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segunda-feira, outubro 5, 2026

Barbosinha, o curinga que vai continuar ajudando Riedel a governar sem fazer barulho

Reeleito vice-governador, ele combina lealdade, experiência administrativa e força política sem disputar com o titular o centro do palco

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Valfrido Silva*

Antes que algum fiscal de amizades descubra o segredo e denuncie conflito de interesses, melhor colocar logo as cartas sobre a mesa: José Carlos Barbosa, o Barbosinha, é meu amigo. Daqueles com quem tomo café invariavelmente às segundas-feiras na Padaria do Fuxico. Mesmo quando já fiz o breakfast em casa, ele praticamente me obriga a dividir um misto quente e mais um cafezinho. Em meio à balbúrdia do lugar, encontramos sempre alguns minutos para um teretetê de pé de orelha, uma informação em off, uma avaliação sobre o Estado ou apenas aquela conversa que não precisa render manchete. A ética não exige que jornalista deixe de ter amigos. Exige que não esconda do leitor quando escreve sobre um deles. Não foi diferente nesse day after de sua reeleição como vice-governador. Eu nem pretendia ir hoje à padaria, mas o chamado no zap é sempre irrecusável: “Bora tomar um café?”.

Feita a ressalva, vamos ao político. Barbosinha é hoje o grande curinga do governo de Eduardo Riedel. Não o curinga espalhafatoso, que aparece em todas as fotografias e exige o próprio nome em cada obra inaugurada. É o que pode ocupar diferentes posições, entrar quando o jogo aperta e oferecer ao governador algo raro na política: tranquilidade. Não apenas quando Riedel viaja e lhe entrega formalmente o comando do Estado, mas no cotidiano de uma administração em que o vice participa, articula, aconselha, percorre municípios e ajuda a resolver problemas sem transformar cada movimento numa disputa pelo centro do palco.

O currículo explica parte dessa confiança. Advogado e professor de Direito, Barbosinha foi prefeito de Angélica ainda na década de 1970, quando se tornou um dos mais jovens — apontado à época como o mais jovem — prefeitos do Brasil. Depois foi deputado estadual, secretário de Justiça e Segurança Pública e presidente da Sanesul. Na Segurança, enfrentou uma das áreas mais espinhosas da administração, em permanente contato com crises, corporações, presídios e a bandidagem que não costuma respeitar horário de expediente. Na Sanesul, recebeu uma empresa pressionada pelo debate da privatização e entregou uma estatal reorganizada, saneada e em condições de permanecer pública. Não foi salvo pela Sanesul; ajudou a salvar a Sanesul.

Essa experiência faz diferença num governo comandado por outro político de formação técnica. Riedel não trata Barbosinha como vice decorativo, desses convocados para representar o governo em missa, velório, aniversário de município e inauguração de torneira. Deu-lhe espaço para participar das decisões e presença na articulação regional. Barbosinha correspondeu sem tentar criar uma Vice-Governadoria paralela, montar um governo dentro do governo ou disputar manchetes com o titular. Não à toa que Riedel se declara seu fã. Talvez porque tenha encontrado nele aquilo que todo governador gostaria de ter ao lado: alguém com experiência suficiente para ajudar e segurança para não precisar provar diariamente que também poderia estar sentado na cadeira principal.

A prova maior dessa falta de apego ao cargo apareceu durante a montagem da chapa da reeleição. Até a undécima hora, a vaga de vice permaneceu disponível para as negociações do grupo. Barbosinha não fez barricada em torno dela, não ameaçou romper, não convocou correligionários para exigir sua permanência nem transformou lealdade em chantagem pública. Aceitou que o cargo pudesse servir à composição necessária para garantir a unidade da aliança. Terminou novamente candidato quase como começou quatro anos antes: chamado na hora derradeira, quando as peças precisavam fechar o tabuleiro. Há políticos que passam o mandato inteiro tentando provar que são indispensáveis. Barbosinha mostrou força ao admitir que poderia não ser.

Isso não significa ausência de peso político. Pelo contrário. Sua discrição esconde uma das lideranças mais consistentes da Grande Dourados, do Vale do Ivinhema, do Conesul e da fronteira. Barbosinha conhece prefeitos, vereadores, produtores, servidores e lideranças comunitárias pelo nome. Sabe onde a estrada termina, onde o hospital emperra, onde falta água e onde uma aliança aparentemente sólida começa a rachar. Durante a campanha, foi fundamental nas amarrações regionais que ajudaram Riedel a construir a vitória no primeiro turno. Enquanto outros discursavam para as câmeras, ele costurava nos bastidores — atividade menos vistosa, porém frequentemente mais decisiva.

A vitória de domingo foi comemorada em Dourados, ao lado da família, dos amigos e daqueles que dividiram os últimos meses de caminhada. Riedel e Barbosinha receberam 67,07% dos votos válidos, 914.323 votos, resultado histórico que reconduziu a chapa ainda no primeiro turno. Barbosinha reagiu sem triunfalismo. Falou em “alegria, gratidão e humildade”, atribuiu o resultado ao trabalho realizado, à campanha limpa e positiva e à opção de Riedel por mostrar avanços e apresentar o que ainda pretende fazer. Depois resumiu o tamanho da vitória numa frase que os vencedores costumam esquecer depressa: “A eleição termina, mas a responsabilidade que recebemos das pessoas começa novamente, e ela é ainda maior.”

Também reivindicou, com razão, uma mudança no papel institucional que ocupa. “Acho que nós ressignificamos o papel do vice em Mato Grosso do Sul”, afirmou, ao destacar a relação de confiança, amizade, lealdade e trabalho construída com Riedel. Ressignificar, nesse caso, não foi inventar atribuições constitucionais inexistentes nem competir com o governador. Foi ocupar os espaços oferecidos, participar efetivamente do governo e permanecer disponível para representar o Estado sem parecer um substituto contrariado esperando o titular embarcar no avião.

Barbosinha entra no segundo mandato maior do que entrou no primeiro, mas terá de preservar justamente aquilo que lhe permitiu crescer: a capacidade de exercer influência sem transformá-la em espetáculo. A reeleição fortalece sua liderança regional, amplia sua presença no governo e inevitavelmente coloca seu nome nas conversas sobre o futuro político de Mato Grosso do Sul. O curinga, afinal, pode continuar ajudando a fechar o jogo ou tornar-se peça central da próxima partida. Ainda é cedo para saber. Ele provavelmente diria que há muito trabalho antes disso — e pediria outro café.

Na próxima segunda-feira, se a rotina sobreviver à vitória, estaremos novamente na Padaria do Fuxico. Talvez ele fale dos 914.323 votos, talvez das tarefas do novo mandato, talvez de alguma informação que ficará em off. O misto quente será dividido, mesmo que eu já tenha tomado café em casa. E a amizade continuará exatamente onde deve estar: à mesa, declarada ao leitor e sem impedir que o jornalista enxergue o político. Porque amizade não deve comprar elogio nem proibir reconhecimento. Apenas obriga quem escreve a deixar todas as cartas sobre a mesa. Inclusive o curinga.

(*) jornalista e editor do contrapontoMS em colaboração humano–IA, sob revisão e edição final do autor

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