nem toda candidatura foi organizada para vencer; algumas parecem concebidas apenas para circular recursos, remunerar estruturas e justificar gastos. A derrota, nesses casos, não seria acidente. Seria apenas um item previsto no orçamento.
Agora vem a parte mais dolorosa: reaprender a pedir. Os bichões que entravam nos gabinetes sem anunciar a chegada precisarão telefonar várias vezes. Alguns buscarão sobrevida em sinecuras oferecidas pelos mesmos poderosos dos quais juravam independência. Aceitarão cargos menores, assessorias discretas e funções com nomes pomposos, mas sem serventia conhecida. Depois de prometerem transformar o Estado, talvez terminem encarregados de coordenar alguma assessoria de assuntos que ninguém sabia existir. Dirão que aceitaram a missão para continuar servindo à população. A população, ingrata, talvez nem perceba. Ou seja, de deputado (a) a “aspone”.
Para os que ainda conservarem alguma humildade, haverá sempre a eleição municipal. A vereança funciona como escola política e também como teste de realidade. É preciso voltar aos bairros, apertar mãos sem fotógrafo, ouvir reclamações sem poder mandar o assessor resolver e descobrir quantos votos cabem realmente dentro do próprio nome. Alguns poderão recomeçar. Outros considerarão humilhante disputar uma cadeira na Câmara depois de terem sonhado com Brasília ou com a Assembleia. Esses ainda não compreenderam que humilhante não é começar de baixo. Humilhante é continuar se imaginando grande depois que a urna forneceu as medidas exatas.
As viúvas de 2026 passarão os próximos dias recolhendo os totens, apagando vídeos, dispensando militantes e tentando explicar como campanhas tão grandiosas terminaram em votações tão pequenas. Seus aduladores desaparecerão rapidamente. Os celulares tocarão menos. Os convites rarearão. Em algum momento, diante do espelho, talvez descubram que nunca foram donos do poder, apenas hóspedes barulhentos de um quarto pago pelo eleitor.
O caviar não lhes fez mal. O que lhes fez mal foi imaginar que o banquete duraria para sempre. Agora, sem mandato, sem corte e sem a reverência dos que já procuram outro colo, terão de reaprender a sentar-se à mesa comum, a dividir a conta da cerveja. Algumas conseguirão. Outras passarão quatro anos chorando a viuvez e juntando dinheiro para rasgar novamente na próxima eleição.
Porque perder uma eleição é absolutamente normal. Difícil é perder a fantasia de que se nasceu eleito, por conta da soberba, aliada de primeira hora da incompetência e do amadorismo militante por essas bandas.
(*) jornalista e editor do contrapontoMS, em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor.
